"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

domingo, 14 de setembro de 2014

O DOADOR DE MEMÓRIAS


Bem-aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhe estão abertos e que têm de seguir! Bem-aventurados os tempos cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para eles tudo é novo e todavia familiar: tudo significa aventura e todavia tudo lhes pertence. O mundo é vasto e contudo nele se encontram à vontade, porque o fogo que arde na sua alma é da mesma natureza que as estrelas. O mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se nitidamente e, apesar disso, nunca se tornam definitivamente alheios um ao outro, porque o fogo é a alma de toda a luz e todo o fogo se veste de luz.

Georg Lukács


Sem dúvida, é temerária a tentativa de analisar de forma tão imediata o filme O doador de memórias (The giver), que estreou esta semana no Brasil. Assisti ao filme ontem e, certamente, não tenho memória suficiente para me lembrar com detalhes das inúmeras passagens que me despertaram reflexões. De qualquer forma, é possível dizer alguma coisa com o que ficou e com o que consegui colher nas páginas ainda não lidas do livro.
O filme, dirigido por Phillip Noyce, é uma adaptação do livro homônimo de Lois Lowry, publicado em 1993. Trata-se de uma distopia. Para entender esse conceito, é interessante definir o seu oposto, a utopia:

 O utopista não aceita o mundo que encontra, não se satisfaz com as possibilidades atualmente existentes: sonha, antecipa, projeta, experimenta. É justamente este ato de desacordo que dá vida à utopia. Ela nasce quando na consciência surge uma ruptura entre o que é, e o que deveria ser; entre o mundo que é, e o mundo que pode ser pensado. (SZACKI, Jerzi. As utopias ou a felicidade imaginada, 1972).

A utopia, portanto, parte da ruptura com a continuidade de um estado inaceitável de coisas, alimentada pelo desejo de melhoria, muitas vezes norteada por um ideal moral e social. Quem assistiu ao filme ou leu o livro poderá perguntar por que essa obra não é enquadrada no gênero utópico da ficção, já que fica evidente que o que moveu os homens ao mundo em que estão foi exatamente a não aceitação de uma realidade (de dor, desequilíbrio, guerras, etc) em busca de outra que concretizasse o que eles julgavam melhor (equilibrado, ordenado).
Realmente, o conceito de utopia permitiria esse tipo de inversão não fosse um detalhe distintivo: a distopia é a realização de um mundo projetado como julgam que poderia ser, mas que resulta em algo sombrio, assustador, ou seja, embora apresente alguns ganhos, as perdas são maiores, pois implicam sempre em uma civilização cujos seres perderam o que os define enquanto humanos (a sensibilidade, os sentimentos, as emoções, a liberdade de escolha). 
Como exemplos clássicos de utopias, temos a República, de Platão, e a Utopia, de Thomas Morus, para citarmos apenas dois. Quanto às distopias, também são vários os títulos, sendo os mais conhecidos o livro 1984, de George Orwell, e o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O que interessa, no momento, é saber que o espírito utópico ou distópico reside no escritor, ou seja, ele projetará um futuro promissor ou assustador conforme o seu estado de espírito e seu universo de valores no momento da criação ficcional. E essa projeção sempre parte dos sinais que o tempo em que ele vive lhe apresenta. Pela observação do contemporâneo, ele intuirá um futuro desejável ou indesejável.
O que permite enquadrarmos a obra O doador de memórias no gênero distópico é o fato de que a autora projeta um futuro em que o ser humano vive uma vida cinza, embaçada, vazia, portanto, sombria. Coincidentemente, tenho levantado questões que envolvem aspectos da atualidade que me despertam preocupações da mesma espécie. Tenho falado, por exemplo, da ditadura da imagem em detrimento da palavra, da perda da capacidade mnemônica em função do uso sem critérios dos recursos portáteis (tablets, smarthphones, relógios de pulso inteligentes), do reino cinza em que vivemos (a padronização do ser humano, a mesmice) e do vazio existencial que tem levado jovens ao suicídio. O resultado sombrio desses fenômenos está, de certa forma, elencado no filme: o  mundo se apresenta em escalas de preto e branco, tudo e todos estão tecnologicamente conectados, a padronização comportamental é evidente e a transferência de memórias ao protagonista (Jonas) revelará a prisão vazia em que os indivíduos se encontram.
Para ganhar tempo e ser mais claro, transcrevo a sinopse do filme e do livro, respectivamente:  


Uma pequena comunidade vive em um mundo aparentemente ideal, sem doenças nem guerras, mas também sem sentimentos. Uma pessoa é encarregada de armazenar estas memórias, de forma a poupar os demais habitantes do sofrimento e também guiá-los com sua sabedoria. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e agora cabe ao jovem Jonas, que precisa passar por um duro treinamento para provar que é digno da responsabilidade. (Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-195540)


Jonas vive num mundo onde não há pobreza, crime, doença, fome, divórcio, medo nem dor. Todos têm família, saúde, emprego, educação e lazer. As pessoas são treinadas para manter seus sentimentos sob controle. As regras de conduta são invioláveis, os desejos, reprimidos, e o amor é uma palavra que não existe no vocabulário. A ordem e a paz reinam absolutas. (LOWRY, Lois. O doador de memórias, 2014).

Esses fragmentos de síntese talvez sejam suficientes para destacar alguns aspectos da civilização representada. Interessa alertar para o fato de que a mencionada “paz” foi produzida artificialmente pelos homens, ou melhor, por alguns grupos que possuíam poder para administrar a sociedade e a vida humana em todos os seus aspectos, através de um condicionamento físico (engenharia genética) e psicológico (educação e cultura direcionadas). O resultado nefasto desse condicionamento é a padronização do ser humano, um procedimento intencional que atende, até certo ponto, aos interesses do poder político e econômico, apresentando-se sob a máscara das boas intenções (a paz, a ordem, a tranquilidade, deduzidas da ausência de conflitos).
Ao poder econômico (qualquer produtor de qualquer mercadoria), é muito interessante que o consumidor aja, pense e deseje de forma idêntica, padronizada, porque fica mais fácil economizar dinheiro e obter mais lucro: basta que se produza, em série, uma quantidade enorme de mercadorias que atendam ao “gosto” padronizado do freguês. Com isso, economiza-se, no mínimo, com a produção da matriz do produto, pois é mais fácil fazer com que todas as esteiras rolantes e linhas de produção fabriquem mais do mesmo, com o mesmo design e com as mesmas cores.
O processo começa com o marketing e a pregação de uma moda. Através de propagandas massivas, gera-se um gosto idêntico. Por exemplo, todas as instâncias envolvidas (fábricas, estilistas, agências publicitárias e mídias) fazem a sua parte para divulgarem uma “tendência” para a nova temporada: a cor azul. Assim, aquele estoque de tinta azul que sobrou nas fábricas e, cujo prazo de validade está se esgotando, será desovado capciosamente para que não haja perda financeira. E o admirável gado novo segue bovinamente o aboio da propaganda que o convenceu de que deveria vestir-se de azul, mesmo porque, se não o fizesse, estaria “excluído” da sociedade dos “normais” (o mesmo vale para a posse de celulares, roupas, gostos culturais e, principalmente, ideias).
Assim, o indivíduo vai sendo condicionado pelo sistema a gostar de determinadas coisas em detrimento de outras. Formata-se o gosto padronizando-o com características específicas: tal gosto musical, tal gosto literário, tal gosto cinematográfico. Qualquer obra que fuja do padrão preestabelecido é abominada como chata. Como o padrão apela apenas para o superficial, a imensa maioria da sociedade vive na superfície das coisas.
Para tornar o procedimento mais eficaz, elimina-se a capacidade crítica, pois, sem ela, não há autonomia, liberdade de escolha. Vive-se a mais perversa das formas de ditadura: a invisível. Esta que se camufla por trás da sensação artificial de liberdade de escolha. Hoje, é rara a pessoa que escolhe por si mesma. Ela apenas pensa que escolhe. Seu gosto foi formatado pela propaganda de um modus vivendi específico, sua capacidade crítica não saiu sequer do embrião – considerando-se que há propagandas para todas as faixas etárias, convencendo pais e crianças a respeito do que elas devem “gostar” – e não há oferta de diversidade, ainda que a internet tenha nos possibilitado a comunicação global e abra janelas para o mundo.
Diante da infinidade de produções musicais, cinematográficas e literárias, o mercado oferece um menu estreito e padronizado. Basta que se pense na quantidade de salas de cinema que há nos grandes shoppings e na oferta ridícula de títulos em cartaz. A Warner Bros., por exemplo, detém os direitos de projeção sobre uma porcentagem considerável das salas de cinema no Brasil. Ela escolhe a maioria dos títulos e, obviamente, seleciona os que ela produziu. E essa produção já é padronizada como o são os celulares, sapatos e carros. Com isso, ela padroniza o gosto, o pensamento (ver artigos Quem mente antes diz a verdade I e II publicados neste blog).
Qualquer professor de redação mais atento percebe os efeitos funestos dessa padronização cultural: lidas quinhentas redações, constata-se a produção de quinhentos lugares-comuns, clichês, mesmices. Parece não haver variedade de pensamento. A imensa maioria pensa igual. E este “igual” atende aos anseios do mercado (ausência do senso crítico e gosto comum). Apoiemo-nos na reflexão de uma psicóloga, Rosely Sayão, observadora do ser humano e da sociedade:

Eu passei a adolescência e a juventude sob o regime da ditadura e isso significou, entre outras coisas, a censura. Não havia liberdade de expressão naquela época. Jornais e revistas tinham trechos cortados, diversos filmes não puderam ser exibidos por um longo período e alguns livros não podiam ser vendidos livremente. Tudo em nome da segurança nacional. Para quem estava no poder durante a ditadura, pensar de modo diferente colocava em risco o modelo de sociedade que eles idealizavam.

(...)

Algumas vezes penso que o mundo contemporâneo, que nos contempla com tanta diversidade em todos os campos – estilos de vida, correntes de pensamento, comportamento, ciências etc. - retirou de muitos de nós o pensamento crítico e, portanto, a liberdade de pensar e de agir. (SAYÃO, Roseli. Reflexões – Parte 2. Disponível em: http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/).

Na sequência desse texto, Sayão irá dizer que o conflito de ideias, ou seja, a diversidade de pensamentos constitui liberdade de expressão e que, hoje, estamos submetidos a uma espécie de autocensura, isto é, internalizamos uma ditadura ao internalizarmos um agir e um pensar preestabelecidos pelo outro. Trata-se da criação de uma nova subjetividade, outro tipo de indivíduo.
Pensar a partir do que se tem hoje, leva-nos à projeção de um mundo melhor? Como um indivíduo condicionado pelo universo das aparências (o exterior, a casca, a superfície) irá, por exemplo, mergulhar na internet em vez de apenas navegar em sua superfície? Não há profundidade nos produtos do universo do entretenimento (cinema, música e literatura). Tudo apela para a superfície da pele, do ouvido, dos olhos e do paladar. Tudo é sensorial. Quase nada é reflexivo. Acriticismo. Hedonismo puro. Vazio. Cenário para suicídios juvenis.
No filme, assim como no livro, o mundo padronizado é representado pela cor cinza, símbolo de um olhar embaçado, pobre, porque igual. Prega-se a mesmice. Ilustremos com duas passagens do livro que valem a citação extensa:

- Como vou explicar isso? Antigamente, na época das lembranças, tudo possuía uma forma e um tamanho, como todas as coisas ainda têm hoje, mas também possuíam mais uma qualidade chamada cor. Havia uma porção de cores, e uma delas se chamava vermelho. (...)

- E o rosto das pessoas? Os que vi na Cerimônia?

O doador sacudiu a cabeça.

- Houve um tempo, aliás, e você verá isso mais tarde nas lembranças, em que a pele tinha muitas cores diferentes. Mas isso foi antes de irmos para a Mesmice. Hoje em dia a pele de todos é a mesma. (...)

O doador deu uma risada inesperadamente.

- Nunca obtivemos domínio completo sobre a Mesmice. Imagino que os cientistas da Genética devam ainda estar trabalhando para eliminar certos nós. (LOWRY, Lois. O doador de memórias, pp.98-99)  

Outra passagem significativa: 

Passaram-se dias, passaram-se semanas. Jonas aprendeu, através das lembranças, os nomes das cores e começou a enxergar todas elas em sua vida comum (embora ele soubesse que nada mais era comum e que nunca mais seria).

(...)

- Não é justo nada ter cor!

- Não é justo? – indagou o doador, curioso.

- Explique o que quer dizer com isso.

- Bom...- Jonas parou para refletir.

- Se tudo é sempre o mesmo, então não há escolhas! Quero acordar de manhã e decidir coisas! Hoje vou vestir uma túnica azul ou uma vermelha.

Baixou os olhos para si, para o tecido sem cor de sua roupa.

- Mas é tudo igual sempre... (Ibidem, p.101).

Fica evidente, nessas passagens, o ponto em que se encontra a condição humana na história. Esses pequenos exemplos são suficientes para caracterizar o olhar distópico da autora. O mundo biopoliticamente administrado em busca de uma civilização equilibrada, isentada de alterações emocionais, de opiniões diversas, de variedade humana, se dá através de um projeto de modelação do ser humano a um padrão facilmente manipulável e governável, cuja propaganda se apresenta sob uma aparência benévola e justa, mas, que, na verdade, destitui o ser humano de tudo que o torna humano: o senso crítico, a capacidade reflexiva, a sensibilidade emocional e a capacidade de amar, ou seja, tudo o que nos distingue de um robô.
Sob estes aspectos, o livro de Lois Lowry rende um considerável tributo à obra de Aldous Huxley, Admirável mundo novo. O mérito de Huxley reside no fato de que ele pressentiu, em 1931, o que aconteceria. Na civilização novo-mundista, há muitos dos elementos utilizados diretamente ou sugeridos na composição do universo imaginado por Lowry. A obra do autor inglês aponta a extinção da Literatura (desde sempre uma ameaça!), a extinção dos vínculos familiares causadores de desequilíbrios emocionais, a extinção de Deus e do Amor, a divisão em castas cujas funções sociais são previamente preparadas, o uso de uma droga sintética mantenedora do equilíbrio emocional e a ideia de Comunidade, Igualdade e Estabilidade. Vejamos:

 A civilização projetada por Huxley vive o ano de 634 d.F (depois de Ford). Dela aboliu-se a viviparidade e os indivíduos são originados em proveta, frutos de uma escolha rigorosa dos genes, de um conveniente tratamento químico durante a fase embrionária e de uma formação psicológica que se estenderá por toda a vida, desde o berçário. Neste ponto, Huxley usufrui as descobertas na área da psicologia. Além dos bebês serem cruelmente condicionados nas “Salas de condicionamento neopavloviano”, segue uma série de condicionamentos psicológicos eficazes, destacando-se a hipnopedia. Deste processo científico, surge a hierarquia social (funcional) do admirável mundo novo: alfas, gamas, betas, deltas, ipsílons e os grupos Bokanovsky de semi-aleijões.

Através desta formação psicogenética condicionada, extinguiu-se a família (pai e mãe), a religião, a história, a monogamia e, sobretudo, as emoções. O indivíduo sem estes vínculos emocionais é estável e a sua estabilidade conduz à estabilidade social, objetivo supremo da civilização do admirável mundo novo. Quando algum fator ameaça o equilíbrio individual, é consumida uma droga chamada “Soma” que restabelece o controle psíquico sobre a situação, representando a fuga protetora contra a súbita manifestação de pensamentos que são abominados pelo sistema.¹ 

Há ainda outros pontos em comum entre a civilização descrita por Lowry e a descrita por Huxley, sobretudo a intenção apresentada para justificar todos os esforços de administração e formatação do ser humano: a busca da felicidade que, nos dois livros, está associada à ausência de conflitos causada pelas emoções e pelo pensamento, como podemos constatar nesta passagem do Admirável mundo novo:

- Felizes jovens! – disse o Administrador – nenhum trabalho foi poupado para lhes tornar a vida emocionalmente fácil, para preservá-los, tanto quanto possível, até mesmo de ter emoções. (Huxley, A. Op.cit., Ed.Globo, 2001, p.78)

Eu pergunto: será que não se percebe isso hoje em dia? Não se percebe o tipo de indivíduo que estamos criando? Despreparado para a vida, posto que cercado por uma redoma de proteção exagerada, muitas vezes bem intencionada, mas, nem por isso menos catastrófica, originando uma sociedade infantilizada, irresponsável, abominadora de qualquer tipo de dificuldade, intolerante às frustrações e alheia ao mundo real e ao seu próximo. Eternas crianças, formatadas para serem meros corpos dóceis ávidos por consumo.
É muito interessante que Lowry tenha se detido sobre um aspecto da modernidade que não deve ser desprezado: a conservação da memória (ver artigo De Mnemosyne ao HD externo, também neste blog). O tempo todo, o doador destaca a importância da memória como repositório de vivências e conhecimentos necessários à sobrevivência do humano. Faz questão de dizer que, quando os anciãos não conseguem resolver um problema, ele é convocado como a voz da sabedoria. Acredito completamente nisso. Vivemos a situação mais incômoda que o ser humano pode atravessar: um momento de transição. Nossos antepassados também enfrentaram momentos assim. A grande dificuldade está na característica de ser um cenário volúvel, incerto, instável.
Os humanistas da minha geração têm diante de si uma imensa responsabilidade que é a de ser uma espécie de ponte entre uma geração e outra. Alguns dirão que todas as gerações passaram por isso. Concordo, mas o ser humano de cada uma dessas gerações anteriores era essencialmente distinto deste que se nos apresenta, pois tinha um conteúdo de valores morais e espirituais mais consistentes, ou seja, tinha por onde ser pego, resgatado. O de hoje, muitas vezes, se mostra destituído de um referencial comum ao nosso. Por isso, costumo usar a expressão “papo de surdo e mudo” para nomear um dos nossos maiores obstáculos.
O livro e o filme também sugerem essa falta ao tratar da morte de algumas palavras ou a intencional limitação semântica de outras, o que dificulta a comunicação, o entendimento. No filme, os personagens usam a expressão “precisão de linguagem” quando algum deles utiliza uma palavra que dê margem a mais de um sentido. Palavra com mais de um sentido é atributo riquíssimo da linguagem figurada, terreno da poesia. Este é mais um assunto que costumo levantar: nota-se um esforço institucional em direção à simplificação da linguagem através de propostas absurdas como a tradução de obras de Machado de Assis para uma linguagem mais simples. Esta simplificação da linguagem, na verdade, camufla um pragmatismo nefasto que adere aos anseios de facilidade de uma sociedade intelectualmente preguiçosa. Por trás de propostas como essa, existe o assassinato da poesia, cujo poder maior, como nos lembra Heidegger, é o de nomear as coisas que a palavra prosaica, utilitarista e pragmática não dá conta de nomear: os sentimentos, as emoções e os afetos mais complexos, que nos constituem e dos quais nenhum ser humano está livre. Pelo andar da carruagem, alguém aí é capaz de garantir que no futuro as pessoas terão em seu léxico mental a palavra Amor?
A palavra costuma cair em desuso por dois motivos: ou porque é taxada de arcaica e difícil, ou porque o ser que ela nomeava deixou de existir. O nosso papel como educadores (pais, professores, anciãos) é, entre outras coisas, o de mantenedores de certas memórias. Essa garantia não se dará pela simples preservação da palavra no vocabulário cotidiano, mas pela valorização constante do que ela nomeia. Tenho a impressão de que o universo linguístico e semântico da sociedade atual gravita em torno da palavra dinheiro. A estreiteza semântica limita a capacidade de compreensão de determinados fenômenos, porque essa estreiteza pressupõe a falta mesma da vivência desse fenômeno. Se não me engano, foi Wittgenstein quem disse que os limites da minha linguagem são os limites do meu pensamento. Os meus pensamentos se fazem através de operações cognitivas que necessitam de um estoque de conhecimento chamado memória.
Há alguns anos, numa sala de aula, falando sobre as vanguardas europeias, mostrei um quadro de Pablo Picasso (“Nu, folhas verdes e busto”) que havia sido leiloado naquela semana pela quantia de 106,4 milhões de dólares. O leilão durou oito minutos. Eu, ingenuamente, disse que, se Picasso estivesse vivo, ficaria indignado com tal leilão. Uma aluna lançou esta pergunta: “Ficaria indignado porque acharia pouco?”. Vale perguntar de que lugar veio essa pergunta. Certamente, de um lugar estreito de quem vive num mundo em que tudo gravita em torno do TER, pois o universo de sentidos atual é condicionado pelo sentimento materialista. Esse fenômeno começou a ser apontado a partir do advento do capitalismo, e o incômodo causado por ele está presente, sobretudo, nos poetas modernos (vide o gauchismo de Drummond).
Diante desse cenário, urge que preservemos a lembrança de algumas coisas e o significado das palavras que as nomeiam. Pelo menos, as coisas e palavras que garantirão a integridade daquilo que nos preserva humanos. Discernir entre os valores que devem ser conservados e os que podem ser abandonados é tarefa árdua para sábios, e Lowry (assim como Huxley), sabiamente, atribui à memória e aos livros (depositários fiéis da memória) o papel da sabedoria.
O mundo que aí está, regido por um sistema ditatorial invisível, tem destituído gradativamente a literatura reflexiva (música e filme também são textos) em prol de uma literatura de puro entretenimento (distrair é a questão) para atender a um público condicionado para as simplificações extremas, ou seja, ávido por facilidades e pelo conforto do não-refletir. Isso se dá por um velho truísmo: a Literatura, a Arte e a Filosofia despertam o pensamento e levam à autonomia, capacidades que contrariam os interesses dominadores de mercado, assim como sempre contrariaram grupos de interesses na história da humanidade. Pensar é perfumaria. Pensar é bruxaria.
Embora o filme de Phillip Noyce assuma – bem ao gosto americano – um tom piegas em alguns momentos, ele foi capaz de lidar com a ideia mais geral do livro, proporcionando certos questionamentos acerca do futuro da condição humana e possibilitando reflexões extremamente necessárias e inadiáveis sobre os sinais, cada vez mais evidentes, que o comportamento humano tem apresentado.
Para finalizar, gostaria de apontar o fator mais sombrio de todo esse cenário descrito pelas distopias de Huxley e Lowry: esta “felicidade” produzida artificialmente já encontra um indivíduo que nunca viveu outro tipo de existência, ou seja, se os mais velhos não transmitirem suas memórias elaboradas pela vivência e pela experiência aos mais jovens, logo teremos uma geração sem nenhum lastro com a sabedoria. Sem nenhum parâmetro do que seja o humano, invertendo, assim, os valores dos termos utopia e distopia. Diante disso, aquilo que, para nós, desenha-se como distópico (assustador), será, para eles, utópico (desejável). O distópico abordado com outro sistema de valores transforma-se em utópico.
Assim como acontece com algumas palavras no mundo fictício de Lowry, a palavra “utopia”, em nosso mundo real, foi destituída da sua conotação mais linda num período em que ela estava associada ao socialismo. Era, portanto, uma palavra perigosa, pois alimentava sonhos de outro tipo de sociedade, contrária à que pretendiam conservar. A destituição do seu valor semântico faz parte de um procedimento ideológico sutil, presente na obra de Lowry, Huxley e Orwell (a novilíngua²). Nosso vocabulário cotidiano limitou o termo “utópico” àquilo que é impossível (“Isto é utopia”, dizem muitos), ou seja, enfraqueceu o verdadeiro valor subversivo da palavra: u-topos. O ainda não-lugar. Ou seja, um lugar que não existe aqui e agora, mas pode existir num futuro desejado, em direção ao qual temos o direito de partir. O lugar do sonho de cada um. O lugar humano que eu mantenho vivo dentro de mim.

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar. (Eduardo Galeano)

                                                                                  Samuel Veratti


1.     VERATTI, Nelson S.P. Admirável mundo novo: um enredo de possíveis, Dissertação de mestrado, Unicamp, 2007.
2.     Novilíngua é um idioma fictício criado pelo governo hiperautoritário na obra literária 1984, de George Orwell. A novilíngua era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela "condensação" e "remoção" delas ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passa a não existir. Assim, por meio do controle sobre a linguagem, o governo seria capaz de controlar o pensamento das pessoas, impedindo que ideias indesejáveis viessem a surgir. (Fonte: Wikipédia)