"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

CONTRATAM-SE ARTISTAS. (MEFISTO)


Acordara sobressaltado. As têmporas intumescidas, os lábios frementes, o coração a galope. Não pode ser! O quadro sufocante do pesadelo de que despertara ainda pairava como névoa em sua memória desperta... Filas intermináveis, vozerios entrecortados por gritos histéricos, corpos apertados disputando espaço, braços erguidos empunhando celulares, flashes, flashes, muitos flashes...
 
Take 1 – Literetes
 
 Eis que entra a estrela no recinto. A horda insana se descontrola e precisa ser contida pelos seguranças. As fitas que delimitam a fronteira se rompem e uma jovem de microshort, piercing no umbigo e mascando chicletes lança-se sofregamente sobre Raduan. Este, já acostumado a esse tipo de assédio, apenas sorri, receptivo, pedindo calma à fã e aos que tentam protegê-lo. A menina estende-lhe um volume de Lavoura arcaica, clamando por um autógrafo e uma foto. Raduan atende prontamente, mas já pede aos demais para que respeitem a fila. Os ânimos vão se acalmando. Só restam os clicks, flashes, braços erguidos buscando o melhor ângulo e o zunzum afoito da canalha ...
 
Take 2 – Sonoretes
 
 No vão do Masp, uma multidão se aglomera incontida, extravasando os limites da calçada e interrompendo o fluxo da Paulista. Sobre um palco exíguo, Chico Buarque autografa seu último CD, Ópera do malandro, lançado com alarde pela Phillips. Na primeira semana, vendera 2 milhões de cópias. Estava cotado para o Grammy do ano e, muito certamente, levaria o disco de ouro nos programas dominicais mais assistidos. Seu sorriso sedutor, reforçado por aqueles olhos cristalinos e penetrantes não escondiam sua satisfação. Os repórteres se acotovelavam entre os fãs, tentando entrevistá-lo. Quando ajeitou o microfone, a turba calou-se na expectativa de ouvir o ídolo:
       - Uhullll!! Cala a boca, Bárbara! – seu grito ecoou pelo concreto cavernoso do vão.
       - Uhullllllllllll!!! – repetiram em uníssono seus fãs.
       Era a glória. Muitos shows agendados, ingressos esgotados em minutos, capas de revistas, comerciais de televisão, participações em programas de auditório e muitos, muitos flashes. Sua página no facebook recebia mais de meio milhão de curtidas por dia. Seu sucesso, Pedaço de mim, mantinha-se no topo da lista há mais de um mês. Sucesso inquestionável.
       - Gênio! Gênio! – gritava a súcia ignóbil...
 
         Take 3 – Imagetes
 
 Os organizadores davam os retoques finais na bancada que receberia o diretor de cinema, L.F. Carvalhosa, para a coletiva que apresentaria aquilo que prometia ser um sucesso televisivo: a minissérie Os desmaios.
         As poltronas do auditório do Projac já se encontravam repletas de repórteres e de gente do staff cinematográfico: roteiristas, dramaturgos, artistas consagrados. L.F. entra, dirigindo-se ao seu lugar, seguido pelo diretor de criação do núcleo artístico, Emílio di Biasi, sob calorosos aplausos da claque inepta. O consagrado apresentador, Pedro Bial, do melhor programa de todos os tempos, Big Brother, anuncia:
         - Temos a honra de receber em nossa emissora um cineasta desta envergadura (o homem tem uns dois metros de altura). Sua adaptação para o cinema do livro Lavoura Arcaica foi grande sucesso nas salas brasileiras e no exterior. Mais de 100 milhões de dólares de bilheteria. E ele promete mais: em janeiro, estreará sua adaptação de um romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, um grande sucesso de vendas. Um best seller!
         Hoje, aqui na Globo, vem nos brindar com essa minissérie que será outro sucesso. Sob sua direção e com roteiro adaptado por Maria Adelaide Amaral, a minissérie Os desmaios certamente despertará o interesse do nosso público tão exigente e levará à revisitação da obra mais consagrada desse grande sucesso de vendas que é o escritor português Eça de Queiroz. Mas, deixemo-lo falar...
        - Bom dia a todos. Bem... agradeço as palavras do Bial e toda a confiança que a Globo deposita em mim...Não farei nada além do que já venho fazendo: tentar atender às expectativas estéticas de um público tão seletivo e refinado. Foram-me dadas todas as condições para isso. Só me resta servir à altura. Espero conseguir. Obrigado.
        Os flashes não cessavam. Bial disponibilizava o microfone para que a massa  fizesse perguntas ao consagrado cineasta...

 
 Epílogo – Viuvetes

 
 Enquanto isso, no apartamento de um professor de literatura aposentado, um vetusto grupo de amigos, composto por escritores, despeja seus lamentos entre um copo de vinho e outro:
         - O que será dessa geração? – pergunta, indignado, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda – Meu filho, aquele pulha, fazendo sucesso com suas musiquinhas medíocres! – após breve silêncio – E vocês não sabem... Sua mãe me disse que agora ele anda escrevendo, se metendo em literatura... era só o que me faltava! De que adiantou cercá-lo de cuidados?
         - Acalme-se, Sérgio, acalme-se. – disse Antonio Candido – É só uma onda. Isso passará. Não acredito que essa imbecilidade dominará eternamente. O estado deplorável em que se encontra a educação nesse país é que engendra esse povo prascóvio, que consome coisas desse tipo. Além do mais, a mídia e o sistema dão os arremates finais. Veja você, ainda ontem fiquei sabendo que um tal Raduan Nassar, escritorzinho meteórico, teria sido ovacionado por uma multidão só porque daria autógrafos no lançamento de um livrinho vagabundo...como se chama mesmo, Bandeira?
          - Lavoura arcaica, Antonio.
          - Isso, isso. Lavoura arcaica. Veja se é nome que se dê a uma obra de peso? Mas, acalme-se, Sérgio. Isso não há de durar...
          - Como não? Se os grandes se recolhem, se calam, abandonam a luta! – Sérgio convulsionava – Afinal, por que Alexandre Frota tinha que sumir do cenário? Lançou aquele monumento literário, Minha vida, e exilou-se num sitiozinho em Pindorama? Dizem que agora cria galinhas. Acreditam nisso?! É o fim...Quem irá nos salvar desses indivíduos medíocres?
          - Você tem razão em se deprimir, Sérgio. Mesmo porque Frota não foi o único. Aquele outro rapaz talentoso, Paulo Coelho, dizem que nunca mais foi visto, não concede entrevistas, não nos deleita com mais uma linha sequer... Mas as coisas hão de mudar! Tenhamos esperança! Quem sabe E.L.James retorne do exílio voluntário e nos alente com mais uma obra primorosa em tons de cinza...
           - O que é isso, Antonio? Deixe de ser idealista! Você acredita mesmo que a súcia vulgar que aí está dará valor a esses gênios? A imbecilidade grassa em nossa sociedade. Basta que observe. Quem, hoje, escuta as maravilhosas e bem elaboradas canções de Michel Teló, Luan Santana, Restart? Quem? Diga-me! Seus Cds emboloram nas prateleiras das lojas Americanas, sendo vendidos a preço de banana. Quem mais lê Dan Brown? Suas obras-primas não são compradas nem por donos de sebos. Ninguém quer! Ninguém quer! – espumava e as órbitas quase lhe saltavam dos olhos.
           - É... você tem razão. É deplorável... enquanto isso, seu filho arrebenta de vender Cds. E ouvi dizer que foi convidado a participar daquele programa genial....é...a Fazenda! Parece-me que ficou tão lisonjeado que pretende escrever um livro, nessa sua nova febre verborrágica, chamar-se-á Fazenda modelo. Desculpe-me, Sérgio. Você sabe que tenho apreço por sua família. Carreguei o Chico no colo quando ainda era um bebê... mas, aquela mania de ficar trancado no quarto, ouvindo Cartola, Noel Rosa, Gershwin...não poderia sair coisa que prestasse mesmo. Você e a Maria Amélia não interferiram nas amizades, esse comportamento liberal de vocês... ele saindo com aqueles boçais, Pixinguinha, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil...eu tentei alertá-lo...Ah! Mas, deixe pra lá! – retorquia entre indignado e apaziguador.
           - Ora, Antonio! Eu lá podia imaginar que aqueles idiotas, sem ideias na cabeça e nem um pingo de talento pudessem influenciar o Chico? Sempre o incentivei a se afastar daquelas leituras dos clássicos, escondi alguns Lps, queimei livros...de nada adiantou! Pois ele chegou a ler tragédias gregas! Você acredita?
           - Acredito, Sérgio... ele quis me emprestar um tal de Sófocles, disse que estava também lendo Homero e cantigas provençais, Camões...eu percebia o caminho nefasto que seu filho estava trilhando, mas não queria assombrá-lo, meu amigo.
           A conversa atravessou a noite. Ninguém consolava Sérgio Buarque. Afinal, ele sentia mais intensamente os efeitos degenerativos dessa nova geração, já que tinha um exemplar em casa. Em vão, Antonio Candido, Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Graciliano tentavam dissuadi-lo desse assomo pessimista, rebatendo suas imprecações com novos alentos, com a possibilidade do resgate dos grandes artistas...e voltavam a suspirar em torno de nomes como Paulo Coelho, Michel Teló, Dan Brown, Stephenie Meyer, E.L.James, Bonde do Tigrão, Mr. Catra, Xuxa...
          Nem tudo estava perdido ...
                                                                                    Samuel Veratti