Quando reduzida ao ato
sensual mais simples – na prostituição – a relação entre os sexos limita-se ao
que tem de mais genérico, ao que todo exemplar da espécie é capaz de sentir e
fazer; nela as personalidades mais opostas se encontram, enquanto as diferenças
individuais desaparecem. Em Economia, o correspondente dessa espécie de relação
é o dinheiro, o tipo genérico dos valores econômicos, pois também ele não se
ocupa com determinações individuais, mas antes visa o que é comum a todos os
valores. Por essa razão experimentamos na sua natureza algo da prostituição. A
indiferença com que se presta a tudo, a ligeireza com que se desprende das
pessoas, pois não se liga verdadeiramente a nenhuma, a eficácia que tem por ser
puro meio, que exclui qualquer
vínculo afetivo – tudo impõe essa sua analogia sinistra com a prostituição.
(Georg Simmel)
Fausto,
o célebre personagem goethiano que fez um pacto com o diabo (Mefistófeles) para
obter prazeres, deu sua alma em troca de poder. Perdeu a posse de sua alma, perdeu
a si mesmo, perdeu a autonomia e a liberdade. Etimologicamente, “autonomia”
significa “o direito de reger-se segundo leis próprias”, por extensão o
“direito de um indivíduo tomar decisões livremente”. Embora a aproximação entre
essa definição e o conceito de Liberdade não seja muito precisa, nada impede
que tratemos aqui da autonomia como sinônimo de liberdade e, nos atendo à
liberdade que a autonomia proporciona, aproximarmos seu efeito da noção do que seja
a Felicidade. Ser feliz é ser livre.
Atualmente,
o conceito de Felicidade anda atrelado ao consumo. Toda propaganda, de uma
forma ou de outra, sugere que ser feliz é ter aquilo que ela oferece, e o que
ela oferece são bens materiais ou recursos para atingi-los. Assim, feliz é quem
tem posses ou o poder de tê-las, proporcionado pelo dinheiro. Não é
insignificante que a ciência de Fausto fosse a alquimia, pois a magia desta é
transformar pobres metais em ouro. E o que é o dinheiro senão um “pobre” papel-moeda
transformado em ouro? Esse ouro compra
felicidade.
Assim
como Fausto, o ser humano faz de tudo para ser feliz, não é verdade? Afinal, a
felicidade é o bem supremo. Mas e a liberdade? Ao imaginarmo-nos livres também não
gozamos previamente o sentimento pleno de felicidade? Para a maioria, a cota
semanal de felicidade não se realiza às sextas-feiras quando tira o uniforme
escolar ou deixa o posto de trabalho para retomá-lo apenas na segunda-feira?
Não é o final de semana que se brinda nas redes sociais? Pois bem, pouquíssimos
responderiam negativamente a essas perguntas. Sendo assim, poderíamos dizer que
a verdadeira felicidade é ser livre e reunir liberdade e felicidade em um
pensamento comum hoje em dia: “ser feliz
é ser livre para consumir”. E o meio
que realiza o desejo de consumo chama-se dinheiro. O dinheiro possibilita que
eu atenda a meus propósitos pessoais.
O
que colheríamos então da relação entre prostituição, dinheiro e felicidade? Como
desenvolver o pensamento de Simmel com que este texto foi epigrafado? No sexto
capítulo da sua “Filosofia do dinheiro”, Simmel aponta o valor positivo do
poder de abstração e da objetividade característica do dinheiro e do intelecto.
Objetividade necessária para governar uma infinidade de desejos pessoais.
Ocorre que, na sequência, o sociólogo opõe uma “contra-instância decisiva”
Ao lado dessa objetividade impessoal,
própria à inteligência em função de seus conteúdos, existe uma relação
extremamente próxima entre essa inteligência e a individualidade e todo o
princípio do individualismo; o dinheiro, por seu lado, quanto mais transforma
os modos de agir impulsivos e subjetivos em modos supra-pessoais e
objetivamente normativos, é o viveiro do individualismo e do egoísmo
econômicos. Aqui temos evidentemente diante de nós as ambiguidades e
complexidades dos conceitos que convém analisar claramente para compreender o
estilo de vida por eles caracterizados.
A
marca de negatividade do dinheiro se dá pelo fato de ele alimentar o
individualismo e o egoísmo econômico, além de ser “sentido em toda parte como
um fim”. Ele contamina as relações interpessoais, na maioria das vezes
destituindo-as de qualquer afeto ou consideração humana recíproca, o que as
transforma em simples relações de interesse. Esse fenômeno se torna mais acentuado num sistema competitivo. Para Schwarz, “a presença do
dinheiro politiza a vida interior” e "não há camaradagem possível quando êxito e consumo de um são a fome e o fracasso de outro". Faz-nos lembrar ainda Adorno, a quem uma educação para o capital e para o poder geraria pessoas frias.
Segundo Simmel, “no interior dos negócios monetários, todas as pessoas têm o mesmo valor, não porque cada uma tem seu valor, mas porque nenhuma tem valor, somente o dinheiro”. Na relação de troca entre um produto e uma nota, a abstração do valor dá a medida desse valor. No caso da prostituição, a troca do corpo pelo dinheiro sem vínculo afetivo estabelece a mais crassa das equivalências. Seu efeito mais nocivo se dá ao prostituir inclinações pessoais e estabelecer uma equivalência geral entre bens desiguais, com a diferença que "a equivalência conquistada pelo dinheiro, é sofrida pelos homens". A violência operada pelo dinheiro está em “ensinar” o pacto entre a autonomia de agir e de sentir e algo que não está à altura disso. Trata-se de um processo degradante, ainda que tenha se “naturalizado” por força da ordem social propagada.
Segundo Simmel, “no interior dos negócios monetários, todas as pessoas têm o mesmo valor, não porque cada uma tem seu valor, mas porque nenhuma tem valor, somente o dinheiro”. Na relação de troca entre um produto e uma nota, a abstração do valor dá a medida desse valor. No caso da prostituição, a troca do corpo pelo dinheiro sem vínculo afetivo estabelece a mais crassa das equivalências. Seu efeito mais nocivo se dá ao prostituir inclinações pessoais e estabelecer uma equivalência geral entre bens desiguais, com a diferença que "a equivalência conquistada pelo dinheiro, é sofrida pelos homens". A violência operada pelo dinheiro está em “ensinar” o pacto entre a autonomia de agir e de sentir e algo que não está à altura disso. Trata-se de um processo degradante, ainda que tenha se “naturalizado” por força da ordem social propagada.
O
dinheiro mede as qualidades em escala de quantidade, tornando-as mercadorias,
portanto cambiáveis. Consequentemente, as relações “humanas” passam a ser
mercantis, já que o dinheiro se “infiltra em todos os domínios autônomos”. Para
entendermos o extremo da aproximação entre dinheiro e prostituição além da
questão da equivalência, devemos imaginar a condição daquele que não possui meios
de produção (propriedade) e que, portanto, não tem garantia de sobrevivência. A
necessidade lhe “ensinará” a equivalência entre qualquer esforço e qualquer
dinheiro. Sob esta condição, trocará sua autonomia de pensamento e de
sentimento – sua dignidade, portanto - por uma moeda, cujo valor será decidido
por outra pessoa (que nessa relação de dependência, exerce o poder). Pela
necessidade, resta-lhe acatar a equivalência.
Acontece
que o valor que damos a nossa autonomia está exatamente na autonomia. Se autonomia
determina liberdade, ser obrigado a vendê-la é perder a liberdade. Eis o
paradoxo. A violência se dá pela necessidade e pela troca a que se é obrigado.
Ora, isso contraria o conceito de felicidade associado à liberdade. O dinheiro
pelo qual ela é trocada estabelece uma equivalência entre “valores” díspares:
qual seria o “preço” da sua alma?
O
fundamento dessa relação de troca é a expropriação de si mesmo. A violência se
perfaz na perda total: sem meios de produção (propriedade material), sem garantias
de sobrevivência (situação de dependência) e também sem o domínio de si mesmo
(à mercê do domínio pleno do outro), não resta nada, a não ser uma força de
trabalho sobre a qual também não se terá autonomia. Em
muitos casos, o que resta de si é pago por uma quantia que não compra o que seu
próprio trabalho produz, logo o dinheiro força a equivalência entre bens que
não se equivalem. Pura alquimia mefistofélica. O que é seu (seu corpo, seu
pensamento, seu sentimento) é desvalorizado para valorizar um produto que não
será seu. Essa violência é legalizada com
nome de ordem social, selada no salário, pago em “alquímico” dinheiro.
Nessa
naturalização do processo de equivalência, o assalariado é obrigado a escolher
sua própria violação, sua instância de prostituição, seu processo de degradação.
Quem reage à aberração desse processo de equivalência passa a ser visto como ameaça
à “ordem natural” das coisas, pois “um coração menos fácil de triturar” impede
a “marcha gloriosa da civilização”, como ressaltou Balzac. O que muitas vezes
não se percebe conscientemente é que o dinheiro, ao mesmo tempo que possibilita
a realização de alguns propósitos pessoais, esvazia esses propósitos ao
destituí-los da sua autonomia, dada a sua “natureza mutiladora”.
Afinal,
que liberdade é essa? Quando a busca do dinheiro para a realização de desígnios
se torna objetivo único, obsessão, passa-se de escravo do outro a escravo de si
mesmo, de escravo de uma empresa a empresa de si mesmo. Da competição com o
outro nesse campo de luta pela sobrevivência, passo a competir com meus
próprios limites. E não há limites nesse sistema concorrencial. Nessa dialética
sinistra, o mesmo sistema que promete a felicidade trazida pelo deus-dinheiro,
ao ser internalizado, não permite que o escravo seja feliz. Quem sabe miseravelmente
nas folgas semanais... se Mefisto liberar.
Samuel Veratti
Notas
1. Fausto:
(adj.) que é feliz, venturoso ou (s.m.) pompa, ostentação.
2. “Mefisto
liberar”: deixar livre (ironia).
Referências bibliográficas
BALZAC,
Honoré de. O pai Goriot. São Paulo:
Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.
GOETHE,
Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia.
São Paulo: Editora 34, 2013.
SCHWARZ,
Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A
sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
SIMMEL, Georg. Philosophie des Geldes. Frankfurt/M,
Suhrkamp, 1989. (Fragmento citado através de material de aula do Prof. Leopoldo
Waizbort)