"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 1 de julho de 2014

DE MNEMOSINE AO HD EXTERNO


                                                    Tua memória, pasto de poesia...
                                                            (...) enquanto o tempo ...
                                                            se evapora no fundo do teu ser...

(Carlos Drummond de Andrade)
 

Não há dúvidas de que a introdução de uma nova tecnologia modifica a mentalidade e o comportamento das pessoas. Também não restam dúvidas de que nem toda mudança é nociva, assim como digna de aplausos. No mundo grego antigo, a passagem da oralidade à escrita teve seu lado positivo: registrar a cultura em mídia móvel permitiu o avanço no terreno da especulação filosófica, já que sobrava a energia antes investida no processo de memorização. Por outro lado, a memória ficou um pouco debilitada pelo conforto proporcionado pelo registro escrito.
Enquanto perdurou a oralidade, a poesia foi o gênero mais apropriado. Seu ritmo e sua síntese pela imagem facilitavam o processo de transmissão e memorização. Segundo Eric A. Havelock, as epopeias de Homero eram a “enciclopédia da tribo” e através dela deu-se a educação ética, religiosa e política do povo grego. Tudo oralmente.
Quando o homem passou a registrar graficamente o pensamento, sua capacidade mnemônica foi diminuindo já que passou a ser menos requisitada. De lá para cá, o homem foi evoluindo tecnicamente, desenvolvendo sua capacidade conceitual e usufruindo dos benefícios que a escrita proporcionou: o registro seguro dos conhecimentos e a melhoria da sua transmissão de uma geração a outra, de um povo a outro.
Considerando esse percurso, nosso futuro parece promissor, já que a capacidade de armazenamento atual é impressionante: chips, cartões de memória, pendrives, CDs, DVDs, HDs internos e externos, “nuvens”... Com tamanha portabilidade das informações, quanta energia não sobrará para que avancemos ainda mais no terreno do conhecimento? Mas o homem que se delineia no horizonte promete ser um “construtor” de conhecimentos?
Se associássemos a eficácia da transmissão dos conhecimentos à capacidade de síntese do discurso poético, poderíamos acreditar que o mundo atual caminha para um estágio evolutivo do conhecimento, já que as novas tecnologias valorizam tanto a imagem. Sendo esta capaz de dizer mais do que mil palavras, nos restaria, assim como aos gregos antigos, tempo de sobra para avançarmos em outros aspectos. Mas é só de tempo que o homem precisa nesse processo?
Ainda que nossos pensamentos se revelem por imagens, para que possam ser articulados com os dos outros, ainda precisamos da palavra. O signo linguístico ainda é a ferramenta de comunicação entre os homens. Continuamos a elaborar pensamentos, reflexões e dúvidas através do verbo. Como tem sido a relação do homem com a palavra?
A ditadura da imagem, incrementada por recursos cada vez mais sedutores, tem sobrepujado a leitura e a escrita de qualidade, ou seja, tem suscetibilizado o contato com a palavra escrita. Muitos podem alegar que se lê e escreve bastante hoje em dia, justamente por conta da internet. Porém, para quem se escreve e o que se lê? E as imagens com as quais se convive acionam o intelecto? A escrita se dá entre iguais; a leitura, muitas vezes, é de puro entretenimento; e as imagens são literais, não trazem mensagens veladas, somente apelam para o sentido da visão.
Nesse processo, algumas instâncias humanas estão sendo inutilizadas: a imagem literal e a incapacidade de lidar com o sentido figurado, enfraquecem a imaginação; a repulsa ao texto bem elaborado, ao texto que formula complexidades, tem levado à incapacidade de articulação das informações; e o distanciamento dos grandes escritores tem amortecido a sensibilidade estética e a capacidade crítica.
Embora a imagem possa sintetizar muitas ideias e nos ajudar a ganhar tempo, o homem tem sido educado para se divertir cada vez mais e não para se debruçar sobre o conhecimento, pois a construção deste se configura por um processo que exige observação, capacidade de estabelecer relações e linguagem verbal articulada. Quando o homem atual pergunta tudo ao Google – disponível 24 horas nos diversos aparelhos portáteis – ele está se apoiando em conhecimentos construídos por outro cérebro. Logo, não há necessidade de conhecimento próprio.
Esse conforto moderno é muito sedutor, mas não tem sido positivo. A prova disso é a desatenção, a precariedade atual da memória humana, assim como a pobreza da imaginação, num mundo em que a curiosidade - mesmo quando não é sobre futilidades - é facilmente satisfeita quando se tem um dedo, olhos capazes e um smartphone. A certeza de que todas as respostas estão ao alcance da mão sem esforço algum impede que o sujeito se aproprie do conhecimento e o guarde na memória, pois somente nos apropriamos daquilo pelo qual vertemos nosso suor. Por isso, a imensa maioria dos corpos dóceis que por aí vagueiam, estão vazios, são apenas carcaças de aparência bem cuidada, portadores de um HD externo que os comandam, alienam e subjugam. Com os neurônios dependentes, perambulam adormecidos ignorando que o mundo em que vivem é diferente desse simulado pela máquina. E o controle do futuro parece pertencer a uma minoria pensante que alimentará o Google e guiará um exército de consumidores acéfalos.
  As três capacidades necessárias à construção do conhecimento (observação, relação e linguagem) estão sendo corroídas pelo entretenimento vazio, pelo consequente acômodo das capacidades intelectivas e pela superficialidade dos interesses. Navegar na internet é boiar na superfície do rio Lethe*. Para mergulharmos em suas águas profundas e colhermos delas o que realmente interessa é preciso muito mais do que apenas tempo.

                                                                             Samuel Veratti

 

* O Rio Lethe é um dos rios do Hades, na mitologia grega. Quem bebesse de suas águas experimentaria o completo esquecimento. Lethe significa “esquecimento”. Aletheia é seu oposto e significa “Verdade”. Assim, podemos dizer que o aniquilamento da memória (o esquecimento) é um distanciamento da Verdade. Beber das águas de Mnemosine é recordar tudo e alcançar a onisciência (a Verdade).

UMA TRANSIÇÃO ÀS CEGAS


                                                      Quem pensa por si mesmo é livre
                                                              E ser livre é coisa muito séria
                                                             Não se pode fechar os olhos
                                                            Não se pode olhar pra trás
                                                           Sem se aprender alguma coisa pro futuro.

                                                                                             (Renato Russo)

 
Vivemos o momento de transição de um paradigma humano. Muitos se perguntam sobre qual será o resultado deste homem que está em processo. Mais profundamente, como será a espécie humana? Certamente, qualquer tentativa de resposta é especulativa, quase uma pretensão profética. Mas não nos devemos perguntar?
As especulações oscilam entre o otimismo e o pessimismo. Os otimistas costumam lidar com as mudanças de forma tranquila, acreditando que a história da humanidade já nos deu inúmeras provas de que o homem se transforma e avança. Costumam se apoiar também sobre o fato de que em todas as épocas houve um embate entre o novo e o velho, sendo que a visão fatalista sempre coube a este. Assim, concluem que não houve um passado melhor e o futuro não foi tão assustador como queriam fazer crer.
Diante disso, o discurso fatalista do pessimismo soa como uma ladainha enfadonha e inútil. O pessimista tende a elaborar sua análise embasado no contraste entre seus valores e os que estão se modelando. E para ele, os novos valores assombram porque compõem um pontilhado nada promissor. Este observador pessimista tem total razão, razão parcial ou está plenamente equivocado?
Se considerarmos que, realmente, a passagem do tempo foi nos mostrando que muito do que era demonizado pelos fatalistas do passado não se concretizou, não podemos dar total razão ao fatalista de hoje. Mas também, se considerarmos o risco de uma visão positivista, cuja crença se apoia no determinismo entre causa e efeito, tendemos a afirmar que toda previsão pessimista falhará, como muitas do passado falharam. Portanto, resta-nos uma possibilidade: acatarmos a parcialidade da razão pessimista.
Sob essa escolha, como devemos prosseguir? Talvez o mais sensato fosse a busca de um equilíbrio, que só poderia ser alcançado pelo diálogo entre o velho e o novo. Ocorre que muitas especulações teóricas têm nos apontado a mesma aporia: a linguagem do novo não é a mesma do velho. A língua dos educadores (pais, professores, filósofos) é um novo latim: uma língua morta. Mas o que matou essa língua? Que fenômeno rompeu o canal de comunicação entre as gerações? Teria sido a mudança dos signos? Da palavra para a imagem? O novo ser humano prescindirá totalmente da palavra?
Para que o velho pudesse auxiliar nesse momento de transição paradigmática, teria que ter uma linguagem que acessasse o sistema cognitivo do novo. Para colaborar neste processo, compartilhando a experiência adquirida, ajudando a sopesar os prós e os contras, temperando a imaturidade com a sabedoria de vida, é necessária a reciprocidade da compreensão. No entanto, o que temos é um papo de surdo e mudo. 

                                                                           Samuel Veratti