Tua memória, pasto de poesia...
(...) enquanto o tempo ...se evapora no fundo do teu ser...
(Carlos Drummond de Andrade)
Não há dúvidas de que a introdução de uma
nova tecnologia modifica a mentalidade e o comportamento das pessoas. Também
não restam dúvidas de que nem toda mudança é nociva, assim como digna de
aplausos. No mundo grego antigo, a passagem da oralidade à escrita teve seu
lado positivo: registrar a cultura em mídia móvel permitiu o avanço no terreno
da especulação filosófica, já que sobrava a energia antes investida no processo
de memorização. Por outro lado, a memória ficou um pouco debilitada pelo
conforto proporcionado pelo registro escrito.
Enquanto perdurou a oralidade, a poesia foi o
gênero mais apropriado. Seu ritmo e sua síntese pela imagem facilitavam o
processo de transmissão e memorização. Segundo Eric A. Havelock, as epopeias de
Homero eram a “enciclopédia da tribo” e através dela deu-se a educação ética,
religiosa e política do povo grego. Tudo oralmente.
Quando o homem passou a registrar
graficamente o pensamento, sua capacidade mnemônica foi diminuindo já que
passou a ser menos requisitada. De lá para cá, o homem foi evoluindo
tecnicamente, desenvolvendo sua capacidade conceitual e usufruindo dos
benefícios que a escrita proporcionou: o registro seguro dos conhecimentos e a
melhoria da sua transmissão de uma geração a outra, de um povo a outro.
Considerando esse percurso, nosso futuro parece
promissor, já que a capacidade de armazenamento atual é impressionante: chips,
cartões de memória, pendrives, CDs, DVDs, HDs internos e externos, “nuvens”... Com
tamanha portabilidade das informações, quanta energia não sobrará para que
avancemos ainda mais no terreno do conhecimento? Mas o homem que se delineia no
horizonte promete ser um “construtor” de conhecimentos?
Se associássemos a eficácia da transmissão dos
conhecimentos à capacidade de síntese do discurso poético, poderíamos acreditar
que o mundo atual caminha para um estágio evolutivo do conhecimento, já que as
novas tecnologias valorizam tanto a imagem. Sendo esta capaz de dizer mais do
que mil palavras, nos restaria, assim como aos gregos antigos, tempo de sobra
para avançarmos em outros aspectos. Mas é só de tempo que o homem precisa nesse
processo?
Ainda que nossos pensamentos se revelem por
imagens, para que possam ser articulados com os dos outros, ainda precisamos da
palavra. O signo linguístico ainda é a ferramenta de comunicação entre os
homens. Continuamos a elaborar pensamentos, reflexões e dúvidas através do
verbo. Como tem sido a relação do homem com a palavra?
A ditadura da imagem, incrementada por
recursos cada vez mais sedutores, tem sobrepujado a leitura e a escrita de
qualidade, ou seja, tem suscetibilizado o contato com a palavra escrita. Muitos
podem alegar que se lê e escreve bastante hoje em dia, justamente por conta da
internet. Porém, para quem se escreve e o que se lê? E as imagens com as quais se
convive acionam o intelecto? A escrita se dá entre iguais; a leitura, muitas
vezes, é de puro entretenimento; e as imagens são literais, não trazem
mensagens veladas, somente apelam para o sentido da visão.
Nesse processo, algumas instâncias humanas
estão sendo inutilizadas: a imagem literal e a incapacidade de lidar com o
sentido figurado, enfraquecem a imaginação; a repulsa ao texto bem elaborado,
ao texto que formula complexidades, tem levado à incapacidade de articulação
das informações; e o distanciamento dos grandes escritores tem amortecido a
sensibilidade estética e a capacidade crítica.
Embora a imagem possa sintetizar muitas
ideias e nos ajudar a ganhar tempo, o homem tem sido educado para se divertir
cada vez mais e não para se debruçar sobre o conhecimento, pois a construção
deste se configura por um processo que exige observação, capacidade de
estabelecer relações e linguagem verbal articulada. Quando o homem atual
pergunta tudo ao Google – disponível 24 horas nos diversos aparelhos portáteis –
ele está se apoiando em conhecimentos construídos por outro cérebro. Logo, não há
necessidade de conhecimento próprio.
Esse conforto moderno é muito sedutor, mas não
tem sido positivo. A prova disso é a desatenção, a precariedade atual da
memória humana, assim como a pobreza da imaginação, num mundo em que a
curiosidade - mesmo quando não é sobre futilidades - é facilmente satisfeita
quando se tem um dedo, olhos capazes e um smartphone. A certeza de que todas as
respostas estão ao alcance da mão sem esforço algum impede que o sujeito se
aproprie do conhecimento e o guarde na memória, pois somente nos apropriamos
daquilo pelo qual vertemos nosso suor. Por isso, a imensa maioria dos corpos
dóceis que por aí vagueiam, estão vazios, são apenas carcaças de aparência bem
cuidada, portadores de um HD externo que os comandam, alienam e subjugam. Com
os neurônios dependentes, perambulam adormecidos ignorando que o mundo em que
vivem é diferente desse simulado pela máquina. E o controle do futuro parece pertencer
a uma minoria pensante que alimentará o Google e guiará um exército de
consumidores acéfalos.
As três capacidades necessárias à construção
do conhecimento (observação, relação e linguagem) estão sendo corroídas pelo
entretenimento vazio, pelo consequente acômodo das capacidades intelectivas e
pela superficialidade dos interesses. Navegar na internet é boiar na superfície
do rio Lethe*. Para mergulharmos em
suas águas profundas e colhermos delas o que realmente interessa é preciso
muito mais do que apenas tempo.
* O
Rio Lethe é um dos rios do Hades, na mitologia grega. Quem bebesse de suas
águas experimentaria o completo esquecimento. Lethe significa “esquecimento”.
Aletheia é seu oposto e significa “Verdade”. Assim, podemos dizer que o
aniquilamento da memória (o esquecimento) é um distanciamento da Verdade. Beber
das águas de Mnemosine é recordar tudo e alcançar a onisciência (a Verdade).