"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

LACAN E DRUMMOND SOB UM CÉU DE CHUMBO



Se não fizermos da morte de Deus uma grande renúncia e uma perpétua
vitória sobre nós mesmos, teremos que pagar por essa perda.
(Nietzsche)

Se não tenho pai, então eu devo me engendrar a mim mesmo.
(Danny-Robert Dufour)


Uma característica dramática da pós-modernidade talvez seja o fim da transcendência. Os rumos da tribo humana têm sido, cada vez mais, determinados por essa falta, esse vazio, essa ausência de um referencial externo constitutivo da subjetividade e, consequentemente, balizador dos comportamentos. Mas a transcendência também trouxe suas doenças: carnificinas em nome de Deus, do Rei e da Raça, por exemplo. O seu fim abre um campo de possibilidades, mas, por hora, tem apenas sinalizado novos distúrbios psicossociais.
A proposta interessante de Lacan foi a busca de uma universalidade sem transcendência. Caso eu não esteja equivocado, essa ideia tem base kantiana e corresponde ao imperativo categórico como norteador ético do comportamento humano. No entanto, esse pretenso imperativo precisa ser internalizado para que opere “naturalmente”. E, se não me engano, a internalização de um “governo” depende de um processo de simbolização que retorna ao impasse gerado pela pós-modernidade: em nome de quem eu devo me comportar?
Não sei a resposta de Lacan, ainda que não nos reste dúvida de que o homem pós-moderno é autorreferente: empresa de si mesmo. Por hora, observo apenas um ponto de contato entre a proposta lacaniana e o eu-lírico drummondiano, ateu e ético. Se considerarmos Claro enigma, de 1951, como sendo uma espécie de ponto final no arco da sua caminhada pela estrada pedregosa, notaremos que a poesia de Drummond representa uma busca incessante pelo sentido da vida, o qual não prescinde da relação com o outro. E qual seria, para ele, o referencial (grande Outro lacaniano) em nome do qual se deveria agir perante o próximo? Certamente, essa questão era intrínseca à poesia drummondiana, e os anos 1940 foram decisivos para que ela ficasse à flor da pele, dada a tragédia da Segunda Grande Guerra. Nas duas obras coetâneas a esse período paroxístico – Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945) – evidencia-se o apelo ao amor fraterno como a base para um imperativo categórico.
Nas entrelinhas, o poeta cantou o amor, sugerido pela indignação perante a barbárie da violência visível e invisível, pela valorização das coisas simples, pela relação simbólica com a Natureza, pelo recurso ao gesto solidário, pela crença em uma nova ordem mundial, pela comunhão através da poesia. Como balanço negativo desse esforço, temos o último poema de Claro enigma, “Relógio do Rosário”, em que o poeta conclui que o único fenômeno capaz de unir os seres humanos e de despertar a noção de universalidade sem transcendência, talvez, fosse a Dor...


(...)

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual...

Desiludido, desiste da capacidade do amor...

O amor elide a face...Ele murmura
Algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
Nada é de natureza tão casta

Que não macule ou perca sua essência
Ao contato furioso da existência.


Não se discute o niilismo que permeia Claro enigma. Restaria avaliar com mais acuidade se esse niilismo era lúcido ou esgotado, conforme pensado por Nietzsche. A permissão para o azul dado ao céu, na última estrofe do último poema, sinaliza a lucidez de quem pretende recomeçar a partir do nada. Em célebre frase, Freud afirmou que o “amor é a cura, mas também a loucura”. E Lacan concluiu que, em análise, “não se faz outra coisa, senão falar de amor”. Mas se amor - ainda com Lacan - “é dar o que não se tem a alguém que não o quer”, como encontrar um substituto que sele o compromisso universal, se nem a dor humana comove aquele que não tem governo, nem nunca terá: o desejo? Quem sabe, reinventando o amor, para o qual não há substituto.

                                                                       Samuel Veratti

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BLACK MIRROR: ESPELHO DA VIDA DEGRADADA



A inconsistência é a consistência nessa civilização, cuja consistência, por sua vez, está na inconsistência de seus membros.
                                                                                                                  (Roberto Schwarz)


Black mirror está virando “modinha”? Tomara! Mas a torcida apenas se justifica se for para assistir a essa série com espírito preparado para receber choques de realidade através da ficção. O efeito é incômodo e desconcertante. Se a encararmos como mais uma diversão, desprezaremos alguns episódios em relação a outros. Caso a enfrentemos com seriedade, o sentido do julgamento será alterado. A questão primária parece ser a de como nos colocamos diante de uma droga, no caso, a tecnologia. E a questão secundária, porém mais importante, é a do nível de alienação do espectador, que determinará o valor reflexivo ou a profundidade da queda.

O seu criador, Charlie Brooker, afirmou que a proposta da série é pensar a tecnologia como uma droga e especular sobre quais seriam seus efeitos colaterais. Já a socióloga brasileira, Silvia Viana, percebeu algo ainda mais interessante: não se trata apenas dos efeitos colaterais da tecnologia, mas sim do papel mediador desta entre as relações humanas desgastadas. Visto por esse viés, cada episódio exige seriedade e aprofunda ainda mais as discussões.

Todos os episódios merecem uma análise à parte, ainda que o ponto em comum entre eles seja o uso das tecnologias avançadas. Acredito que, além de cumprir muito bem o papel que a arte tem como espelho da sociedade, ou seja, refletir os problemas, deixando a nosso encargo a busca de soluções, a série captura um aspecto importante da matéria contemporânea: a nossa relação com o tempo. Grosso modo, poderíamos definir o presentismo como uma espécie de “achatamento” do tempo, em que a sensação é a de que não há passado nem futuro, tudo é presente, um “tempo homogêneo e vazio”. Esse é o efeito causado pela tecnologia apresentada em cada episódio. O fato de os recursos tecnológicos serem muito avançados e ainda não estarem à disposição no mercado causa a sensação do que virá (futuro). Ao mesmo tempo, o estado, a condição do ser humano mediado por essas tecnologias é indiscutivelmente atual, presente. Eis a grande qualidade desse “espelho negro”: desligado, ele nos reflete em sua tela. Findo cada episódio e desligado os black mirrors (celulares, tablets, televisores), a imagem refletida somos nós mesmos, ou melhor, um outro eu de mim mesmo. O enfrentamento de si ou não determinará o grau de maturidade ou de infantilidade humana. Com a síndrome de Peter Pan que grassa por aí, quem tem coragem intelectual de sair da menoridade e mergulhar nesse pântano? Qual pílula você escolherá?


"Se tomar a pílula azul a história acaba e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se tudo o que ofereço é a verdade. Nada mais." (Morpheus, Matrix)


O primeiro episódio da terceira temporada, Nosedive, inspirou a produtora Netflix a criar um site (Rate me) que permite que as pessoas avaliem as outras e sejam avaliadas. Por trás dessa “brincadeira divertida” há muita seriedade. Esse não é o único episódio que explora a questão da avaliação, julgamento e eliminação social. O produto vendido pela Endemol – empresa holandesa responsável pelo formato dos reality shows - adequa uma gama de programas como Master Chef, O aprendiz, The Voice e Big Brother, entre outros que comportam a mesma disposição avaliadora de performances. Com o pensamento suspenso, aplaudem-se perversidades como se fossem inocentes diversões. A emoção manipulada encobre o crime.

O aspecto mais assustador – que passa despercebido aos espíritos alienados – é o fato de que se paga para assistir ao julgamento de pessoas por seus semelhantes, sendo que aquelas são expostas a uma série de humilhações físicas (comerem coisas nojentas, por exemplo), psicológicas e morais (serem inferiorizadas brutalmente pelas falhas). Em suma, o sofrimento alheio transformado em mercadoria que diverte...e permitido pelo estado, ou seja, para a violência que dá lucro não há lei institucional. Tudo em nome do deus dinheiro. Esse modelo não começou agora. Basta que se observe o mesmo espírito estúpido que rege as “brincadeiras” bizarras em Jackass e no seu modelo brasileiro de quinta categoria, o programa Pânico. Se bem observado, estamos rindo diante da dor (física ou psicológica) do outro. Como veem, não é brincadeira, mas acumula capital.

Um olhar ainda mais atento permite que enxerguemos o adestramento das almas. O formato de enclausuramento, provas, avaliações, julgamentos e eliminações é o mesmo do cenário concorrencial do mundo empresarial, que promete se estender a todas as esferas institucionais da sociedade e que já atingiu a dimensão subjetiva de cada indivíduo. Qualquer leitor que esteja inserido no mundo corporativo, sendo consciente e sincero, assumirá essa verdade.  Outros ainda, sem que estejam, já podem olhar para si mesmos e notarem o quanto desse modelo já foi interiorizado, virando autocobrança, ou seja, já somos “empresas” de nós mesmos, administrando cada gesto nosso a fim de atender às expectativas insaciáveis do mercado competitivo (nossa timeline em redes sociais tornou-se extensão de nosso currículo de formação acadêmica e experiência profissional).

A “necessidade” de pertencimento social, portanto, ultrapassa a ingênua inserção na modinha do cabelo, do “estilo” de roupa usada, do filme assistido, da música ouvida, da brincadeira do momento, para atingir cada detalhe “no vão da unha da alma”. E se você não souber como agir, contrate um coaching pessoal para ajudá-lo a melhorar o desempenho em todas as áreas da sua vida, afinal, está sendo avaliado pela performance no mercado concorrencial e seu "valor" depende disso. Trata-se da “expansão da racionalidade de mercado a toda a existência por meio da generalização da forma-empresa”. A nova razão do mundo, cujo espírito foi capturado pelo formato dos programas mencionados, que representam o modus operandi do mercado, exposto à nossa capacidade analítica.

Essa cobrança foi interiorizada e modificou as almas, que, assim formatadas, passam a aceitar tudo isso como se fosse natural, atendendo ao projeto anunciado por Margaret Thatcher, nos idos de 1990, de “mudar a alma e o coração” das pessoas. Assim, os adeptos ferrenhos do capitalismo e atuais idólatras do neoliberalismo (dentre eles, uma nova esquerda) conquistaram o mundo pelo qual tanto lutaram: a identificação do mercado com uma realidade natural. Uma vida pautada pela lógica do mercado, conforme formulação feita por Alain Minc acerca do pensamento de Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat - autores de cabeceira de Ronald Reagan - “o capitalismo não pode ruir, ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado sim”.  Pronto. O credo naturalista do liberalismo econômico acumula suas “vitórias” e nós colhemos nossa ruína humana. Não há que se comover com o alto custo psíquico – humano, portanto - já que os lucros “vão bem, obrigado” e nos permitem comprar ansiolíticos e antidepressivos à vontade.  

O ingrediente “estimulador” dessa paranoia spenceriana generalizada chama-se desemprego. Todos fomos tornados Donas Plácidas e Quincas Borbas diante de alguns Brás Cubas com moedas nas mãos, donos de nossas vidas. A mesma insegurança a que estavam submetidos aqueles célebres personagens de ficção - representativos das relações socioeconômicas desde a colônia - é a nossa mais real situação de insegurança: há sempre o fantasma do desemprego a nos espreitar e uma fila de semelhantes para tranquilizar o empregador e continuar movendo as engrenagens, independentemente de crises econômicas recorrentes (basta observar o aumento do número de milionários, conforme estudo do Banco Credit Suisse divulgado pelo Estadão). Nesse mundo líquido, nada está garantido, nenhum extremado zelo de nossa parte é suficiente, e, sob a pressão da ameaça constante, nós nos tornamos nossos próprios e ininterruptos avaliadores, sôfregos rumo à inalcançável perfeição. “Engolimos” a câmera do Big Brother. Somos obrigados a sorrir 24 horas por dia, 365 dias do ano, em “fotos” que indiquem “espírito de grupo”, pois somos nossos próprios filmadores.

Essas poucas reflexões partem apenas do subproduto ocasionado por um dos episódios de Black Mirror. Um desdobramento de lucro para a Netflix, que está aquém do estrago psicossocial causado, desmascarando uma contradição que confirma a linha de interesse mercadológico da empresa que ela é. A mesma empresa que produz uma série tão profundamente crítica acerca da degradação humana se aproveita da ideia de um dos episódios para lucrar com a invenção de um site que estimula um sistema de avaliações comandado, muitas vezes, por digitais invejosas, hipócritas, interesseiras, vingativas, desonestas, criminosas, corruptas, sociopatas, psicopatas...enfim, dedos humanos falhos, almas doentes julgando as doenças alheias, e, acima de tudo, individualistas, portanto, dessolidarizadas. Julgando, sem nunca se preocupar em cuidar. Catastroficamente inconscientes.

Do julgamento social da protagonista do episódio White bear ao linchamento daquele jovem amarrado a um poste, em 2014, no Rio de Janeiro; da exposição aviltante do primeiro ministro em The National Anthem às escutas telefônicas sem embasamento jurídico no cenário de eliminação na política brasileira; e do sequestro da intimidade de um adolescente em Shut Up and Dance à administração da nossa imagem exposta em redes sociais, passamos por alguns exemplos de eliminação do estado de direito (estruturado pelas instâncias jurídicas de julgamento e absolvição/condenação efetivos) e chegamos ao nível tacanho dos pseudojuristas, pseudosociólogos e pseudofilósofos de plantão no Facebook e nos comentários judiciosos de leitores e espectadores falhos, sem pensarmos no quanto estamos expostos a isso também, já que nos julgamos cidadãos de bem, frequentadores de igrejas, colaboradores em movimentos filantrópicos etc etc. Em suma: a minha e a sua vida estão expostas e à mercê de julgamentos feitos por pessoas comuns, destituídas de qualquer conhecimento especializado, aparato jurídico e, bovinamente,  movidas pelas impressões ditadas por uma “moral” arbitrária e egoísta, cuja aparência social nada garante. Nesse cenário, cada indivíduo é responsabilizado pelo mínimo gesto, independente das suas condições de existência, começando pelos mais enfraquecidos. Regressamos à condição selvática de competição. Civilização ou barbárie? Queda livre. Próxima postagem...

                                                                                 Samuel Veratti

Sugestões bibliográficas

ARANTES, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
DARDOT & LAVAL. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
SCHWARZ, Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
VIANA, Silvia. Rituais de sofrimento. São Paulo: Boitempo, 2013.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A BOLSA OU A VIDA, SR. FAUSTO?


Quando reduzida ao ato sensual mais simples – na prostituição – a relação entre os sexos limita-se ao que tem de mais genérico, ao que todo exemplar da espécie é capaz de sentir e fazer; nela as personalidades mais opostas se encontram, enquanto as diferenças individuais desaparecem. Em Economia, o correspondente dessa espécie de relação é o dinheiro, o tipo genérico dos valores econômicos, pois também ele não se ocupa com determinações individuais, mas antes visa o que é comum a todos os valores. Por essa razão experimentamos na sua natureza algo da prostituição. A indiferença com que se presta a tudo, a ligeireza com que se desprende das pessoas, pois não se liga verdadeiramente a nenhuma, a eficácia que tem por ser puro meio, que exclui qualquer vínculo afetivo – tudo impõe essa sua analogia sinistra com a prostituição.

                                               (Georg Simmel)

 Fausto, o célebre personagem goethiano que fez um pacto com o diabo (Mefistófeles) para obter prazeres, deu sua alma em troca de poder. Perdeu a posse de sua alma, perdeu a si mesmo, perdeu a autonomia e a liberdade. Etimologicamente, “autonomia” significa “o direito de reger-se segundo leis próprias”, por extensão o “direito de um indivíduo tomar decisões livremente”. Embora a aproximação entre essa definição e o conceito de Liberdade não seja muito precisa, nada impede que tratemos aqui da autonomia como sinônimo de liberdade e, nos atendo à liberdade que a autonomia proporciona, aproximarmos seu efeito da noção do que seja a Felicidade. Ser feliz é ser livre.
Atualmente, o conceito de Felicidade anda atrelado ao consumo. Toda propaganda, de uma forma ou de outra, sugere que ser feliz é ter aquilo que ela oferece, e o que ela oferece são bens materiais ou recursos para atingi-los. Assim, feliz é quem tem posses ou o poder de tê-las, proporcionado pelo dinheiro. Não é insignificante que a ciência de Fausto fosse a alquimia, pois a magia desta é transformar pobres metais em ouro. E o que é o dinheiro senão um “pobre” papel-moeda transformado em ouro?  Esse ouro compra felicidade.
Assim como Fausto, o ser humano faz de tudo para ser feliz, não é verdade? Afinal, a felicidade é o bem supremo. Mas e a liberdade? Ao imaginarmo-nos livres também não gozamos previamente o sentimento pleno de felicidade? Para a maioria, a cota semanal de felicidade não se realiza às sextas-feiras quando tira o uniforme escolar ou deixa o posto de trabalho para retomá-lo apenas na segunda-feira? Não é o final de semana que se brinda nas redes sociais? Pois bem, pouquíssimos responderiam negativamente a essas perguntas. Sendo assim, poderíamos dizer que a verdadeira felicidade é ser livre e reunir liberdade e felicidade em um pensamento comum hoje em dia: “ser feliz é ser livre para consumir”. E o meio que realiza o desejo de consumo chama-se dinheiro. O dinheiro possibilita que eu atenda a meus propósitos pessoais.
O que colheríamos então da relação entre prostituição, dinheiro e felicidade? Como desenvolver o pensamento de Simmel com que este texto foi epigrafado? No sexto capítulo da sua “Filosofia do dinheiro”, Simmel aponta o valor positivo do poder de abstração e da objetividade característica do dinheiro e do intelecto. Objetividade necessária para governar uma infinidade de desejos pessoais. Ocorre que, na sequência, o sociólogo opõe uma “contra-instância decisiva”  

Ao lado dessa objetividade impessoal, própria à inteligência em função de seus conteúdos, existe uma relação extremamente próxima entre essa inteligência e a individualidade e todo o princípio do individualismo; o dinheiro, por seu lado, quanto mais transforma os modos de agir impulsivos e subjetivos em modos supra-pessoais e objetivamente normativos, é o viveiro do individualismo e do egoísmo econômicos. Aqui temos evidentemente diante de nós as ambiguidades e complexidades dos conceitos que convém analisar claramente para compreender o estilo de vida por eles caracterizados. 

A marca de negatividade do dinheiro se dá pelo fato de ele alimentar o individualismo e o egoísmo econômico, além de ser “sentido em toda parte como um fim”. Ele contamina as relações interpessoais, na maioria das vezes destituindo-as de qualquer afeto ou consideração humana recíproca, o que as transforma em simples relações de interesse. Esse fenômeno se torna mais acentuado num sistema competitivo.  Para Schwarz, “a presença do dinheiro politiza a vida interior” e "não há camaradagem possível quando êxito e consumo de um são a fome e o fracasso de outro". Faz-nos lembrar ainda Adorno, a quem uma educação para o capital e para o poder geraria pessoas frias.

       Segundo Simmel, “no interior dos negócios monetários, todas as pessoas têm o mesmo valor, não porque cada uma tem seu valor, mas porque nenhuma tem valor, somente o dinheiro”. Na relação de troca entre um produto e uma nota, a abstração do valor dá a medida desse valor. No caso da prostituição, a troca do corpo pelo dinheiro sem vínculo afetivo estabelece a mais crassa das equivalências. Seu efeito mais nocivo se dá ao prostituir inclinações pessoais e estabelecer uma equivalência geral entre bens desiguais, com a diferença que "a equivalência conquistada pelo dinheiro, é sofrida pelos homens". A violência operada pelo dinheiro está em “ensinar” o pacto entre a autonomia de agir e de sentir e algo que não está à altura disso.  Trata-se de um processo degradante, ainda que tenha se “naturalizado” por força da ordem social propagada.
O dinheiro mede as qualidades em escala de quantidade, tornando-as mercadorias, portanto cambiáveis. Consequentemente, as relações “humanas” passam a ser mercantis, já que o dinheiro se “infiltra em todos os domínios autônomos”. Para entendermos o extremo da aproximação entre dinheiro e prostituição além da questão da equivalência, devemos imaginar a condição daquele que não possui meios de produção (propriedade) e que, portanto, não tem garantia de sobrevivência. A necessidade lhe “ensinará” a equivalência entre qualquer esforço e qualquer dinheiro. Sob esta condição, trocará sua autonomia de pensamento e de sentimento – sua dignidade, portanto - por uma moeda, cujo valor será decidido por outra pessoa (que nessa relação de dependência, exerce o poder). Pela necessidade, resta-lhe acatar a equivalência.
Acontece que o valor que damos a nossa autonomia está exatamente na autonomia. Se autonomia determina liberdade, ser obrigado a vendê-la é perder a liberdade. Eis o paradoxo. A violência se dá pela necessidade e pela troca a que se é obrigado. Ora, isso contraria o conceito de felicidade associado à liberdade. O dinheiro pelo qual ela é trocada estabelece uma equivalência entre “valores” díspares: qual seria o “preço” da sua alma?
O fundamento dessa relação de troca é a expropriação de si mesmo. A violência se perfaz na perda total: sem meios de produção (propriedade material), sem garantias de sobrevivência (situação de dependência) e também sem o domínio de si mesmo (à mercê do domínio pleno do outro), não resta nada, a não ser uma força de trabalho sobre a qual também não se terá autonomia. Em muitos casos, o que resta de si é pago por uma quantia que não compra o que seu próprio trabalho produz, logo o dinheiro força a equivalência entre bens que não se equivalem. Pura alquimia mefistofélica. O que é seu (seu corpo, seu pensamento, seu sentimento) é desvalorizado para valorizar um produto que não será seu.  Essa violência é legalizada com nome de ordem social, selada no salário, pago em “alquímico” dinheiro.
Nessa naturalização do processo de equivalência, o assalariado é obrigado a escolher sua própria violação, sua instância de prostituição, seu processo de degradação. Quem reage à aberração desse processo de equivalência passa a ser visto como ameaça à “ordem natural” das coisas, pois “um coração menos fácil de triturar” impede a “marcha gloriosa da civilização”, como ressaltou Balzac. O que muitas vezes não se percebe conscientemente é que o dinheiro, ao mesmo tempo que possibilita a realização de alguns propósitos pessoais, esvazia esses propósitos ao destituí-los da sua autonomia, dada a sua “natureza mutiladora”.
Afinal, que liberdade é essa? Quando a busca do dinheiro para a realização de desígnios se torna objetivo único, obsessão, passa-se de escravo do outro a escravo de si mesmo, de escravo de uma empresa a empresa de si mesmo. Da competição com o outro nesse campo de luta pela sobrevivência, passo a competir com meus próprios limites. E não há limites nesse sistema concorrencial. Nessa dialética sinistra, o mesmo sistema que promete a felicidade trazida pelo deus-dinheiro, ao ser internalizado, não permite que o escravo seja feliz. Quem sabe miseravelmente nas folgas semanais... se Mefisto liberar.
                                                                                 Samuel Veratti

 Notas
1.     Fausto: (adj.) que é feliz, venturoso ou (s.m.) pompa, ostentação.
2.     “Mefisto liberar”: deixar livre (ironia).

Referências bibliográficas
BALZAC, Honoré de. O pai Goriot. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia. São Paulo: Editora 34, 2013.
SCHWARZ, Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
SIMMEL, Georg. Philosophie des Geldes. Frankfurt/M, Suhrkamp, 1989. (Fragmento citado através de material de aula do Prof. Leopoldo Waizbort)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O TRIUNFO DA AMBIGUIDADE SOB CÉU CINZENTO


Dedicado a um futuro incerto

O triunfo da ambiguidade. Essa expressão é complexa e instigante. O núcleo substantivo “triunfo” significa “grande êxito numa batalha”. Uma batalha pressupõe forças contrárias, cujo sucesso cabe apenas a uma delas. Na formação do sintagma, o substantivo abstrato “ambiguidade” detém o poder, pois é dele que advém o triunfo. Entretanto, causa um certo desconforto o seu étimo latino “amb”, que indica duplicidade, remetendo a “dois”. Poderíamos dizer que a força da composição está no incômodo que ela gera: de um lado, o triunfo que sugere um e não dois; do outro, a ambiguidade que corresponde a dois e não a um. Essa complicação se desfaz se considerarmos dois indivíduos concretos disputando algo, de que resultaria o triunfo de um. A expressão que tomamos, no entanto, ganha peso e eficácia se pensada como tradução de uma força que resulta do uso de uma abstração (ambiguidade, dubiedade, incerteza): a energia da dúvida usada como um meio, um instrumento para a conquista, a vitória. Utilizar a dúvida como instrumento para o triunfo. Utilizar. Uma simples questão de cálculo e aplicação.

O processo de impeachment que acabamos de acompanhar encerra uma etapa e dá início a um novo (ou velho? Eis aí a certeza) horizonte para o Brasil. Conjecturando uma esperada imparcialidade, o cidadão que conseguiu atravessar essa fase com neutralidade (princípio que deveria reger as instâncias julgadoras na Câmara, no Senado e no Supremo) sai dela com gosto de ferrugem na boca, fruto amargo do que foi e se manteve corrompido pelo tempo (este mesmo que possibilitaria o progresso).  O amargor incômodo não é consequência direta das forças que agiram em sentido discursivamente contrário: duas reivindicações majoritárias (tchau/fica querida), dois espaços geográficos (avenida/praça, centro/periferia, cidade/campo), duas representações partidárias (coxinhas/petralhas), duas ideologias (direita conservadora/esquerda progressista) etc. Essa separação por si só não foi a alma que conduziu o processo. Embora o espírito fosse de Fla-Flu, a jogada principal contou com escusas habilidades extracampo.

Os responsáveis pela alma do negócio operaram sobre os distintos clamores das torcidas, convertendo o “Ibope” das manifestações pela tabela eleitoral, que não deixou de receber patrocínios financeiros e midiáticos. Mas isso ainda não é tudo. O pulo do gato foi um procedimento secular: cercar tudo com uma atmosfera imprecisa, vaga, fragilmente definível, o beco sem saída da ambiguidade. No espaço da dúvida arquitetada, tudo pode ser e o “escrúpulo da exatidão” leva à loucura ou, no mínimo, à depressão. Conforme disse acima, o triunfo advém da ambiguidade, neste caso, mais precisamente de quem soube engendrá-la no extracampo e administrá-la na arquibancada (Gol da Alemanha!).

E como se gesta e se nutre uma ambiguidade? Temperando os ânimos com toques caseiros de “injustiça lícita e legalidade injusta”, traduzidos em especiarias de jogo de acusações injustas, apoiadas sobre argumentos justos e de argumentos injustos, sustentados por acusações justas. Tudo isso para o triunfo dos Masterchefs e dos cartolas sobre a incauta cozinheira Dilma Rousseff, que distribuiu passes errados no meio de campo e esqueceu o fogo aceso.

Das faces da moeda ambígua, a que restou à arquibancada não traz conforto a nenhum cidadão sóbrio e consciente, já que foi o resultado de uma luta entre acusados e acusados: ficha imunda julgando suja a do outro. A pergunta séria e madura a ser feita é:  qual o resultado do jogo? Há três respostas possíveis, uma para cada tipo de torcedor (dos que não pagam aos que pagam meia entrada): perdemos, empatamos ou vencemos. Sinceramente, a que mais me incomoda é a última resposta, porque ela consagra o triunfo da ambiguidade, a vitória do indefinível “cinza”, do secular modo brasileiro de vencer através da conciliação dos inconciliáveis, do sujo ajuste do desajuste, da vitória material por meio da derrota ética, do moderno alimentado pelo atrasado, das porcelanas finas sobre terra faminta. O gosto de derrota na vitória: o combate à corrupção orquestrado por corruptos.

O exercício da arbitrariedade sob os impulsos do capricho, decidindo, conforme a circunstância e o envolvido, o que é norma e o que é infração. O mal-estar da ambiguidade: a ressaca causada por um cruzado insólito e indigesto (Legal + Ilegítimo) dado pelos velhos pugilistas de rapina naqueles entrincheirados entre a triste realidade de que ela perdera o leme e a indignada consciência de que o remédio foi administrado pela doença. Resta um povo sempre doente. Um povo sempre sem força. O triunfo da abstração sobre a materialidade de um mundo dominado por injustiças perfeitamente lícitas. Imoralidades e Legalidades de mãos dadas. Ainda não é Democracia...

E com a palavra final, Mefistófeles, o diabo (o que divide e rouba as forças):

Cinza, caro amigo, é toda Teoria. E verde, a árvore dourada da Vida”
                                                                                     (Fausto, Goethe)


                                                                           Samuel Veratti

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A FLOR QUE CAVALGA UM LEÃO


Onde foi exatamente que larguei (...)
O leão que sempre cavalguei?
(“Inverno”, Adriana Calcanhoto)
 

Todo poeta está ciente das dificuldades encontradas pela poesia neste mundo mecânico e caduco. Sair em busca de compreensão num mundo avesso ao ser das coisas é a sua condição de precariedade. Embora os tempos sejam maus para o lirismo (Brecht), a poesia é um canto que tenta se afirmar perante os aborrecimentos, protegendo-se. Em Drummond, ela nasce exatamente dessa dificuldade, desse desajuste entre o poeta e o mundo. Sua necessidade vital de proteção explica o comedimento passional e a distância irônica do poeta mineiro, que alterna comoção e ironia, sensibilidade e inteligência, fazendo com que esta corrija aquela a tempo, como num “jogo automático de alavancas de estabilização”, na percepção de Manuel Bandeira.
 A poesia é um fenômeno de comunhão secreta entre o ser e as coisas. Quem já experimentou o prazer estético, o êxtase causado pelo poder encantatório do ritmo, o encontro - através das imagens verbais - com as imagens que já havia dentro de si, num “momento em que tudo concorda”, em que “o tempo não pesa”, vivenciou essa breve comunhão e descobriu a força da poesia, que “vive nas camadas mais profundas do ser”, como nos ensina Octávio Paz, em O arco e a lira. Ciente dessa força como ninguém, o poeta sabe que ela é o contraponto deste mundo mecanizado, é o resgate do Ser mortificado pelo Ter, como a formiga soterrada pela amêndoa, numa feliz metáfora de Mia Couto.
A imponência da poesia vem exatamente da pureza arquetípica, da inerente incorruptibilidade, que desarma a maldade alheia com um simples olhar amoroso, harmonizando os opostos. A consciência desse poder leva, por exemplo, a poesia drummondiana a ser altiva, ainda que cautelosamente contida. E foi na flor - constante metáfora da sua poesia (rosa, orquídea, lírio, áporo...) - que Drummond encontrou a imagem plena dessa instigante dicotomia. Como imagem paradoxal de fragilidade e força, sua flor foi capaz de romper o asfalto, vencer o tédio, o nojo, o ódio e transformar cargueiros de guerra em galinhas em pânico.
Ao ler o texto de Noemi Jaffe, “Esquadros”, alertando sobre a “fragilidade forte” de Adriana Calcanhoto, tentei me lembrar de algum vídeo com a cantora em cena. A concordância com Noemi foi imediata e logo pensei em Adriana como alguém que se identifica com a flor de Drummond, num correlato poético-objetivo de si mesma: uma delicadeza desafiadora; uma fragilidade, cuja força desarma o outro. A análise de Noemi ajudou-me a ver aquele corpo franzino e aquela voz suave nos iludindo, fazendo-nos baixar a guarda ingenuamente para sermos surpreendidos por “golpes plenos de verdade”, como diria o crítico Alcides Villaça acerca da poesia drummondiana.
A flor, portanto, seria a imagem poética para a qual convergem, identificadas, a voz de Adriana e a pena de Drummond, traduzindo a “fragilidade forte” que caracteriza a expressão de ambos. Da cantora, Jaffe destaca a “força da contenção, da elegância e da construção” de alguém que nos olha com delicadeza e desafio. Uma força que também utiliza alavancas de estabilização para equilibrar a carga de inquietação com o humor, a autoconsciência e a elegância, sabendo para onde voa, dominando as fragilidades com seu “modo de cantar” e sua “presença cênica”, num “efeito de construção, e mais, de fingimento”. Como vimos, a luta entre opostos de que nos fala Octávio Paz tem início já no íntimo dos poetas. Harmonizar as próprias oposições em ritmo e imagem é agir poeticamente.
A certeza desses artistas na direção do voo confere altivez a suas pessoas, cujas personas fingem fragilidade para desarmar o mundo frio e envolve-lo com palavras capazes de “despertar melodias esquecidas” dentro da alma, mantendo-a suspensa no tempo e no espaço de uma ordem mítica que contém a totalidade da vida humana. Eis o poder da poesia. Eis o papel do poeta no mundo moderno.
Dessa forma, tanto Drummond quanto Calcanhoto usam do disfarce da fragilidade para preservar a poesia, ao mesmo tempo em que mostram seu vigor. Além da flor, há outra imagem poética drummondiana que serve para entendermos Adriana: o elefante. Vejamos o poema que recebe esse nome e que está presente no livro A rosa do povo, de 1945:
 

 Fabrico um elefante
 de meus poucos recursos.
 Um tanto de madeira
 tirado a velhos móveis
 talvez lhe dê apoio.
 E o encho de algodão,
 de paina, de doçura.
 A cola vai fixar
 suas orelhas pensas.
 A tromba se enovela,
 é a parte mais feliz
 de sua arquitetura.
 Mas há também as presas,
 dessa matéria pura
 que não sei figurar.
 Tão alva essa riqueza
 a espojar-se nos circos
 sem perda ou corrupção.
 E há por fim os olhos,
 onde se deposita
 a parte do elefante
 mais fluida e permanente,
 alheia a toda fraude. 

 Eis o meu pobre elefante
 pronto para sair
 à procura de amigos
 num mundo enfastiado
 que já não crê em bichos
 e duvida das coisas.
 Ei-lo, massa imponente
 e frágil, que se abana
 e move lentamente
 a pele costurada
 onde há flores de pano
 e nuvens, alusões
 a um mundo mais poético
 onde o amor reagrupa
 as formas naturais. 

 Vai o meu elefante
 pela rua povoada,
 mas não o querem ver
 nem mesmo para rir
 da cauda que ameaça
 deixá-lo ir sozinho.
 É todo graça, embora
 as pernas não ajudem
 e seu ventre balofo
 se arrisque a desabar
 ao mais leve empurrão.
 Mostra com elegância
 sua mínima vida,
 e não há cidade
 alma que se disponha
 a recolher em si
 desse corpo sensível
 a fugitiva imagem,
 o passo desastrado
 mas faminto e tocante. 

 Mas faminto de seres
 e situações patéticas,
 de encontros ao luar
 no mais profundo oceano,
 sob a raiz das árvores
 ou no seio das conchas,
 de luzes que não cegam
 e brilham através
 dos troncos mais espessos.
 Esse passo que vai
 sem esmagar as plantas
 no campo de batalha,
 à procura de sítios,
 segredos, episódios
 não contados em livro,
 de que apenas o vento,
 as folhas, a formiga
 reconhecem o talhe,
 mas que os homens ignoram,
 pois só ousam mostrar-se
 sob a paz das cortinas
 à pálpebra cerrada. 

 E já tarde da noite
 volta meu elefante,
 mas volta fatigado,
 as patas vacilantes
 se desmancham no pó.
 Ele não encontrou
 o de que carecia,
 o de que carecemos,
 eu e meu elefante,
 em que amo disfarçar-me.
 Exausto de pesquisa,
 caiu-lhe o vasto engenho
 como simples papel.
 A cola se dissolve
 e todo o seu conteúdo
 de perdão, de carícia,
 de pluma, de algodão,
 jorra sobre o tapete,
 qual mito desmontado.
 Amanhã recomeço.
 

O ponto de contato inicial pode ser os versos em que o eu-lírico assume que ama disfarçar-se em elefante, assim como costuma disfarçar sua poesia em flor. Ao pensarmos no elefante natural como o maior animal terrestre, pesando entre quatro e seis toneladas, com altura média de quatro metros, presumimos e tememos sua força. No entanto, o elefante de Drummond é artificial, ou seja, fabricado, assim como a poesia. Sustenta-se por uma estrutura insegura de madeira retirada de móveis velhos e recheada de fragilidade: algodão, paina e doçura. Uma doçura irmã da delicadeza, do afeto e do amor, alheios “a toda fraude”. Nela reside sua fortaleza moral.
Seu elefante caminha à procura de amigos, “faminto de seres” que enxerguem nele um “espírito terno” e “um caráter de estrita retidão e inteireza”, como ressalta Alcides Villaça. Mas esse conteúdo de ternura é imperceptível “num mundo enfastiado”, com suas ruas povoadas de gente sem alma e “que duvida das coisas”. Parece não haver comunhão possível num mundo com tamanho grau de racionalidade técnica, em que todos os seres assumem valores mercadológicos, sem transcendência alguma. Justamente porque o individualismo norteia cada gesto em direção oposta à comunhão, pois esta é harmonia no modo de sentir, pensar e agir, ou seja, é uma concordância entre as partes. Con-cordar, grosso modo, é “juntar os corações”. Vale lembrar que “coração” deriva da raiz latina “cor”, assim como “acorde, acordo, concordância, concórdia e cordialidade”, palavras, portanto, que refletem a sede da afetividade e do amor, presentes na doçura que recheia o elefante. Essa doçura é o princípio espiritual que prova a intenção de um encontro cordial com o outro, já que, sem ela, o outro talvez fugisse amedrontado para se proteger de um corpo tão grande e ameaçador. Enquanto imagem de fragilidade, ela apazigua o outro ao refletir uma intenção amorosa, de delicadeza e cuidado, pois “vai sem esmagar as plantas”. Assim como o que move o passo do elefante é o desejo de unir os corações (concordar), a poesia, ao harmonizar os opostos, realiza a comunhão dos seres, sendo, portanto, uma “operação capaz de mudar o mundo”.
Neste mundo de seres desencontrados, a própria linguagem já não é comum ao plano amoroso, pois se acha degradada a um sistema de fórmulas comunicativas que despreza os valores plásticos, sonoros e afetivos das palavras. Conforme Octávio Paz, “com as vias de comunicação obstruídas, o poeta se vê sem linguagem em que apoiar-se e o povo sem imagens em que reconhecer-se”. Esta é a solidão do elefante. E, segundo Villaça, “escrever um poema é fabricar um elefante”. O poeta sem um leitor adequado – que é aquele capaz da leitura amorosa - está condenado à solidão.
Como pudemos perceber, nosso elefante esbarrou num muro de incomunicabilidade (“uma pedra no meio do caminho”): os ouvidos moucos e os olhos empobrecidos de corpos sem alma. Há um abismo, um desencontro entre os anseios do poeta e as aspirações materialistas dos homens. Enquanto estes tateiam sedentos e entorpecidos um chão de mercadorias, aquele ambiciona o sublime, a comunhão entre os seres, a integração com as formas naturais, a verdade do espírito. Destinado a essa sina quixotesca, ainda que retorne cansado de sua viagem fabulosa, “exausto de pesquisa”, com as “patas vacilantes” desmanchando-se em pó, no dia seguinte recomeça, pois estamos falando de um poeta, cuja lírica ainda que se saiba frágil, altiva não se cala. Retornará ao caminho em busca dos signos necessários para que o Ser se materialize e se erga em poema de arquitetura ideal. Mesmo condenado a ser gauche e a carregar água na peneira a vida toda, persistirá movido pela verdade do espírito e recomeçará, a cada nova aurora, a fazer as pedras darem flores (Cf. Manoel de Barros, “O menino que carregava água na peneira”). Esta é sua tarefa utópica, o “princípio-esperança” da arte, de certa forma apresentada nesta passagem de Villaça:
 

É difícil imaginar a arte, sobretudo a lírica, sem esse horizonte de afirmação que sabe se abrir na exata proporção em que a negatividade fecha os caminhos para tudo o que não seja essencial. Os diferentes nomes desse horizonte – amor, natureza, justiça, espírito, conhecimento – podem todos resumir-se na condição de idealidade que está em todos nós, ao menos como signo de alguma promessa.
 

Outra aproximação possível entre Drummond e Adriana reside na relação incontestável que há entre o poema que acabamos de comentar e a canção, “A fábrica do poema”, com letra de Wally Salomão, musicada por ela e presente no disco homônimo lançado em 1994. Vejamos na íntegra:
 

 Sonho o poema de arquitetura ideal
 Cuja própria nata de cimento
 Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
 Faíscas das britas e leite das pedras.
 Acordo;
 E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
 Acordo;
 O prédio, pedra e cal, esvoaça
 Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
 Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
 Acordo, e o poema-miragem se desfaz
 Desconstruído como se nunca houvera sido.
 Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
 E os ouvidos moucos,
 Assim é que saio dos sucessivos sonos:
 Vão-se os anéis de fumo de ópio
 E ficam-me os dedos estarrecidos.
 Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
 Sumidos no sorvedouro.
 Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
 No topo fantasma da torre de vigia
 Nem a simulação de se afundar no sono.
 Nem dormir deveras.
 Pois a questão-chave é:
 Sob que máscara retornará o recalcado?
 

Sem dúvida, esse poema precisa da melodia, que nos envolve com a leve suavidade de um sonho bom, enquanto a letra busca, heroicamente, capturar a fonte da poesia e descrever sua “fabricação”. Essa “fabricação” pelo sonho produz um ser tão frágil quanto o elefante que se desmancha em pó. Cotejando os poemas “O elefante” e “A fábrica do poema”, percebemos que há um sentido comum entre os verbos “fabricar” e “sonhar” que os iniciam: “Fabrico um elefante” e “Sonho o poema de arquitetura ideal”. Sonhar é fabricar imagens poéticas.
Da mesma forma que a fragilidade contida nas imagens do prédio poético - com argamassa feita como o “mingau das almas” - “esvoaça e evola-se”, o vasto engenho do elefante cai ao dissolver da cola (mingau), desmanchando-se as patas vacilantes em pó e desmontando-se o mito como um simples papel solto “à mercê do vento”. Assim é que o poeta sai dos sucessivos sonos, tal como o elefante retorna das sucessivas saídas: estarrecidos. Mas a certeza de recomeçar a fabricar um elefante é a mesma de que retornará o recalcado, em estado amorfo, esperando que se lhe dê forma mesmo não sabendo sob que máscara. (1)
Em “A fábrica do poema”, há um evidente paralelo traçado entre sonho e poesia, sustentado na teoria freudiana do inconsciente. As imagens oníricas são deslocamentos e condensações de pensamentos latentes e recalcados, muitas vezes inconfessáveis ao eu. Os mecanismos dos sonhos (deslocamento e condensação) parecem ser os mesmos que se apresentam na elaboração da poesia. A relação é muita sugestiva: poesia é imagem e som a serem decifrados. E o mistério revelado será o nome das coisas, extraído como “faíscas das britas e leite das pedras”, numa luta recomeçada a cada despertar.
Ao dormirmos, entregues, desarmados, com a razão suspensa, nosso inconsciente age como a poesia, transformando o enigma do nosso “eu” em imagens condensadas que, ao serem decifradas, revelam os recônditos da nossa psique e nomeiam “coisas ignotas”, como poetizou Shakespeare em “Sonhos de uma noite de verão”, no Ato V, Cena 1:
 

E como a imaginação dá corpo
e contornos de coisas ignotas
a pena do poeta lhes dá forma
e ao etéreo nada,
um lugar de morada e um nome.
 

Nessa revelação, nosso ser fragmentado, desconexo, caótico (desarmônico, doente) é (re)organizado pelo encontro com a “verdade” de si mesmo, pois os fiapos do “eu” reagrupam-se pela palavra que cura (iatroi lógoi, “palavras-medicina”, Psicanálise, Poesia).  Para Octavio Paz, “a palavra do poeta se confunde com o seu próprio ser. (...). No momento da criação, aflora à consciência a parte mais secreta de nós mesmos”. Assim como Freud disse que o sonho é a realização de um desejo inconsciente, Paz nos lembra de que poesia é desejo, que “aspira sempre a suprimir as distâncias”, através das imagens que são pontes construídas pelo desejo para o encontro entre o “eu” e os outros “eus” de mim, entre o meu ser e o ser das coisas, reagrupados amorosamente pelas palavras poéticas que ordenam o caos, que curam a doença, que reestabelecem a harmonia.
O despertar desse sonho acordado resulta no esvair das imagens do sonho, como promessas tantálicas, miragens... Todas as forças do poeta são investidas nessa luta de entrega total, de retenção das miragens e de encontro com a face exata – dentre as mil ocultas – das palavras capazes de dar corpo e sentido à arquitetura do poema. E se há agressão nessa luta, é uma agressão suave, um embate com alma contida, um enfrentamento com delicadeza, a impressão exata da força para que o corpo frágil não se esfarrape “fiapo por fiapo”, evolando-se à “mercê do vento” traiçoeiro, restando, inconsoláveis, os “dedos estarrecidos”.
Assim, “arrancar leite das pedras” é metáfora da luta e da perícia do poeta para encontrar as palavras exatas, articulando-as a fim de que formem imagens num sonho acordado, cuja lógica é distinta da lógica aparentemente absurda do inconsciente, do sonho. Drummond, o gauche, em desajuste com o mundo, encontrou na poesia a ponte necessária para suprimir a distância entre si e o outro. Como vimos, sua poesia (seu elefante) perambulou pelas ruas em direção a esse encontro, a essa anulação da distância, atravessando a ponte e só encontrando a indiferença do outro lado, como um vate pregando no deserto da modernidade.
Todo poeta busca uma arquitetura ideal para sustentar o poético que lhe advém num sonho acordado. Ganha-se a batalha quando o espírito consegue reter as imagens fugidias do sonho, os ouvidos registram os sons e os ritmos, o intelecto encontra os recursos expressivos e os articula e os dedos conseguem ditar a direção da pena. Porém, se um deles falha, a arquitetura some no sorvedouro e lamentamos uma perda irreparável para a humanidade.
A emoção sentida, portanto, quando da audição dessa canção-poema, assim como quando da leitura daquele poema de Drummond, é fruto dúplice da beleza e da dor. A beleza comovente da poesia capaz de nomear um instante fugidio e a dor causada pela perda desse instante no acordar do poeta ou no malogrado retorno do elefante que não encontrou eco nos corações dos homens. A beleza da breve comunhão conseguida através da poesia e a dor sentida como aquela do leitor pessoano - a terceira, a dor lida - que chega a comungar uma dor que deveras sente. Ave, Poesia!
 

                                                                               Samuel Veratti
 

(1)    Os vários pontos de contato entre esses poemas ganham maior relevância quando Adriana Calcanhoto sugere sua identificação ao escolher o poema “O elefante” para declamar no filme “Consideração do poema”, produzido, em 2011, pelo Instituto Moreira Salles para comemorar o “Dia D”.
 

Referências bibliográficas

JAFFE, Noemi. "Lendo Música - 10 ensaios sobre 10 canções". São Paulo: Publifolha, 2008.
PAZ, Octávio. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
VILLAÇA, Alcides Villaça. Passos de Drummond. São Paulo: Cosac Naify, 2006.