A
inconsistência é a consistência nessa civilização, cuja consistência, por sua
vez, está na inconsistência de seus membros.
(Roberto
Schwarz)
Black mirror está
virando “modinha”? Tomara! Mas a torcida apenas se justifica se for para
assistir a essa série com espírito preparado para receber choques de realidade
através da ficção. O efeito é incômodo e desconcertante. Se a encararmos como
mais uma diversão, desprezaremos alguns episódios em relação a outros. Caso a
enfrentemos com seriedade, o sentido do julgamento será alterado. A questão
primária parece ser a de como nos colocamos diante de uma droga, no caso, a
tecnologia. E a questão secundária, porém mais importante, é a do nível de
alienação do espectador, que determinará o valor reflexivo ou a profundidade da
queda.
O
seu criador, Charlie Brooker, afirmou que a proposta da série é pensar a
tecnologia como uma droga e especular sobre quais seriam seus efeitos
colaterais. Já a socióloga brasileira, Silvia Viana, percebeu algo ainda mais
interessante: não se trata apenas dos efeitos colaterais da tecnologia, mas sim
do papel mediador desta entre as relações humanas desgastadas. Visto por esse
viés, cada episódio exige seriedade e aprofunda ainda mais as discussões.
Todos
os episódios merecem uma análise à parte, ainda que o ponto em comum entre eles
seja o uso das tecnologias avançadas. Acredito que, além de cumprir muito bem o
papel que a arte tem como espelho da sociedade, ou seja, refletir os problemas,
deixando a nosso encargo a busca de soluções, a série captura um aspecto
importante da matéria contemporânea: a nossa relação com o tempo. Grosso modo,
poderíamos definir o presentismo como
uma espécie de “achatamento” do tempo, em que a sensação é a de que não há
passado nem futuro, tudo é presente, um “tempo homogêneo e vazio”. Esse é o
efeito causado pela tecnologia apresentada em cada episódio. O fato de os
recursos tecnológicos serem muito avançados e ainda não estarem à disposição no
mercado causa a sensação do que virá (futuro). Ao mesmo tempo, o estado, a
condição do ser humano mediado por essas tecnologias é indiscutivelmente atual,
presente. Eis a grande qualidade desse “espelho negro”: desligado, ele nos reflete
em sua tela. Findo cada episódio e desligado os black mirrors (celulares, tablets, televisores), a imagem refletida
somos nós mesmos, ou melhor, um outro eu de mim mesmo. O enfrentamento de si ou
não determinará o grau de maturidade ou de infantilidade humana. Com a síndrome
de Peter Pan que grassa por aí, quem tem coragem intelectual de sair da
menoridade e mergulhar nesse pântano? Qual pílula você escolherá?
"Se tomar a pílula azul a história
acaba e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar
a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai
a toca do coelho. Lembre-se tudo o que ofereço é a verdade. Nada mais." (Morpheus,
Matrix)
O
primeiro episódio da terceira temporada, Nosedive,
inspirou a produtora Netflix a criar um site (Rate me) que permite que as pessoas avaliem as outras e sejam
avaliadas. Por trás dessa “brincadeira divertida” há muita seriedade. Esse não
é o único episódio que explora a questão da avaliação, julgamento e eliminação
social. O produto vendido pela Endemol – empresa holandesa responsável pelo
formato dos reality shows - adequa uma gama de programas como Master Chef, O aprendiz, The Voice e Big Brother, entre outros que comportam
a mesma disposição avaliadora de performances. Com o pensamento suspenso,
aplaudem-se perversidades como se fossem inocentes diversões. A emoção
manipulada encobre o crime.
O
aspecto mais assustador – que passa despercebido aos espíritos alienados – é o
fato de que se paga para assistir ao julgamento de pessoas por seus
semelhantes, sendo que aquelas são expostas a uma série de humilhações físicas
(comerem coisas nojentas, por exemplo), psicológicas e morais (serem
inferiorizadas brutalmente pelas falhas). Em suma, o sofrimento alheio
transformado em mercadoria que diverte...e
permitido pelo estado, ou seja, para a violência que dá lucro não há lei
institucional. Tudo em nome do deus dinheiro. Esse modelo não começou agora.
Basta que se observe o mesmo espírito estúpido que rege as “brincadeiras”
bizarras em Jackass e no seu modelo
brasileiro de quinta categoria, o programa Pânico.
Se bem observado, estamos rindo diante da dor (física ou psicológica) do outro.
Como veem, não é brincadeira, mas acumula capital.
Um
olhar ainda mais atento permite que enxerguemos o adestramento das almas. O
formato de enclausuramento, provas, avaliações, julgamentos e eliminações é o mesmo
do cenário concorrencial do mundo empresarial, que promete se estender a todas
as esferas institucionais da sociedade e que já atingiu a dimensão subjetiva de
cada indivíduo. Qualquer leitor que esteja inserido no mundo corporativo, sendo
consciente e sincero, assumirá essa verdade. Outros ainda, sem que estejam, já podem olhar
para si mesmos e notarem o quanto desse modelo já foi interiorizado, virando
autocobrança, ou seja, já somos “empresas” de nós mesmos, administrando cada
gesto nosso a fim de atender às expectativas insaciáveis do mercado competitivo
(nossa timeline em redes sociais
tornou-se extensão de nosso currículo de formação acadêmica e experiência
profissional).
A
“necessidade” de pertencimento social, portanto, ultrapassa a ingênua inserção
na modinha do cabelo, do “estilo” de roupa usada, do filme assistido, da música
ouvida, da brincadeira do momento, para atingir cada detalhe “no vão da unha da
alma”. E se você não souber como agir, contrate um coaching pessoal para ajudá-lo a melhorar o desempenho em todas as
áreas da sua vida, afinal, está sendo avaliado pela performance no mercado
concorrencial e seu "valor" depende disso. Trata-se da “expansão da
racionalidade de mercado a toda a existência por meio da generalização da forma-empresa”.
A nova razão do mundo, cujo espírito foi capturado pelo formato dos programas
mencionados, que representam o modus
operandi do mercado, exposto à nossa capacidade analítica.
Essa
cobrança foi interiorizada e modificou as almas, que, assim formatadas, passam
a aceitar tudo isso como se fosse natural, atendendo ao projeto anunciado por
Margaret Thatcher, nos idos de 1990, de “mudar a alma e o coração” das pessoas.
Assim, os adeptos ferrenhos do capitalismo e atuais idólatras do neoliberalismo
(dentre eles, uma nova esquerda) conquistaram o mundo pelo qual tanto lutaram:
a identificação do mercado com uma realidade natural. Uma vida pautada pela
lógica do mercado, conforme formulação feita por Alain Minc acerca do
pensamento de Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat - autores de cabeceira de
Ronald Reagan - “o capitalismo não pode ruir, ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é
o estado natural da sociedade. O mercado sim”. Pronto. O credo naturalista do liberalismo
econômico acumula suas “vitórias” e nós colhemos nossa ruína humana. Não há que
se comover com o alto custo psíquico – humano, portanto - já que os lucros “vão
bem, obrigado” e nos permitem comprar ansiolíticos e antidepressivos à vontade.
O
ingrediente “estimulador” dessa paranoia spenceriana generalizada chama-se
desemprego. Todos fomos tornados Donas Plácidas e Quincas Borbas diante de alguns
Brás Cubas com moedas nas mãos, donos de nossas vidas. A mesma insegurança a
que estavam submetidos aqueles célebres personagens de ficção - representativos
das relações socioeconômicas desde a colônia - é a nossa mais real situação de
insegurança: há sempre o fantasma do desemprego a nos espreitar e uma fila de
semelhantes para tranquilizar o empregador e continuar movendo as engrenagens,
independentemente de crises econômicas recorrentes (basta observar o aumento do
número de milionários, conforme estudo do Banco Credit Suisse divulgado pelo
Estadão). Nesse mundo líquido, nada está garantido, nenhum extremado zelo de
nossa parte é suficiente, e, sob a pressão da ameaça constante, nós nos tornamos
nossos próprios e ininterruptos avaliadores, sôfregos rumo à inalcançável
perfeição. “Engolimos” a câmera do Big Brother. Somos obrigados a sorrir 24
horas por dia, 365 dias do ano, em “fotos” que indiquem “espírito de grupo”,
pois somos nossos próprios filmadores.
Essas
poucas reflexões partem apenas do subproduto ocasionado por um dos episódios de
Black Mirror. Um desdobramento de
lucro para a Netflix, que está aquém do estrago psicossocial causado,
desmascarando uma contradição que confirma a linha de interesse mercadológico
da empresa que ela é. A mesma empresa que produz uma série tão profundamente
crítica acerca da degradação humana se aproveita da ideia de um dos episódios
para lucrar com a invenção de um site que estimula um sistema de avaliações
comandado, muitas vezes, por digitais invejosas, hipócritas, interesseiras,
vingativas, desonestas, criminosas, corruptas, sociopatas, psicopatas...enfim, dedos
humanos falhos, almas doentes julgando as doenças alheias, e, acima de tudo,
individualistas, portanto, dessolidarizadas. Julgando, sem nunca se preocupar
em cuidar. Catastroficamente inconscientes.
Do
julgamento social da protagonista do episódio White bear ao linchamento daquele jovem amarrado a um poste, em
2014, no Rio de Janeiro; da exposição aviltante do primeiro ministro em The National Anthem às escutas
telefônicas sem embasamento jurídico no cenário de eliminação na política
brasileira; e do sequestro da intimidade de um adolescente em Shut Up and Dance à administração da nossa
imagem exposta em redes sociais, passamos por alguns exemplos de eliminação do
estado de direito (estruturado pelas instâncias jurídicas de julgamento e
absolvição/condenação efetivos) e chegamos ao nível tacanho dos pseudojuristas,
pseudosociólogos e pseudofilósofos de plantão no Facebook e nos comentários
judiciosos de leitores e espectadores falhos, sem pensarmos no quanto estamos
expostos a isso também, já que nos julgamos cidadãos de bem, frequentadores de
igrejas, colaboradores em movimentos filantrópicos etc etc. Em suma: a minha e
a sua vida estão expostas e à mercê de julgamentos feitos por pessoas comuns, destituídas
de qualquer conhecimento especializado, aparato jurídico e, bovinamente, movidas pelas impressões ditadas por uma
“moral” arbitrária e egoísta, cuja aparência social nada garante. Nesse
cenário, cada indivíduo é responsabilizado pelo mínimo gesto, independente das
suas condições de existência, começando pelos mais enfraquecidos. Regressamos à
condição selvática de competição. Civilização ou barbárie? Queda livre. Próxima
postagem...
Samuel Veratti
Sugestões bibliográficas
ARANTES,
Paulo Eduardo. O novo
tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São
Paulo: Boitempo, 2014.
DARDOT
& LAVAL. A nova razão do mundo:
ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
SCHWARZ,
Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A
sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
VIANA,
Silvia. Rituais de sofrimento. São
Paulo: Boitempo, 2013.