Acordara sobressaltado. As têmporas intumescidas,
os lábios frementes, o coração a galope. Não pode ser! O quadro sufocante do
pesadelo de que despertara ainda pairava como névoa em sua memória desperta... Filas
intermináveis, vozerios entrecortados por gritos histéricos, corpos apertados
disputando espaço, braços erguidos empunhando celulares, flashes, flashes,
muitos flashes...
Take
1 – Literetes
Take
2 – Sonoretes
- Uhullll!! Cala a boca, Bárbara! – seu grito
ecoou pelo concreto cavernoso do vão.
- Uhullllllllllll!!! – repetiram em uníssono
seus fãs.
Era a glória. Muitos shows agendados,
ingressos esgotados em minutos, capas de revistas, comerciais de televisão,
participações em programas de auditório e muitos, muitos flashes. Sua página no
facebook recebia mais de meio milhão de curtidas por dia. Seu sucesso, Pedaço de mim, mantinha-se no topo da
lista há mais de um mês. Sucesso inquestionável.
- Gênio! Gênio! – gritava a súcia ignóbil...
Take
3 – Imagetes
As poltronas do auditório do Projac já se
encontravam repletas de repórteres e de gente do staff cinematográfico:
roteiristas, dramaturgos, artistas consagrados. L.F. entra,
dirigindo-se ao seu lugar, seguido pelo diretor de criação do núcleo artístico,
Emílio di Biasi, sob calorosos aplausos da claque inepta. O consagrado apresentador,
Pedro Bial, do melhor programa de todos os tempos, Big Brother, anuncia:
- Temos a honra de receber em nossa emissora
um cineasta desta envergadura (o homem tem uns dois metros de altura). Sua
adaptação para o cinema do livro Lavoura
Arcaica foi grande sucesso nas salas brasileiras e no exterior. Mais de 100
milhões de dólares de bilheteria. E ele promete mais: em janeiro, estreará sua
adaptação de um romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, um grande sucesso de vendas. Um best seller!
Hoje, aqui na Globo, vem nos brindar com essa
minissérie que será outro sucesso. Sob sua direção e com roteiro adaptado por
Maria Adelaide Amaral, a minissérie Os
desmaios certamente despertará o interesse do nosso público tão exigente e
levará à revisitação da obra mais consagrada desse grande sucesso de vendas que
é o escritor português Eça de Queiroz. Mas, deixemo-lo falar...
- Bom dia a todos. Bem... agradeço as
palavras do Bial e toda a confiança que a Globo deposita em mim...Não farei
nada além do que já venho fazendo: tentar atender às expectativas estéticas de
um público tão seletivo e refinado. Foram-me dadas todas as condições para
isso. Só me resta servir à altura. Espero conseguir. Obrigado.
Os flashes não cessavam. Bial disponibilizava
o microfone para que a massa fizesse perguntas ao consagrado
cineasta...
- O que será dessa geração? – pergunta,
indignado, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda – Meu filho, aquele pulha,
fazendo sucesso com suas musiquinhas medíocres! – após breve silêncio – E vocês
não sabem... Sua mãe me disse que agora ele anda escrevendo, se metendo em
literatura... era só o que me faltava! De que adiantou cercá-lo de cuidados?
- Acalme-se, Sérgio, acalme-se. – disse
Antonio Candido – É só uma onda. Isso passará. Não acredito que essa
imbecilidade dominará eternamente. O estado deplorável em que se encontra a
educação nesse país é que engendra esse povo prascóvio, que consome coisas
desse tipo. Além do mais, a mídia e o sistema dão os arremates finais. Veja
você, ainda ontem fiquei sabendo que um tal Raduan Nassar, escritorzinho meteórico,
teria sido ovacionado por uma multidão só porque daria autógrafos no lançamento
de um livrinho vagabundo...como se chama mesmo, Bandeira?
- Lavoura
arcaica, Antonio.
- Isso, isso. Lavoura arcaica. Veja se é nome que se dê a uma obra de peso? Mas,
acalme-se, Sérgio. Isso não há de durar...
- Como não? Se os grandes se recolhem, se
calam, abandonam a luta! – Sérgio convulsionava – Afinal, por que Alexandre
Frota tinha que sumir do cenário? Lançou aquele monumento literário, Minha vida, e exilou-se num sitiozinho
em Pindorama? Dizem que agora cria galinhas. Acreditam nisso?! É o fim...Quem
irá nos salvar desses indivíduos medíocres?
- Você tem razão em se deprimir, Sérgio.
Mesmo porque Frota não foi o único. Aquele outro rapaz talentoso, Paulo Coelho,
dizem que nunca mais foi visto, não concede entrevistas, não nos deleita com
mais uma linha sequer... Mas as coisas hão de mudar! Tenhamos esperança! Quem
sabe E.L.James retorne do exílio voluntário e nos alente com mais uma obra
primorosa em tons de cinza...
- O que é isso, Antonio? Deixe de ser
idealista! Você acredita mesmo que a súcia vulgar que aí está dará valor a
esses gênios? A imbecilidade grassa em nossa sociedade. Basta que observe.
Quem, hoje, escuta as maravilhosas e bem elaboradas canções de Michel Teló,
Luan Santana, Restart? Quem? Diga-me! Seus Cds emboloram nas prateleiras das
lojas Americanas, sendo vendidos a preço de banana. Quem mais lê Dan Brown?
Suas obras-primas não são compradas nem por donos de sebos. Ninguém quer! Ninguém
quer! – espumava e as órbitas quase lhe saltavam dos olhos.
- É... você tem razão. É deplorável... enquanto
isso, seu filho arrebenta de vender Cds. E ouvi dizer que foi convidado a
participar daquele programa genial....é...a Fazenda!
Parece-me que ficou tão lisonjeado que pretende escrever um livro, nessa sua
nova febre verborrágica, chamar-se-á Fazenda
modelo. Desculpe-me, Sérgio. Você sabe que tenho apreço por sua família.
Carreguei o Chico no colo quando ainda era um bebê... mas, aquela mania de
ficar trancado no quarto, ouvindo Cartola, Noel Rosa, Gershwin...não poderia sair
coisa que prestasse mesmo. Você e a Maria Amélia não interferiram nas amizades,
esse comportamento liberal de vocês... ele saindo com aqueles boçais,
Pixinguinha, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil...eu
tentei alertá-lo...Ah! Mas, deixe pra lá! – retorquia entre indignado e
apaziguador.
- Ora, Antonio! Eu lá podia imaginar que
aqueles idiotas, sem ideias na cabeça e nem um pingo de talento pudessem
influenciar o Chico? Sempre o incentivei a se afastar daquelas leituras dos
clássicos, escondi alguns Lps, queimei livros...de nada adiantou! Pois ele
chegou a ler tragédias gregas! Você acredita?
- Acredito, Sérgio... ele quis me emprestar
um tal de Sófocles, disse que estava também lendo Homero e cantigas provençais,
Camões...eu percebia o caminho nefasto que seu filho estava trilhando, mas não
queria assombrá-lo, meu amigo.
A conversa atravessou a noite. Ninguém
consolava Sérgio Buarque. Afinal, ele sentia mais intensamente os efeitos degenerativos
dessa nova geração, já que tinha um exemplar em casa. Em vão, Antonio Candido, Drummond
de Andrade, Manuel Bandeira e Graciliano tentavam dissuadi-lo desse assomo
pessimista, rebatendo suas imprecações com novos alentos, com a possibilidade
do resgate dos grandes artistas...e voltavam a suspirar em torno de nomes como
Paulo Coelho, Michel Teló, Dan Brown, Stephenie Meyer, E.L.James, Bonde do
Tigrão, Mr. Catra, Xuxa...
Nem tudo estava perdido ...
Samuel Veratti
Samuel Veratti