"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O OLHAR ESTRANGEIRO DE KAFKA

Os comentadores de Franz Kafka (1883-1924) costumam encetar suas considerações apresentando quase sempre a mesma preocupação: as dificuldades impostas pelo seu texto. Discorrem sobre algumas delas e, logo depois, partem para uma tentativa de interpretação. Vislumbrando inúmeras possibilidades, fazem suas escolhas, debruçam-se sobre elas e, no fim das contas, são perturbados por Kafka e suas histórias que oferecem um horizonte infinito de seduções. Este misto de incômodo e admiração é unânime e, talvez, nesse aspecto resida um dos pontos de maior interesse sobre sua obra.
Seus textos já receberam abordagens teológicas, filosóficas, psicanalíticas, sociológicas e literárias. Muitas são consideradas pertinentes e magistrais, mas nenhuma deu conta de sua profundidade e plenitude, restando espaços vazios que reclamam preenchimento. A obra, repleta de paradoxos deslizantes, nos convida à entrada e até mesmo nos oferece inúmeras portas - ilusórias como as de seus próprios cenários – mas, ao entrarmos, nos perdemos num enorme labirinto e, depois de tanto circular, nos conscientizamos de que nem sequer alcançamos o ponto de onde emerge a vertiginosa elipse. Apesar de incompletos, os poucos passos que são dados nesse universo oferecem ao leitor atento uma multiplicidade de novos elementos sedutores.
O importante na leitura de Kafka é que a porta escolhida introduza realmente no universo da sua história. Uma vez lá dentro, será de bom senso deter-se apenas nos aspectos daquele universo. Deleuze e Guattari iniciam sua tentativa analítica exatamente com esta pergunta: “Como entrar na obra de Kafka?”. Após algumas considerações, ainda no início do texto, afirmam acreditarem somente numa “experimentação de Kafka, sem interpretação nem significância, mas somente protocolos de experiência”.
Adorno, autor de uma das leituras exemplares, renega a tentativa de enquadrar Kafka numa corrente de pensamento e sugere que insistamos nos “aspectos que dificultam o enquadramento” , atribuindo justamente a esta dificuldade a perturbação de uma obra em que “cada frase diz: ‘interprete-me’; e nenhuma frase tolera interpretação”. Para ele, a tentativa de interpretação “é uma questão de vida ou morte”. Albert Camus, por outro lado, propõe que se façam releituras diante dessa obra que contém “desenlaces e faltas de desenlace” ; Costa Lima, falando sobre as situações indecidíveis, nos diz que “cada interpretação suscita uma contra-interpretação, sem que possa haver acordo sobre a legitimidade de cada uma” ; Anders, apoiando-se talvez nas próprias palavras do Diário IV de Kafka - onde o escritor diz que tem o direito de ao menos representar o que havia de negativo em seu tempo - insere-o “num horizonte largamente estirado de problemas gerais” , efetuando assim uma leitura diversificada e belíssima da obra kafkiana. Enfim, para finalizarmos esta pequena lista de pensadores que se debruçaram sobre uma obra ímpar, seguiremos orientados pelas próprias palavras kafkianas, citadas por Rosenfeld: “Talvez haja só um pecado capital: a impaciência”.
No presente trabalho, tentaremos levantar alguns aspectos da obra kafkiana que revelam o olhar atento daquele que parecia “fora do mundo”, numa encruzilhada existencial: queria ajustar-se para ser aceito pelos poderes deste mundo e também continuar sendo fiel aos seus princípios. Neste ponto residia seu maior problema: como este olhar estrangeiro tão sensível às injustiças poderia anular-se? Trata-se de uma angustiada hesitação entre o “entregar-se” e o “afirmar-se” que, irresoluta, perdura na frustração. Nossa cautela nos limita à observação deste percurso malogrado do personagem kafkiano que vai revelando – entre outras coisas - os absurdos da racionalidade instrumental, por meio de um olhar que se emancipou dos hábitos burgueses.
Para tanto, traremos algumas considerações sobre o conceito de olhar, recolhidas do ensaio Fenomenologia do Olhar, de Alfredo Bosi. Também buscaremos alguns aspectos filosóficos em Adorno e Benjamin, tecendo, a partir deles, comentários sobre certas características do universo kafkiano sem, contudo, atrevermo-nos a enquadrá-lo numa determinada corrente filosófica. Trata-se, portanto, de simples observações provocadas por elementos que se nos mostraram significativos, sendo que alguns deles são iluminados pela extrema condição de estrangeiro em Kafka. Assim, as imagens que ele registra revelam ao leitor os recônditos da alma e da vida humana deformada, sem descrevê-las minuciosamente, apenas desvelando-as nos atos e gestos de seus personagens, através de um deslocamento que vasculha o diferente, revela o negativo e desperta a consciência.

1. Um estranho no mundo

Nascido em Praga, filho de família judia-assimilada e tendo que aceitar a língua alemã como oficial, o jovem Kafka não sentia o chão firme sob os seus pés. Vivia sob um constante e incômodo sentimento de não-pertencer ao mundo: não era um judeu ortodoxo; não se identificava com o tcheco por ter que falar alemão e nem com o alemão por ser tcheco; sua família era burguesa, mas ele trabalhava em uma fábrica, assim, não se adaptava ao operariado e nem à burguesia; por ser um escritor, não se adequava à burocracia de um escritório e na posição de arrimo, desfaziam-se as características do escritor. Em uma carta ao seu sogro, escreveu: “vivo em minha família mais deslocado do que um estranho”. Dentre os efeitos desse estranhamento do mundo, ressaltamos a sua condição de estrangeiro em todos os lugares, sendo que uma das mais importantes implicações desta condição em sua obra é o olhar diferenciado: o olhar que se debruça sobre o diferente, sobre o que passa, a muitos, despercebido.
Este singular estranhamento é característica do personagem central kafkiano que está sempre chegando aos lugares onde as regras já estão estabelecidas: Karl, em O Foguista; o explorador, em Na Colônia penal; o agrimensor K., n’O Castelo, Gregor Sansa que, em Metamorfose, desperta (chega) do mundo dos sonhos e, até mesmo, Joseph K., que em O Processo é acordado por um estranho e passa a viver um pesadelo num mundo totalmente diferente do que vivia. Além do conteúdo manifesto deste constante chegar, temos a forma de expressão das histórias que, geralmente, se iniciam in media res (em meio às coisas predeterminadas).
Os hábitos e costumes desses lugares lhe são estranhos, havendo, assim, uma espécie de discordância entre o sujeito e o mundo, pois eles não se acham na mesma sintonia. Esta inadaptação se confirma nas constantes questões levantadas por seus personagens principais: eles nunca trazem respostas a perguntas não formuladas, mas, ao contrário, sempre levantam questões que nunca são respondidas. Sobre isto, Rosenfeld nos lembra das “possibilidades que se anulam, da dúvida que duvida da própria dúvida, ad infinitum”. Estas giram em torno da lei, da justiça, da autoridade e da verdade. Não que seus personagens vivam em busca da verdade, mas eles se deparam com situações de estranhamento que requerem uma resolução justa e verdadeira, além de parecerem seduzidos pela lei, como o agrimensor K. e Joseph K.
O extraordinário em suas obras é que a construção ficcional insere o leitor na pele do estrangeiro, a ponto de suas surpresas serem as surpresas de quem as lê. Os elementos básicos da vida de Kafka, mais as “partículas reais” do mundo racionalizado são manipulados a ponto de resultarem em imagens transformadas e deformadas. Estes deslocamentos e acentuações negativas do real causam uma “impressão ao mesmo tempo de estranhamento e de dèjá vu, de extrema realidade e extrema irrealidade” . Com isso, Kafka atira na face do leitor as imprecisões do mundo e as ruínas da justiça.
Deleuze e Guattari refletiram sobre a mestria da construção kafkiana e concluíram que não há simplesmente uma correlação entre as formas de conteúdo e as formas de expressão, mas há, sim, o que eles chamaram uma máquina de expressão que desorganiza as próprias formas e libertam conteúdos puros que se confundem com a expressão . Assim, Kafka prende o leitor com sua arte: o artifício literário d’A Metamorfose, por exemplo, suscita no leitor o incômodo e o asco como se ele estivesse realmente vivenciando (ou presenciando) aquela condição de inseto.Da mesma forma, o mundo d’O Processo é projetado a partir de Joseph K. e sua angústia é vivenciada pelo leitor que compartilha tanto de sua visão, quanto de sua ignorância.O singular é que o sucesso de tal efeito literário resulta, sobretudo, da habilidade da sua máquina de expressão, posto que tal resultado não seria o mesmo se dependesse somente do conteúdo coadunado à expressão.
Dessa forma, o estranhamento do autor - que é natural à própria condição de estrangeiro que lhe atribuímos – passa ao leitor pela eficiência do seu método. Tal situação condiciona o efeito de distanciamento usado por Kafka. Distanciamento que propicia maior percepção ótica e, conseqüentemente, uma visão que recolhe fragmentos geralmente desprezados. Mas, afinal, como se opera tal estranhamento? Para simplificarmos, diríamos que aqueles que vivem em determinado lugar já estão habituados aos seus costumes e leis e suportam o peso de sua inexorabilidade. Ao estrangeiro, as regras do lugar não se apresentam com este peso. Sua conduta e seu olhar não estão presos às convenções dos decretos, por isso ele possui uma neutralidade e um distanciamento que faz com que veja as coisas por um outro ângulo . Ocorre que, em Kafka, esta visão deslocada não parece um privilégio para seus personagens, como não o é para os seres reais que a possuem. Compara-se a uma maldição, pois eles sofrem e se angustiam diante de uma vida dirigida de forma tão injusta e ininteligível. Portanto, o leitor sente-se sufocado pela impotência do “herói” kafkiano, já que sua sobriedade para nada serve: não encontra respostas (saídas) e não corrige as injustiças, vergando-se diante de uma lei convencional e soberana.
Por outro lado, o personagem que se desloca desta maneira sui generis num universo de convenções, diferencia-se dos demais, sobretudo, pela esperança que lhe confere maior mobilidade em oposição aos outros indivíduos que estão sempre conformados e estáticos. Este inconformismo é encontrado na determinação do Agrimensor e na insaciabilidade de Joseph K. Estabelece-se assim uma das características que enquadram Kafka como um escritor moderno: ele, entre outras coisas, opõe-se ao convencional, tanto na expressão estética que originou um novo estilo, quanto na visão crítica do mundo. Pois bem, o que devemos frisar é a importância desta espécie para a humanidade, pois “... são úteis precisamente em sua qualidade de estranhos: sua estranheza deve ser protegida e cuidadosamente preservada”.

2. Persona non grata

Aparentemente, as características do escritor Kafka que se refletem nos personagens são um paradigma da alteridade e da estraneidade do povo judeu. Notamos, por exemplo, na leitura de algumas de suas obras, que os personagens que trazem o estigma do estrangeiro são aqueles que são recebidos com precaução e mesmo desprazer aonde chegam. Esta inaceitabilidade por parte dos demais é, entre outras coisas, um reflexo do medo diante do outro, do desconhecido. Receio de uma sociedade que já está regulada por normas às quais todos se adaptaram e que proporcionam uma certa organização cômoda para os que julgam o bom andamento do corpo social. O ser estranho a estas normas julga-se livre dos seus ditames e orienta-se, muitas vezes, por seus próprios costumes. Seus desejos podem contrariar os demais.Assim, vemos os ressabiados aldeões d’O Castelo; o cuidado inicial do explorador (estrangeiro) com as palavras que discordavam das convenções na Colônia Penal; o incômodo causado por Karl Rossman em O Foguista e a prepotência e arrogância de Joseph K. perante o tribunal formado na sala da lavadeira.
O estrangeiro é justamente aquele que critica a nova terra por observar suas falhas e, ao ostentá-las, possibilita mudanças. Como disse Enriquez:

Ele, então, é capaz de notar as faltas. É assim aquele por quem o escândalo aparece.
Felizmente, diremos, contra o discurso do ostracismo diante do estrangeiro. Pois o que seria uma sociedade sem escândalo: uma sociedade presa na compulsão à repetição, no narcisismo nacional e numa visão mortífera do mundo. Acolher o estrangeiro é acolher o novo, o diferente, o exótico, é colocar-nos em questão e dar-nos uma chance de evoluir e de continuar nossa busca da verdade .


É notável, por exemplo, o número de imigrantes que participaram de revoluções sociais, dado que suas visões, sem a mácula e o vício das convenções, percebem as rachaduras e as ruínas do meio em que passam a viver. São críticos do status quo como Kafka foi um crítico das escravizações humanas. Revoltam-se diante das injustiças e, principalmente, diante do conformismo das próprias vítimas destas injustiças. Estes seres modelares - assim como os Abios apresentados no canto XIII da Ilíada - nos comovem pela visão mais justa dos homens e do mundo.
Eles parecem representar a própria visão de mundo do escritor Kafka, estrangeiro em potencial. Enquanto os habitantes da aldeia que circunda o castelo submetem-se às leis regentes, o agrimensor K. vive em busca de uma maneira de se aproximar da origem da lei para inquiri-la; o explorador da colônia penal não aceita o veredicto sobre o condenado e muito menos a sua forma de execução, ao passo que o soldado e o oficial agem como se aquilo fosse a coisa mais natural e necessária do mundo; temos, ainda, o jovem Karl que enxerga todas as injustiças que recaem sobre o foguista, mas não alcança êxito ao defende-lo, já que a própria vítima se conforma com a situação e, novamente, Joseph K. que repreende o comerciante Bloch quando este se ajoelha diante do advogado, mendigando a sua complacência.
Notamos, na verdade, que a atenção do personagem kafkiano se volta às questões da lei e da justiça. Ele se comporta não só como o que vem de outro mundo, mas também nos parece que este mundo, de onde vem, é um mundo onde predomina outro tipo de poder, bem diferente desse poder desumano. Benjamim, em um texto de 1921, nos dá uma noção do que seriam as diferenças entre esses poderes, muito embora ele acredite que não há como anular o poder . A necessidade de repressão como mantenedora de uma ordem social foi amplamente analisada pela teoria freudiana sobre a civilização, embora não deva ser aceita tacitamente. No entanto, percebe-se em alguns pensadores, entre eles Benjamin, Adorno, Marcuse e o próprio Kafka, uma revolta diante da opressão exacerbada, que extrapola os limites do propriamente organizacional para se deter num prazer egocêntrico e despótico de dominação.
Adorno e Horkheimer em sua Dialética do esclarecimento , já atribuíam este impulso de dominação a um medo imanente do desconhecido, desde os tempos míticos. O primeiro e menos aparente movimento de dominação seria a elaboração do conceito: abarcar a pluralidade de um ser na unidade de um conceito seria uma forma ilusória (porém eficiente, a priori) de dominar o outro. Conceituar seria conhecer, conhecer seria poder dominar e este poder afastaria o medo. Daí surge-nos a questão: seria a etiologia da lei a principal busca do personagem kafkiano? Sob este ponto de vista, o homem estranho ao meio representa um perigo por parecer indomável e todo ser indomado traz a semente da subversão. Enquadra-lo na lei - sob o peso do poder-violência (gewalt) - é, para o dominador, a única forma de afastar o medo, o risco de um descontrole social e sua conseqüente perda do poder.
Os abusos deste poder - apresentados na obra kafkiana - nos despertam a crítica sobre o modelo vigente. Como dissemos acima, Benjamin não descarta a presença do poder, assim como nós não conseguimos descartá-lo ao crermos que ele já opera no processo dialético do aparelho psíquico, mais precisamente nas instâncias do ego e do superego que são moldados pelas convenções sociais, não estando isentos de projeções e repressões. O que Kafka ressalta em sua obra – em consonância com vários outros pensadores – é que a lei dos dominantes, além de excessiva, mostra-se muitas vezes parcial. Esta lei é injusta, pois não respeita o princípio básico de reciprocidade que deve nortear direitos e deveres. Kafka focaliza (rejeitando) uma lei que traz estas características, além de ser soberana e impenetrável. O enigma maior se encontra na sua origem, na fonte que nunca é alcançada, sendo que os personagens apenas se avizinham dos funcionários da lei: os mensageiros e alguns subalternos do Castelo; o oficial da Colônia Penal; o guarda-porteiro de Diante da lei; o capitão, em O Foguista; Leni, a lavadeira e o pintor Titorelli, em O Processo.

3. O olhar ativo de K.

Segundo Bosi , os gregos e os romanos helenizados acreditavam no olhar receptivo e no olhar ativo. O primeiro se caracteriza simplesmente pelo que ele chama de um “ver-por-ver” e o segundo, seria um “ver-depois-de-olhar”. Quer dizer, com isso, que o olho, como “fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito”, pode tanto receber estímulos imagéticos involuntários, quanto escolher ou partir em busca de imagens selecionadas. Este “selecionar” envolve um processo idiossincrático complexo que seria o “pensar”.
Em Kafka, o olhar é antiburguês. Esta é a sua postura: decantar a educação burguesa. O pensamento da burguesia tem por base um modelo cartesiano-racionalista para lidar com a realidade. Sem fazermos uma crítica a Descartes, devemos, porém, criticar o uso que se fez do seu pensamento: ele foi explorado pela burguesia e extenuado pelo capitalismo. Desta apropriação indevida resultou um racionalismo tecnicista-instrumental funesto, pela extrapolação de uma razão que “analisa quantitativamente a forma formada que está a sua frente”. Razão que afasta as qualidades naturais que são imensuráveis geometricamente. Em suma: um olhar parcial que julga conhecer o objeto através de cálculos matemáticos. Bosi, citando a posição de Goethe e Sartre, nos diz que “o conhecimento dos seres vivos e, em particular, do ser humano, não se deve reduzir ao olhar físico-algébrico. Uma ciência das coisas e de suas propriedades não é uma ciência dos homens”.
Ora, mesmo que a ciência nunca descubra um método preciso de apreensão do real como coisa-em-si, continuaremos com a percepção de que o real é muito mais complexo e mutável do que se imagina e, portanto, não se deixa prender facilmente. Os limites da razão, ante a complexidade do real, foram enfaticamente discutidos por Adorno, em seu texto A atualidade da Filosofia , de 1931. Neste texto contundente, Adorno diz que aquele que se dispõe ao trabalho filosófico deve abandonar, desde o início, qualquer pretensão de se apoderar da totalidade do real. Após fazer um apanhado das vertentes filosóficas que surgiram até aquele momento histórico, julga-as todas ineficientes enquanto herdeiras de uma tradição idealista e totalizante.
Neste mesmo texto, Adorno exorta a atenção sobre aquilo que destoa, sobre o estranho, o inteiramente outro, o que Freud chamou de “escória do mundo dos fenômenos”. Sob este aspecto, ele se aproxima do modo de criação literária kafkiana quando nos diz que “a desconstrução em pequenos elementos desprovidos de intenção se conta, pois, entre os pressupostos fundamentais da interpretação filosófica”. Kafka quando ressalta o gestual, parece desconstruir o corpo humano em partes, conotando uma rejeição à totalidade, ao mesmo tempo em que nos alerta para a existência de outros aspectos do ser humano, além da razão. Este ato corrosivo sobre o sentido das coisas faz justamente abrir o sentido das coisas, permitindo e convidando a inúmeras interpretações.
As situações apresentadas pela ficção kafkiana deslocam e fixam os objetos de pesquisa. Este deslocamento opera de diversas maneiras através de uma técnica que atua sobre as imagens, sobre os gestos ou, até mesmo, sobre uma simples, mas obtusa troca de denominações: com a intenção de desfazer preconceitos que se associam a nomes, usa a palavra “chinês” ao invés de “judeu”. Esta “troca de etiquetas” propicia a neutralidade do olhar que confere uma “posição menos nociva possível à descoberta, à representação, à comunicação e à aceitação da verdade. Se o realismo tem um sentido filosófico, é este ”. Este pensamento se complementa com outro de Adorno: “Na verdade a realidade não é superada no conceito. (...) Pois o espírito não é capaz de produzir ou de compreender a totalidade do real; mas ele é capaz de irromper-se no pequeno, de fazer saltar no pequeno as medidas do meramente existente ”.
Enquanto a filosofia tradicional se detinha nas convenções, orientada por um desejo de unidade e pela totalização do real, Adorno defendia o olhar deslocado para as fissuras deste real. A atenção adorniana sobre o que destoa, talvez tenha sido um dos pontos de seu interesse pelo teatro do absurdo de Samuel Beckett, pelas contingências do humano em Kafka e pelas dissonâncias do psíquico focalizadas por Freud que se deteve sobre a loucura, a histeria, o unheimlich . Afinal, o que poderia ser descoberto de interessante sobre a sexualidade de um casal de classe média, por exemplo? Quanto a Kafka, basta lermos com atenção suas obras para percebermos que seu olhar focaliza e revela detalhes, gestos e ações dissonantes e, por vezes, estranhos.
Sendo a arte regularmente considerada a melhor forma de se aproximar do inexprimível, Kafka teve o mérito e a mestria de elevar esta potencialidade ao extremo: sua obra instiga, desperta e escandaliza por estar sempre próxima, esbarrando na verdade, através do absurdo, como os funcionários da lei. Estas qualidades kafkianas são o diametralmente oposto ao “olho do racionalismo clássico (que) examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca exprime ”.
Este olhar racionalista é veementemente rebatido por um processo recorrente em Kafka: a ênfase nos gestos mais simples dos personagens, os toques de mão, os olhares, os sons animalescos nos exortando à verdade: o homem não se restringe ao pensamento (ergo sum), ele é também as sensações, os sentidos. Além disso, tornar-se animal seria uma radicalização para expressar a vergonha de ser homem decaído.Com isto, Kafka nos coloca mais um dilema sobre o homem ao contrapor duas possibilidades: ele desauratiza a vida burguesa ou revela a vida burguesa desauratizada? Acreditamos que tenha feito as duas coisas: ao revelar a mesquinhez burguesa , desfaz a sua falsa aura de grandeza social, ao mesmo tempo em que, ao expor os seus interesses mercadológicos, demonstra que ela não possui e nem aprecia a verdadeira aura que é justamente imensurável. Seja como for, a ausência de aura nas imagens kafkianas não incide no banal, pois como dizíamos

Este novo olhar é o que, desde sempre, exprime e reconhece forças e estados internos, tanto no próprio sujeito, que deste modo se revela, quanto no outro, com o qual o sujeito entretém uma relação compreensiva. A percepção do outro depende da leitura dos seus fenômenos expressivos dos quais o olhar é o mais prenhe de significações. (BOSI, p.77).

Ou seja, ceder unicamente à ordem interna da razão não garante o sucesso na apreensão da verdade, como ressaltou Adorno, pois esse método considera somente os objetos enquanto imóveis. Ele nunca será suficiente para apreender a mutabilidade do ser humano, sua complexidade e sua riqueza.
O olhar frio e racionalista do homem burguês coisificou o ser humano e anulou a vida das relações sociais, onde tudo é transformado em valor de mercado. Sem falarmos que ao torna-se coisa, objeto inanimado (sem alma) e mensurável, o homem é facilmente dominado. Essa situação abre as portas para o barbarismo tecnicista que grassa em nossa humanidade, contra ele posicionamos a obra kafkiana que rejeita o olhar coisificante, anulador do ser humano. O homem-coisa é apreciado e apreçado pela sua utilidade prática e material. Destarte, é substituível quando se torna uma peça inútil. Este conceito mercantilista de utilidade manifestava-se no desprezo do pai de Kafka pela sua personalidade sensível, artística, “aérea”. Este viés dá ensejo à crítica kafkiana contra a racionalidade que despontava em seu tempo. Ele e alguns de seus contemporâneos perceberam os efeitos funestos desta transformação na vida dos homens.
A obra de Kafka apela para um novo modo de olhar. O olhar reverente que foi percebido por Modesto Carone, ao traduzir o título original kafkiano Betrachtung por “contemplação”, pois como ele mesmo disse, “para Kafka, a atenção dada ao objeto é uma forma leiga de oração”. Reforçando a apreensão deste conceito tão caro a Kafka, voltamos a Bosi:

Contemplar é olhar religiosamente (con-templum). Considerar é olhar com maravilha (con-sidus). Respeitar é olhar para trás, tomando-se a devida distância (re-spicio). E admirar é olhar com encanto movendo a alma até a soleira do objeto (ad-mirar). Os termos afins, contemplação, consideração e respeito conheceram todos um matiz de atenção e superior deferência... (1997, p. 78).

Observemos com atenção este olhar em Kafka: olhar que desloca e apresenta o desumano para resgatar do espanto o humano, porque o considera essencial; respeita (afasta-se e renomeia para eliminar preconceitos) e admira (encanta-se com o objeto) num ato diferente e deferente de oração. Esta forma de contemplação, ao desvelar imagens sem aura, desperta a nossa consciência para que percebamos o verdadeiro valor (áureo) das coisas. As qualidades humanistas desta forma de olhar são redimensionadas pela visão mais sensível do estrangeiro que se distingue pela distância exata, possibilitando a percepção da presença ou da ausência da aura dos seres.
Apesar dessas palavras, admitimos que este olhar não está evidente em sua obra. Para apreendê-lo, devemos perceber suas inversões: a exposição de detalhes negativos provoca a emersão dos positivos, pois, ao expor o absurdo como natural, o efeito é o choque sobre o que nos tornamos. Convida-nos à reflexão. Assim, conscientes talvez de nossos defeitos, temos um ponto de partida para a transformação, por mais que a sintaxe da frustração seja reforçada pela visão de que o nosso mundo seja apenas um mau humor de Deus e haja “esperança infinita, mas não para nós ”.
Kafka e seus contemporâneos sentiam a decadência das relações humanas, alimentada pela frieza do racionalismo técnico, pela explosão da Primeira Guerra Mundial e pelos bafejos do nazismo. Ocorre que o espírito da decadência não se extinguiu do nosso mundo, ele apenas adquire novos matizes em cada período histórico que passa. Este sentimento perdura por culpa do próprio ser humano que continua fazendo uso impróprio da razão. O uso que descambou em racionalismo técnico coisificante e que perpetua e acentua a “sub-existência” humana, mantendo a discrepância de direitos entre opressores e oprimidos.
Não se trata de uma crítica à razão enquanto faculdade humana e, sim, uma crítica à razão que se mostra irracional. No terreno do pensamento, existe uma crise diante das certezas cartesianas que é vivenciada pelo espírito de suspeição de vários pensadores, em várias épocas. Mas, este movimento crítico, sóbrio, ainda não conseguiu afastar do espírito humano – contaminado pela ideologia da utilidade – este ranço decadente que engendra a barbárie: processo (i)racional que acredita no progresso. O que certos pensadores almejam é o estatuto de uma razão sensual (Marcuse) que entende a razão humana como um conjunto de qualidades inerentes ao ser humano (razão e sentidos) e não a primazia de uma razão instrumental. Talvez, esta percepção angustiante e incômoda é que nos provoca uma nostalgia sem sentido aparente ou, quem sabe, tenhamos no inconsciente um arquétipo de paraíso perdido pelo qual anelamos, que motiva nossas ações críticas e mantém viva nossa esperança.

4. O olhar crítico

Um dos aspectos que diferencia Kafka de muitos escritores é que ele não se destacou pelo engajamento, ao menos não demonstrou esta intenção. No entanto, se levarmos em conta as palavras de Adorno , sua obra provoca “uma reação frente à qual as obras oficialmente engajadas desbancam-se como brinquedos”, já que ela tem o mérito de “resistir à roda viva que sempre de novo está a mirar o peito dos homens”. Esta resistência fica evidente na indignação de alguns personagens e no próprio estilo literário, além de poder ser entendida como uma forma contundente de questionamento acerca da existência. Daí, por exemplo, seus volteios com o pecado e a culpa. As questões da lei e da justiça nasciam no seio do ambiente familiar, onde, inspiradas pelos atos despóticos do pai, projetavam-se redimensionadas para a sociedade de uma forma geral. Seu fulcro “pessimista” (constante malogro) origina-se na própria vida incerta e no convívio paterno resistente.
O sentimento de culpa alimentado pelo pai debilitou o filho, mas, surpreendentemente, fortaleceu no escritor a expressão incomparável da frustração. Assim, o fracasso que golpeia os personagens kafkianos parece anular a semente de uma possível transformação. Este sentimento de impotência provavelmente foi percebido por Adorno que parecia crer mais na obra kafkiana como ponto de resistência do que como apelo à transformação. Além do mais, o destino dos homens kafkianos é inexorável, pois eles já nascem com o estigma da culpa e decaídos não escapam à sentença. A síntese desta condição poderia ser o drama de Joseph K. que se enreda num processo onde, na busca de uma explicação sobre a culpa, só faz enlear-se cada vez mais.
Logo, a similitude com o pensamento engajado se caracteriza justamente pelo olhar que não se ilude com as estatísticas otimistas de um sistema que se julga progressista. Este julgamento encontra-se tão alienado quanto o resto: o homem moderno não reconhece mais a sua natureza substancial, ele deixou de ser humano para tornar-se mercadoria, homem-profissão, máquina produtora de mais-valia. Estes aspectos em sua obra – apesar de pouco evidentes – foram apreendidos por Orson Welles em sua maravilhosa adaptação d’O Processo para o cinema (1963) e são apresentadas, por exemplo, nas imagens dos funcionários que datilografam o tempo todo – como autômatos - na empresa onde trabalha Joseph K., além da evidente ironia com relação à supremacia da máquina (e da razão tecnicista) no momento em que seu tio, vindo do campo (oposição ao urbano), sugere que ele pergunte ao computador os motivos do processo que se move contra ele.
O abandono e o auto-abandono do homem em função de um interesse mercadológico é sugerido, também, no texto kafkiano. Em Um artista da fome, vemos que, no início, o jejuador tinha um relógio afixado na parede de sua jaula. Desta maneira, ele podia medir constantemente e com precisão a grandeza da sua arte (os limites da sua abstinência). Com o tempo, sua condição foi decaindo e o relógio foi substituído por uma plaqueta que exigia a marcação manual do tempo transcorrido do jejum. Aquele ser humano abandonado, não podia mais medir o seu único valor (que já não lucrava ao empresário). Os dias não contados acusavam uma cifra que parecia um embuste, não cometido pelo dedicado artista. Fraudado pelo mundo, seu coração tornou-se pesado até a morte, não sem, antes, um inspetor notar aquela jaula – “peça perfeitamente aproveitável” – sem perceber no meio da palha podre o corpo definhado do artista . Este mundo onde tudo se transforma em mercadoria é onde reina a injustiça.
Como mencionamos a nostalgia por uma espécie de paraíso perdido, talvez seja pertinente atribuir a ela a inspiração kafkiana que direciona o olhar sobre um passado longínquo onde reinava uma outra justiça. O juízo que atravessa o olhar kafkiano provoca a postura crítica diante da “justiça” dos homens e de suas leis absurdas. Um olhar que, certamente, assim como em Benjamin, não descarta a exigência de um poder ordenador, desde que este não degenere em opressão. Aliás, poderíamos imaginar que fosse a nostalgia de um poder anterior à queda, pois não sintoniza também com o poder que imputa uma culpa congênita à raça adâmica. Uma espécie de protolei: a lei antes de ser escrita e que se acha contida num mundo fechado, num casulo indevassável onde o personagem kafkiano tenta entrar, ludibriado por portas que “mesmo abertas, vedam o acesso à lei ou levam a lugar nenhum”. A instância da lei em Kafka, “remete a uma época anterior à lei das doze tábuas, a um mundo primitivo, contra o qual a instituição do direito escrito representou uma das primeiras vitórias ”.
A incoerência das leis humanas é expressa na impossibilidade de sequer aproximar-se delas que foram feitas para todos, já que entre o anelante e o anelado existem inúmeros guardas, um mais poderoso que o outro. Estas verdades são percebidas pelo olhar suspeitoso e insubmisso de Kafka, o olhar do artista marginal que escandaliza. Olhos símiles aos benjaminianos que se voltam condolentes sobre os vencidos e incisivos sobre os vencedores. Olhos de “anjos necessários” que vêm (e vêem) de outra dimensão, estrangeiros angelicais que nos evoca um novo olhar, pluridimensional.
Kafka desejaria olhar para um mundo que não lhe fosse estranho. Sua obra foi uma tentativa de encontrar-se, situar-se num mundo que não provocasse o estranhamento tão angustiante. Na qualidade de vidente, buscava a identidade com o visível. Mas queria identificar-se com o todo e não apenas com os injustiçados, assim como ele. Gostaria que por seus olhos entrasse



... a imagem de um mundo feito de coexistências, coextensividades, simultaneidades, parentescos, implicações mútuas, afinidades, imbricações, entrelaçamentos, correspondências; em suma, um contexto de reversibilidade, palavra que é, não por acaso ... como ‘a verdade última’.
Nesse mundo a espessura da carne não deve ser temida como um obstáculo que separa o eu do outro, mas acolhida como um meio de comunicação. (BOSI, p.82).


Esta comunicação parecia impossível com um mundo que se lhe apresentava tão estranho. Tamanha dificuldade impunha-se também pela sensação de que o pai gigantesco estava deitado sobre o mapa-múndi impedindo o seu acesso. Situação que gerava enorme impotência, vencida pelo menos no campo da literatura, onde “sofria estados de clarividência”.
Contudo, não vemos na escrita kafkiana uma perscrutação do futuro. Ela se detém nas mazelas do seu presente, quando muito apoiado sobre a rememoração de um passado que se apresenta aos seus olhos como um horizonte distante, muito aquém do mundo mítico, sobre uma justiça que transcende o homem moderno, alienado, coisificado para projetar-se num passado imemorável. Um senso de justiça recolhido de outro poder e não dessa pseudojustiça do direito humano, mantenedora de um status que lhe convém na administração dos que lhe servem.Como nos diz Benjamin:

Um olhar dirigido apenas para as coisas mais próximas perceberá, quando muito, um movimento dialético de altos e baixos nas configurações do poder enquanto instituinte e mantenedor do direito (...) Deve ser rejeitado, porém, todo poder mítico, o poder instituinte do direito, que poder ser chamado de um poder que o homem põe (schaltende Gewalt). Igualmente vil é também o poder mantenedor do direito, o poder administrado (verwaltete Gewalt) que lhe serve. O poder divino, que é insígnia e chancela, jamais um meio de execução sagrada, pode ser chamado de um poder de que Deus dispõe (waltende Gewalt). (1986, p. 175).

Esta diferenciação que Benjamin faz entre as manifestações do poder vão, até certo ponto, de encontro ao pensamento exposto nas obras kafkianas, muito embora Kafka se manifeste de forma mais crítica com relação ao poder divino. No entanto, é interessante observar que, talvez pela origem judaica e pela relação ambígua que estes pensadores mantiveram com a tradição, essa postura rememorativa é própria do judeu que segue os ensinamentos da Torah. Para Kafka, assim como para o judeu, é proibido prever o futuro. Porém, vale ressaltar que o judeu não esvazia o futuro de qualquer significado: não o prevê, mas o espera numa espécie de preparação que se faz através da própria rememoração do passado e do olhar atento sobre o presente. Assim posicionado, o povo judeu espera abrir-se uma porta por onde poderá entrar o messias . Muito embora, Kafka um dia tenha dito: “O messias só virá quando o mundo já estiver salvo”.
Para os frankfurtianos aqui citados, parece mais plausível uma leitura redentora que se debruça sobre as rupturas do processo histórico, sobre a irrupção do totalmente outro, preparando para o imprevisto. O olhar deve se voltar sobre a superfície plana, desde que perceba as fendas onde se escondem, além de coisas más, possibilidades de mudança. Neste contexto crítico, existe um esforço por quebrar, destruir a imagem ilusória que nos passa a ideologia dominante, a fim de resgatar o que pede para ser salvo, resgatar a herança de uma possibilidade: salvar da razão deformada a boa razão. Em Kafka, não existe uma saída que conduza a esta salvação. No entanto, a permanência no seu universo, imposta por movimentos frustrados que incidem em aporia, expressa a realidade de um mundo que não tem resposta para o que é ser justo porque não conhece a lei escondida atrás de uma porta fechada. Lei que não só proíbe, como é o próprio lugar da proibição. Diante desta interdição não há uma saída real, resta permanecer e observar as possibilidades de salvar a justiça ou a boa razão, até que a morte feche a última porta.
Após esse percurso superficial sobre alguns aspectos kafkianos, devemos concordar com a suspeita adorniana sobre o olhar convencional. Mas, há a possibilidade de um olhar totalmente inocente? Talvez, os olhos do artista são os que mais se aproximem desta inocência. Mas, será mesmo isento de intenções? Nenhum olhar é! Seu mérito consiste em ter um ponto de vista distinto, que desloca a realidade e fixa o outro. Sua expressão carrega a marca da alteridade e se não atinge a precisão tão discutida por Adorno, tem, ao menos, o talento de mostrar o outro aos olhos do mesmo. Assim, a viagem ao mundo de Kafka requer um olhar estrangeiro preparado para o afastamento indispensável – num ato heróico de desreificação - que amplia a perspectiva e sucumbe ao espanto, ao estranhamento necessário que diferencia o indivíduo crítico do comum, tão conformado ao mundo em que vive.
O mundo apresentado por Kafka é um esboço do que se tornou o nosso. Basta percebermos que ele estendeu a mão ao que se encontrava nas fendas abismais e não podia ser visto por olhos turvados. Esta aparição, a principio, não atordoa justamente por causa da semelhança. Anders disse que nele o espantoso não espanta ninguém . Isto ocorre justamente porque nossa visão banalizou-se: passamos com naturalidade por entre os cadáveres, não temos compaixão pelas vítimas e aceitamos as injustiças. Só nos sentimos tocados pelo mundo kafkiano quando descobrimos que o que ele fez foi escarnecer dos nossos atos pequeno-burgueses. Seus personagens venais – assim como nós - agem com extrema naturalidade e impassividade diante dos acontecimentos mais absurdos. Diante deles levanta-se um agrimensor, um explorador, um Karl Rossman. São eles que reivindicam um outro olhar. Colocados em suas peles por Kafka, deveríamos, no mínimo, sermos provocados, até vermos que certas coisas são inaceitáveis e não devem ser presenciadas com naturalidade.



Nelson Samuel Porto Veratti

Referências bibliográficas:



ADORNO, Theodor W. Anotações sobre Kafka. In: ADORNO,T.W. Prismas: crítica cultural e sociedade. Trad. Augustin Wernet e Jorge Mattos Brito de Almeida. 1. ed. São Paulo: Ática, 2001, p. 239-270.
______. Die Aktualität der Philosophie. In: ADORNO, T.W. Philosophische Frühschriften. Band I. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996, pág. 325-344. Trad. caseira de Bruno Pucci, cotejada com a versão castelhana de José Luis Aratengui Tamayo (Barcelona: Ediciones Paidós, 1991).
______. Notas de Literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.
ADORNO,T; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
ALTER, Robert. Anjos necessários: tradição e modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem. Trad. André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1993.
ANDERS, Günter. Kafka: pró e contra. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Perspectiva, 1993.
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BOSI, Alfredo. Fenomenologia do olhar. In: NOVAES, Adauto. (Org.). O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 65-87.
BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Sel. e apres. Willi Bolle. Trad. Celeste H.M. Ribeiro de Sousa [et. Al.]. São Paulo: Cultrix: Editora da Universidade de São Paulo, 1986.
______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1996.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Trad. Mauro Gama, Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
DELEUZE, Gille e GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Júlio Castanon Guimarães, Rio de Janeiro: Imago, 1977.
ENRIQUEZ, Eugène. O judeu como figura paradigmática do estrangeiro. In: KOLTAI, Caterina. (Org.). O Estrangeiro. São Paulo: Escuta: FAPESP, 1998, p. 37-60.
FREUD, Sigmund. O estranho. In: FREUD, S. Obras psicológicas completas: edição standard brasileira. Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 235-269.
KAFKA, Franz. A metamorfose. Trad. Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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______. O Castelo.Trad. Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______. O Processo. Trad. Modesto Carone, São Paulo: Brasiliense, 1997.
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______. Um médico rural. Trad. Modesto Carone, São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
LIMA, Luiz Costa. Mímesis: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto. São Paulo: Perspectiva, 1996.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O BEIJO DE NEO

UMA NOTA SOBRE MATRIX RELOADED

As minhas impressões sobre Matrix reloaded (EUA, 2003) são diversas. Os irmãos Wachowski mantiveram a qualidade dos efeitos especiais e trabalharam bem a expectativa criada pelo sucesso do primeiro filme. Mas, num primeiro instante, fiquei decepcionado com essa segunda parte: ela não tem a aura da primeira.
Nessa segunda parte da trilogia, o caráter de verossimilhança foi desfeito pela ausência de mediações que possibilitariam a aceitação de algumas cenas: o Neo que voa e que se liberta de uma centena de homens, por exemplo. No primeiro filme, os autores parecem ter tido um cuidado maior com os detalhes, tornando mais aceitáveis as peripécias do personagem. Talvez, essa continuação tenha sido vítima da sedução dos recursos visuais e, portanto, tenha abusado deles. Assim, a adrenalina gerada pela primeira luta vai perdendo o efeito e a partir da terceira os bocejos são quase inevitáveis. Mesmo assim, existem pontos de reflexão no filme que devem ser considerados.
Importa-nos os detalhes sugestivos do filme. Dentre eles, destaco a sacralização de Neo, reverenciado pelos habitantes de Zion. O caráter sagrado atribuído a ele origina-se nos resquícios de humanidade que singularizam sua pessoa. Num mundo virtual tão intenso, onde a racionalidade instrumental e a alienação superaram os limites, ele surge, no mínimo, como um ser estranho, capaz de exceder as potencialidades humanas justamente pela parcela de humanidade que o faz ser “o escolhido”. Esta característica humana, admitida pelo Arquiteto da Matrix, é também inexplicável ao seu criador.
As qualidades humanas de Neo que fogem ao controle da experiência – sobretudo da super-evoluída tecnologia – são encaradas pela média (a massa) como transcendentes e superam a realidade conhecida por ela. Sobre este ângulo, talvez a maior contribuição do filme seja o alerta sobre a raridade do humano que vem se acentuando a cada superação tecnológica. Por trás de todo o progresso da tecnologia subjaz, funesta, a regressão da condição humana, a ponto de pensarmos em "raridade". A confirmação disso sustenta-se nas passagens do filme em que as pessoas levam oferendas a Neo como se ele fosse um deus, remetendo-nos a um tempo mítico onde os homens rendiam devoção às forças inexplicáveis da natureza.


O ponto mais significativo para este comentário é a troca sugerida por Perséfone (a estonteante Monica Belluci): comprovando a raridade do humano, ela pede a Neo que a beije com amor, pois este sentimento lhe é muito remoto. A troca de um beijo por algo vital à manutenção do sistema é um sinal do valor de culto que é atribuído a uma raridade. Perséfone com todos os privilégios oriundos do poder de seu companheiro demonstra a “pobreza” de quem vive sem sentimentos, já que o maior deles foi extinto da face da Terra. O ósculo do Amor que conduziu ao chaveiro pode ser lido como a chave para libertação. Assim, a salvação do humano reside no humano e o Amor é a chave. Sugestão significativa nos tempos que correm...
Samuel Veratti

ADMIRÁVEL GADO NOVO

Êh, ôh,ôh, vida de gado / povo marcado / Êh, povo feliz

O título deste artigo é o mesmo da canção de Zé Ramalho. Não se trata de plágio, nem de homenagem. O uso se explica pela providencial precisão de uma expressão que, além de envolver duas obras que passaremos a analisar, envolve também os temas destas obras. O aboio e o mote de sua canção remetem a conceitos contidos na obra Fazenda Modelo (1974) de Chico Buarque e na ficção de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (1932).
Esta afirmação não requer muita explicação. Bastaria resumir as obras citadas e o leitor entenderia a inspiração do compositor. Mas, como a canção é antiga em sua produção e atualíssima em sua “voz”, não podemos tratá-la tão superficialmente, já que envolve nossa existência presente. Neste caso, devemos nos deter um pouco mais em considerações.
Talvez, seja interessante dizer que, mediante a inspiração literária, a música de Zé Ramalho abarca passado e futuro em uma letra. Um passado que determinou o presente (logo, não se foi totalmente) e um futuro que foi passado, pois foi projeção vaticinante de um escritor. Logo, o presente desta canção contém o passado e o futuro.
O passado da Fazenda Modelo foi o presente (de grego) de Chico Buarque. Através de uma alegoria genial, ele extravasa o “nó da garganta”. A Fazenda modelada à base de repressão (condicionamento ideológico e genético, prisões, tortura, censura, violência), nada mais é do que uma triste alegoria do nosso passado sob o regime ditatorial, mais precisamente sob o governo Médici.
Chico imaginou o nosso país como um imenso curral, onde os ditadores eram os senhores da fazenda e o gado era o povo. Este universo ficcional tão bem engendrado foi enriquecido por características alegóricas alusivas aos acontecimentos do período em questão. A imposição de uma ideologia insana e a perseguição aos que a recusavam são figuradas na personificação de vacas e bois, ou seja, num rebanho humano que deveria ser manso, sempre na vereda, em fila indiana. Fomos e somos nós, passivos, que sob antolhos trilhamos uma senda antinatural, agressora dos direitos imprescindíveis.
O tema desta mencionada obra bastaria para esclarecer o refrão de Zé Ramalho, mas o título da canção é baseado em outra obra literária: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Escrito em 1932, o livro descreve um mundo que encontrou a estabilidade através do uso extremado de recursos científicos e tecnológicos, bem ao gosto do que vemos em nossos dias. Os indivíduos são literalmente modelados para atenderem aos interesses de um sistema produtivo exacerbado, onde a mecanização desenfreada conduziu à exigência da produção do supérfluo. Para que esta máquina permaneça estável, as peças (homens e mulheres) devem ser precisas. A precisão é fruto de uma verdadeira modelação do ser humano, por meio de um condicionamento genético e psicológico eficientíssimo. A potencialidade desta obra se confirma nas experiências com clonagem feitas atualmente e que deve deixar-nos de sobreaviso.
Entre outras coisas, o aspecto comum entre essas duas obras de ficção - que convergem na letra da música - é a denúncia de uma ideologia nefasta que nos é incutida pelo poder inevitável do condicionamento psicológico. Digo inevitável porque se apóia numa rede emaranhada de aparelhos ideológicos: educação, religião, política econômica e propaganda massificada.
Os que percebem as sutilezas deste sistema vivem sob a angustiante sensação de impotência, intensificada pelo esgar irônico dos condutores e a cegueira das suas vítimas. Como convencer o homem comum, inautêntico , da verdade destas colocações? Por exemplo, como enfrentá-lo com a “herética” afirmação de que a religião é um dos ópios do povo?
Um passo de formiga é deter os olhos sobre a literatura que denuncia a ideologia capciosa e desvenda as suas falácias, ou seja, a condição para o esclarecimento que retira os antolhos e desipnotiza o manso gado depende, sobretudo, do hábito da leitura, tão deteriorado pelo aparelho ideológico que se chama escola .
Quanto às obras mencionadas, a particularidade está no fato que Fazenda modelo foi vivenciada por Chico Buarque e por vários de seus contemporâneos. Eles, efetivamente, passaram por tudo aquilo, foram vítimas diretas da repressão mais absurda, desdobraram-se para driblar os açoites e a censura, sendo a obra de Chico um drible magistral, no melhor estilo Garrincha.
Já com Huxley a coisa é diferente. Não vivenciou o mundo que criou, apenas o profetizou. Sob o gênio e a acuidade do artista que observa a realidade e suas potencialidades e apreende o futuro no presente, ele predisse, em sua ficção, um mundo onde o extremismo tecnológico e científico auxilia os métodos repressivos, perpetuando a marcha autômata do rebanho humano.
Assim, tivemos um rebanho que marchou sob o açoite da ditadura, na trilha que lhe foi imposta; e temos um outro rebanho, mais atual, que é açulado por um aboio condicionante, sem violência física, mas violentado psicologicamente por uma ideologia eficiente, quase inescapável.
Apesar de ser temerária a avaliação de uma época inacabada, nada nos impede de apontarmos as características que potencializam um determinado vir-a-ser. A pretensão desta visão não é definir uma época e sim desvendar e denunciar aspectos funestos que se lhe apresentam. O materialismo dialético de Marx diagnosticou o declínio inevitável do capitalismo e o que vemos é o contrário: os tentáculos do capitalismo se estendem sobre todos os recantos do planeta e forçam adaptações que contrariam intenções socialistas. Estas intenções parecem impossibilitadas de nadar contra a avassaladora maré, restando-lhes adaptarem-se e atreverem-se a reformas sociais que amenizem as desigualdades. Mas, isto não basta para deter um admirável mundo novo...

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro...

Samuel Veratti

O MÉTODO INDICIÁRIO NO ESTUDO DA OBRA LITERÁRIA


“Destinado a ver o iluminado, não a luz”. (Pandora, Goethe)

A sociedade moderna norteia-se por métodos quantitativos: estimativas, estatísticas e probabilidades. Mensurar o objeto é, cada vez mais, uma das maneiras de se estimar os meios para dominá-lo e transformá-lo em lucro.Mesmo com todos os avanços tecnológicos e científicos, um breve olhar sobre a sociedade contemporânea é suficiente para questionarmos a palavra progresso, já que a irracionalidade do comportamento aponta a regressão do espírito.
Analisando a obra literária como representação da realidade e reconhecendo esta realidade como o desenvolvimento de um processo gerado por oposições e não como um movimento linear de causalidades inevitáveis, encontramos alguns indicadores das perdas sofridas pelo espírito. Os autores que sobrevivem ao tempo são aqueles sensíveis a essa configuração da realidade e que, representando-a, enfrentam os problemas reais, ou seja, “os problemas individuais e sociais que dão lastro às obras e as amarram ao mundo onde vivemos”.
A partir do Romantismo e da autonomização das esferas (Arte, Filosofia, Religião etc) a crítica tradicional da obra de arte mostrou-se ineficaz, pois, ela própria estava mudada, exigindo assim uma nova abordagem.Walter Benjamin, por exemplo, sugeriu a iluminação da obra a partir dela mesma e não mais de fora para dentro, com teorias pré-estabelecidas. O método tradicional, segundo ele, ao iluminar determinada obra, falava mais sobre a luz do que sobre a própria obra. No mesmo sentido, Adorno insistiu na crítica imanente que, a partir do objeto, formularia suas próprias categorias, rejeitando um denominador comum que o submetesse à heteronomia.
Limitar a apresentação da literatura à noção de épocas e gêneros - aspectos exteriores à obra – pretere a singularidade das obras. Porém, não podemos simplesmente abandonar o estudo dos gêneros, pois eles são categorias empíricas que existem como princípios de formação seguidos pelos escritores no decorrer da história. Deste modo, precisamos conhecê-los, mas não lhes atribuir o estatuto de categorias críticas, já que não dão conta das obras produzidas a partir dos seus próprios modelos. Esta inadequação deve-se ao fato de que a teoria dos gêneros é a configuração cristalizada de universais falsos, enquanto a obra é um todo singular.A teoria, na maioria das vezes, gira em falso sobre o próprio umbigo (luz) esquecendo-se do principal: o objeto (iluminado).
A crítica literária que reconhece a singular organicidade das obras, quer dizer, as relações dialéticas entre as partes e o todo, contribui para a “função humanizadora” da literatura e, de uma certa forma, para o resgate da racionalidade comportamental. Os críticos que veremos a seguir fazem uma leitura - considerada muitas vezes idealista - que focaliza o homem em sociedade: tanto o escritor quanto o seu objeto.
A célebre frase “o estilo é o homem ” é representativa dessa vertente crítica que encontra no estudo estilístico os indícios do homem e sua época, praticando, portanto, uma leitura que tende a valorizar e resgatar o humano, apontando também para a singularidade da obra. Na análise do texto literário, o método consiste em apreender o traço estilístico do autor no desvio da norma lingüística, através da atenção sobre os detalhes que devem conduzir ao centro da obra, considerando-a como um todo onde se encontra o espírito do seu criador. Assim, o ponto de partida é a atenção sobre o detalhe.

1. Em busca do detalhe: o paradigma indiciário de Morelli

Carlo Ginzburg apresenta, em Mitos, emblemas, sinais... , a história do método indiciário, ou seja, a sua origem, evolução e alguns representantes. E é justamente nesse percurso de um método - emerso por volta do final do século XIX - que ele explicitará o desconforto causado por classificações como racionalistas ou irracionalistas, tão polêmico nas confrontações entre as ciências humanas e as ditas exatas.
Um historiador de arte, Giovanni Morelli, atuante entre os anos de 1874 e 1876 sob o pseudônimo Ivan Lermolieff, foi o responsável por artigos sobre pintura italiana que primavam por um método insólito: distinguir os originais das cópias através do exame dos “pormenores mais negligenciáveis e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia: os lóbulos das orelhas, as unhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés ”. Esta ousadia desmereceu os métodos utilizados pelos museus de arte na atribuição das obras e que se iludiam sob os engodos da falsificação.
Partindo da observação daqueles detalhes, Morelli catalogou os traços presentes nos originais, ou seja, a singularidade das formas que passavam despercebidas pelas mãos dos falsificadores. Segundo Wind - citado por Ginzburg- as minúcias “traem a presença de um determinado artista” da mesma forma que as impressões digitais revelam o criminoso .
A doutrina de Morelli, ao sugerir que “a personalidade deve ser procurada onde o esforço pessoal é menos intenso”, precedeu a teoria freudiana sobre o inconsciente revelado nos pequenos gestos.Todavia, a descrença que recaiu sobre a metodologia morelliana não poupou também as teorias freudianas e o motivo foi o mesmo: as conclusões eram pouco científicas, ou se preferirmos, subjetivas.
Para o jovem Freud - que se ocupava dos lapsos como sinais de um inconsciente reprimido - os ensaios de Morelli propunham um “método interpretativo centrado sobre resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores” ou ainda “pormenores considerados sem importância” que “forneciam a chave para aceder aos produtos mais elevados do espírito humano”.

2. A aplicação do paradigma na Literatura

Analisando a língua de um povo onde ela é bem representada, vale dizer, em sua Literatura, a atenção sobre o uso que se faz dela pode nos oferecer uma amostra significativa do espírito desse povo. Assim, podemos estabelecer como pista para a investigação do nosso objeto o signo lingüístico. Esse tipo de investigação foi realizado pelo crítico e filólogo austríaco, Leo Spitzer, que em sua obra “Lingüística e História literária”, conseguiu ler no traço de estilo, o traço de época. Refletindo seriamente sobre todas as manifestações humanas - assim como Morelli - ele não considerava os detalhes como uma agregação casual de material disperso .
Seu método consiste, resumidamente, em percorrer o texto literário em busca de detalhes lingüísticos que apontem um desvio estilístico, isto é, um afastamento do uso normal da língua caracterizando o estilo do escritor. A proposta de encontrar o homem no traço de estilo requer, segundo ele, atributos subjetivos: talento, experiência e fé . A determinação desses atributos pode residir no pensamento de que se a Literatura é uma representação da realidade, melhor dizendo, se ela é a apresentação de uma realidade mediada pelo sujeito, não há como se apoiar em intenções categoricamente objetivas para o seu estudo.
Deve-se ressaltar que Spitzer não se restringe à observação do desvio lingüístico, pois conjuga os conhecimentos de Lingüística e os de História da literatura num único método. Ele notava que a Lingüística ou a História literária quando se limitavam, cada qual, as suas especialidades, olvidavam o verdadeiro e mais importante objeto de estudo: o homem . Na verdade, o lingüista, ao dar seus passos em busca da etimologia da palavra, pode descobrir os traços históricos do período em que ela foi criada. Além do mais, a palavra como instrumento de expressão naquele dado momento, sob o espírito específico de uma época, pode-se muito bem revelar o traço da época, posto que o espírito de um autor reflete o de sua nação .
Mas, afinal, o que especificamente procura-se no texto em busca desses resultados? Como dizia Benjamin, devemos iluminar o texto a partir da sua própria luz e a iluminação pode realizar-se numa atitude de contemplação do objeto . Na prática, seria ler e reler o texto em busca das “particularidades de estilo” do escritor, enquanto vestígios que apontarão para o todo da obra. Em seguida, aplicar o “movimento circular do entender” que vai do todo à parte e desta volta ao todo , percorrendo as trilhas traçadas pela costura do texto em busca de uma fissura, um ponto que cause estranhamento ou “a sacudida interior”.
Mesmo assim, Spitzer não garante o êxito, pois seu método requer vivência. Neste ponto, justifica-se a expressão alemã: “Methode ist Erlebnis ”, reforçando que as teorias aprendidas pelo investigador não são descartáveis, já que tudo o que ele vivenciou e experimentou, mais o seu talento e a sua fé, compõem os atributos necessários para o seu trabalho. No texto estão as pistas indiciárias que hão de revelar o seu segredo, pois é assim que ele se nos apresenta, perguntando-nos: “Trouxeste a chave?”. A chave é a atenção.

3. Auerbach: um herdeiro exemplar

No final do século XIX, as investigações baseadas na semiótica afirmaram-se nas ciências humanas. A prática de Spitzer será adotada por alguns estudiosos da literatura, entre eles, já no século XX, o crítico literário Erich Auerbach. Em seu livro Mímesis, o método pode ser apreendido já no primeiro capítulo - “A cicatriz de Ulisses” - onde se propõe a comparar o estilo apresentado no texto homérico com o do Velho Testamento. Para tanto, escolhe uma passagem do canto XIX, da Odisséia, que narra a revelação da identidade do mendigo à escrava Euricléia, através de uma cicatriz na perna; e do texto bíblico, a passagem do Gênesis (21:22) que nos fala do sacrifício de Isaac. Nestes fragmentos são observados detalhes estilísticos que revelam peculiaridades do povo grego e do povo judaico, ou seja, do traço de estilo chega-se ao traço de época.
Ao compará-los, Auerbach faz uma análise dos elementos narrativos (personagens, espaço, tempo e ação), mas, principalmente, aponta a relação intrínseca entre conteúdo e forma, partindo da intenção de cada texto: segundo ele, Homero expõe claramente cada elemento e cada acontecimento, sendo que “os diversos membros dos fenômenos são postos sempre em clara relação mútua” e os instrumentos sintáticos (conjunções, advérbios etc) são claramente delimitados e sutilmente graduados na sua significação, havendo “um desfile ininterrupto dos fenômenos onde tudo é iluminado”, nada fica inexplorado ou obscuro. A forma auxilia o conteúdo que se pretende claro: “os entrelaçamentos temporais, locais, causais, finais, consecutivos, comparativos, concessivos, antitéticos e condicionais” (orações subordinadas), trazem “à luz os fenômenos perfeitamente acabados”. Ocorre o que Antonio Candido chamou “a fusão inextricável da mensagem com sua organização” .
No texto bíblico não há esclarecimento nenhum acerca dos fenômenos. Imediatamente após o chamado divino (“Abraão!”), inicia-se a narração “sem interpolação alguma, em poucas orações principais, com ligação sintática pobre ”. Outra diferença é a adjetivação dos elementos no texto homérico (“o solerte Odisseu”, “a velha Euricléia”, “a prudente e sensata Penélope”), enquanto na Bíblia os utensílios, a paisagem e as pessoas “não suportam um adjetivo ”. Perante Deus, eles devem ser. Por isso, nota-se somente o uso de substantivos. Nada é tornado sensível, como ocorre em Homero através dos adjetivos.
A grandeza de Auerbach está em notar nesse detalhe (o uso freqüente de adjetivos num caso e de substantivos no outro) um traço de estilo. Mas, como isto nos revela o traço de época? Segundo o crítico, a minúcia descritiva e a extrema adjetivação homérica tornam quase palpáveis os elementos, o que caracteriza um certo apego ao aqui-e-agora dos fenômenos, o caráter de imanência tão caro ao homem grego. Enquanto no Velho Testamento a falta de causalidade, temporalidade e espacialidade é reforçada pela falta de dependência entre as orações coordenadas que apresentam os fenômenos independentes, expostos horizontalmente, só encontrando sentido na ligação vertical com um signo comum (Deus) que não pode ser explicado nem questionado (basta a crença!). Isto revela o caráter transcendente dos desígnios insondáveis e da relação do povo judeu com a existência.
No entanto, o texto bíblico apresenta uma única adjetivação: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas”. Esta passagem é de extrema emoção e dramaticidade e pode ser equiparada à passagem de Homero em que Euricléia acabou de reconhecer a cicatriz e assim a identidade de Odisseu: “Tu és, não há dúvida, Odisseu, meu amado filho”. Apesar da semelhança, distinguem-se pelo fato de que no contexto emotivo que rege cada um desses momentos, percebemos que o adjetivo “amado” apenas caracteriza e poderia mesmo ser suprimido sem desvalorizar a cena, pois está muito mais ligado à característica diferenciadora do filho do que à cena propriamente. Quanto ao adjetivo “único”, notamos que é substantivado, pois, muito mais que uma característica, aponta um ser único: Abraão não tem outros filhos, por isso o adjetivo não o diferencia de ninguém, não o caracteriza e sim diz o que ele é (nomeia o ser) . Quando Euricléia diz “meu amado filho”, sabemos que ela também considera Penélope e Telêmaco, ou seja, Odisseu não é o único. Assim, a intenção do narrador bíblico é salientar quão terrível é a situação de Abraão, o que deveria fixar o título em “O sacrifício de Abraão”e não de Isaac, que nada sabia e nem foi sacrificado.
Outros exemplos poderiam ser dados para ilustrar o uso do método indiciário na leitura de textos, mas, com este, esperamos ter elucidado o quanto a obra pode revelar a partir de si mesma, praticando-se um movimento distinto do tradicional. Por fim, notamos que o signo, a palavra, o estilo revela não só quem narra, mas também e, sobretudo, o homem narrado e sua época. Com esta atenção sobre o homem, há um resgate das diferenças qualitativas, da particularidade contrapondo-se aos métodos quantitativos que tornam tudo equivalente.




Samuel Veratti




Referências bibliográficas:

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SPITZER, L. Lingüística e História literária, Madrid: Editorial Gredos, 1968.

A DIALÉTICA DA INDÚSTRIA CULTURAL

O termo indústria cultural, pelo que tudo indica, foi utilizado pela primeira vez por Adorno e Horkheimer na obra Dialética do esclarecimento, escrita por ambos no ano de 1947. Um dos segmentos desta obra chama-se justamente “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”. Entretanto, apesar do nosso texto tratar deste assunto, analisaremos um outro texto adorniano que recebe o título de A indústria cultural e que foi baseado em conferências radiofônicas proferidas por Adorno, em 1962. Ele está inserido num compêndio de ensaios sob o título Theodor W. Adorno – Sociologia, organizado por Gabriel Cohn em 1986.
O ensaio apresenta as características da indústria cultural e tece comentários sobre sua perniciosa influência, afirmando que ela inculca as idéias do status quo e substitui a consciência pelo conformismo. Suas palavras finais, interpretadas resumidamente, asseveram que ela é um sistema coercitivo e inflexível causador do efeito de anti-Esclarecimento sobre os indivíduos. Nesta asserção sobressaem dois conceitos que exploraremos: indústria cultural e esclarecimento. A primeira expressão foi usada em substituição à “cultura de massa” que Adorno e Horkheimer julgavam inadequada pelo fato de não condizer com a espontaneidade da arte popular, visto que se trata de um produto do sistema capitalista visando à auto-sustentação deste por meio da ideologia de consumo. Já o conceito “esclarecimento” tem sua origem em Kant, mas no pensamento adorniano adquire, também, uma nova concepção, além da kantiana.
Assim, a partir do último parágrafo do referido ensaio, apresentaremos algumas características do que seria, para Adorno, a indústria cultural e qual seria sua concepção de “esclarecimento”, a fim de tentarmos entender porque aquela engendra o anti-Esclarecimento. Para tanto, recorreremos à obra Dialética do esclarecimento, assim como a obras de outros autores.
Após este percurso inicial, emitiremos algumas observações sobre a pertinência das assertivas adornianas. Cientes de que não podemos perder de vista o momento em que foram engendradas, julgamos, no entanto, que suas elucubrações devem servir de apoio ou ponto de partida para refletirmos sobre nossas condições hodiernas, mesmo porque acreditamos que não se passa incólume pela leitura de Adorno. Seu pensamento foi julgado por muitos como “pessimista”, mas acreditamos que esta adjetivação (pessimista/otimista) é inoportuna diante do relativismo de determinadas situações. Seja como for, devemos buscar o distanciamento necessário, encarando os efeitos das diversas “realidades” sobre as pessoas. O próprio Benjamin, com sua visão mais positiva sobre os avanços da técnica (fotografia e cinema, por exemplo), defendeu o pessimismo entre os intelectuais: é melhor duvidar das coisas do que se acomodar a elas.

1. O Aufklärung de Kant a Adorno: breves palavras

Em Kant, “esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”(Kant 5, p.100). A necessidade de se fazer uso do próprio entendimento - o que caracterizaria o homem esclarecido - é muito bem defendida e argumentada por Kant que prioriza a emancipação do indivíduo através do uso de sua própria razão. Sob este aspecto da razão parece prevalecer a autonomia do homem em relação aos outros, ou seja, o estatuto da liberdade. Este é o uso que se deve fazer dela: aquele que pensa por si só é livre, autônomo1.
Bem, esta conceituação belíssima é sem dúvida o que norteia um pensador iluminista. Se observarmos que é este o conceito de razão que Adorno e Horkheimer querem resgatar na Dialética do esclarecimento, perceberemos sua herança iluminista: a razão, imanente no ser humano, deve indicar o caminho que leva à maioridade, à “coragem de fazer uso do próprio entendimento”.
Entretanto, Adorno e Horkheimer observam nos primórdios da civilização, partindo do exemplo do Odisseu homérico, o uso da razão como instrumento de domínio. A nomeação dos deuses seria o primeiro movimento na tentativa de dominar o desconhecido para afastar o medo que se tem dele. Impotente diante dos mistérios inexplicáveis da natureza, ao homem só resta entender o que é o objeto externo e estranho a ele. Neste esforço, formula conceitos e nomeia os seres com a intenção de melhor conhecê-los, pois, para ele, conhecer é dominar e o dominar afasta momentaneamente o medo.
Movido por este impulso primário, o homem faz uso indevido da razão, ou seja, ao invés de viver em harmonia com a natureza, numa troca respeitosa que propiciaria a sobrevivência, vê-se obrigado a dominá-la. Este impulso de dominação desenvolve – num estágio posterior - a chamada razão instrumental. Grosso modo, esta seria o olhar interessado sobre os recursos da natureza: não se olha mais para ela a fim de obter uma fruição estética e nem como extensão do cosmos, olha-se para transformá-la em proveito próprio. Este processo acentua-se quando tudo pode ser transformado em mercadoria e, sob os anseios capitalistas, não medem mais as conseqüências de seus atos e nem os meios que conduzem aos fins desejados. Assim, impera a razão instrumental que se volta para a exploração sistemática da natureza.
Dessarte, o caminho que, a priori, conduziria à libertação das superstições oriundas da inexplicabilidade diante das forças ameaçadoras da natureza, resultou numa separação radical entre sujeito (homem) e objeto (natureza). Esta separação, que estabeleceu definitivamente uma hierarquia entre dominador (senhor) e dominado (escravo), procede do medo daquele para com este, incrementado por interesses mercantis. Por extensão, todo e qualquer objeto (ser) que se apresenta ao sujeito como estranho, desconhecido, pode representar perigo, fator que leva à insegurança e que só se desfaz diante da dominação.Em suma: o homem só afasta o medo quando se torna “senhor”.
Como dissemos, o primeiro impulso de dominação é o estabelecimento dos conceitos, que não passam de “vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”(Adorno e Horkheimer, p.29). Além do mais, o conceito não dá conta da pluralidade e da multiplicidade do ser. Ele é simplesmente um instrumento arbitrário que permite o assenhoreamento sobre a realidade externa, seja ela a natureza ou o próximo. Assim, a razão que formulou o conceito pretende, também, desencantar o mundo dos mitos, fazendo um percurso de transição dele à técnica, que não objetiva a felicidade do ser humano, mas, sim, um método preciso de dominar a natureza. O aprimoramento da técnica é reverenciado pelo homem moderno como progresso, resultante do domínio da razão (logos) sobre a natureza (mito) produtora de encantos e ilusões. Estas, que alimentam a imaginação, são substituídas pelo saber que emancipa o homem.
O processo emancipador que vai desencantando o mundo em direção ao progresso da técnica de dominação é visto, por Adorno e Horkheimer, como “o signo de uma calamidade triunfal” (Idem, p.19). A técnica, como essência do saber, confere ao homem o poder “que não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo” (Idem, p.20). Portanto, se pensarmos que o esclarecimento nasce do uso da razão, concluímos que a dominação da natureza, a partir da razão que afastou as trevas da superstição (mitologia), é esclarecimento. No entanto, este fruto degenerado da razão é combatido o tempo todo por Adorno e Horkheimer e o que eles tentam resgatar é justamente aquela razão defendida pelo discurso kantiano.
Assim, notamos que o homem, na verdade, não presta a devida atenção sobre seus próprios atos. Ele se julga senhor do mundo, sendo que seu poder sustenta-se no privilégio da razão. Percebendo que suas técnicas transformam a natureza circundante em proveito próprio, a ciência, por exemplo, propaga o estabelecimento do saber como meio de descoberta sobre as particularidades da natureza a fim de “melhor prover e auxiliar a vida”, depreciando a busca do saber pelo simples deleite.
A propaganda da imediatidade e da utilidade do saber é reforçada pela escritura que proíbe e condena aquele que come o fruto da árvore edênica. Ocorre que a cultura do antiesclarecimento difundida por esta alegoria, apesar de desvalorizar o conhecimento aprazível, não consegue conter o impulso natural no ser humano de buscar o conhecimento, pois o ser ínfimo e desprotegido diante da infinitude e dos mistérios do universo tem no medo natural o seu propulsor. Portanto, não havendo como fugir a este movimento da razão, o homem, acuado entre os anseios naturais e os interditos sagrados, sobrevive na dependência de uma escolha que não refute o saber: conhecimento não deve satisfazer, deve tornar-se práxis, técnica. Esta, que se compõe de conceitos, regras e leis, reduz a multiplicidade do real à unidade mensurável que possibilita a ordenação de um mundo caótico. Para tanto, o número torna-se “o cânon do conhecimento” e a calculabilidade do mundo estabelece o reino das equivalências.
Enfim, neste universo plano, mensurável e unificado não existe espaço para as ilusões fugidias, não existe espaço para as artes. A ironia deste processo reside no fato de que o poder positivista é tão amplo que não teme mais o poder da arte. Esta perdeu a força junto com a autonomia, pois a sua desauratização foi efetivada pela indústria cultural. A “República” positivista moderna não sente necessidade de expulsar os poetas que foram desarmados por ela mesma e que não representam o menor perigo. A padronização e a massificação da cultura desauratizada impossibilita a autonomia do pensamento tanto de quem cria, como de quem consome a criação: aquele se rende ao mercado; este é condicionado e seduzido por ele.

2. Indústria cultural: instrumento de dominação e engodo

O raciocínio desenvolvido no tópico anterior antecede a lógica da identidade condenada veementemente por Adorno. Um dos passos radicais desse raciocínio adorniano foi aproximá-lo da lógica capitalista que modela o sujeito aos padrões de comportamento conformistas. Adorno entrevê, no sistema constituído pela indústria cultural, um meio de transformar tudo em idêntico, semelhante, ao mesmo tempo em que dissimula o estabelecimento da diferença. Os diversos veículos da indústria cultural (revistas, jornais, rádio, tv e cinema) formam um sistema e propagam a nota uníssona e hipnotizante que violenta as idiossincrasias porque camufla e dilui a multiplicidade do ser, padronizando-o como se fosse idêntico a todos os outros. Os sons e imagens monocórdicos da indústria cultural condicionam o comportamento mecânico e a repetição impensada, ou seja, o automatismo verificado, por exemplo, nas linhas de produção industrial. Com isto, o homem que devia ser libertado pelo esclarecimento, torna-se alienado e submisso ao controle alheio:

A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomada pela indústria. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente (...) Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação.(Adorno e Horkheimer, pp. 117 e 123).

Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural tem o poder de decompor as particularidades sensíveis e recompô-las, condicionando nossos sentidos antes mesmo que a percepção da realidade ocorra. Portanto, guiada por interesses escusos, ela não tem nada de inofensivo, pois age diretamente na formação psíquica dos indivíduos.
A violenta compactação do múltiplo deixa escapar inúmeras diferenças e o produto padronizado da indústria cultural acentua a identificação entre o universal e o particular. Assim, o sujeito vai sendo condicionado a enxergar somente as características comuns nos vários seres que se lhe apresentam. Com a percepção condicionada, não divisa as diferenças e fica à mercê de uma “ordenação arbitrária” do real, iludido pela fixação de um mundo verdadeiro. Este mundo de equivalências, de casos idênticos, parece-lhe mais simples, compreensível e calculável. Portanto, podemos inferir deste breve percurso que o impulso humano para a conceituação, além de uma tentativa de autopreservação diante do desconhecido, é também um recurso racional que acredita e busca conviver melhor com um mundo sob medida, embora falso. O lamentável é que além do auto-engano encontra-se o outro enganador. Enganar-se e ser enganado: seria este o segredo da adaptação ao mundo? Se atentarmos para o processo dialético do aparelho psíquico, observado por Freud, veremos que o ego já engana o id para melhor adaptar-se ao princípio de realidade, enquanto, no mundo externo, o caminho para o engodo não encontra obstáculos nos indivíduos que são menores.
Portanto, para Adorno, a indústria cultural opera o antiesclarecimento porque, além de ofuscar, não oferece elementos que emancipem o individuo e o tornem autônomo. Ao contrário, pela formação de uma falsa subjetividade, torna os indivíduos autômatos, moldados pela forma condicionante de um sistema perverso que se fortalece ao mesmo tempo em que se salvaguarda de qualquer reação emancipadora. Perante esta situação, podemos perceber a hipocrisia de um sistema que se autodenomina democrático. A sua maior falsidade consiste na pseudoliberdade dos cidadãos que vivem enredados por uma realidade tolhedora, antiesclarecedora. A chamada “democracia” passa a impressão de liberdade, mas, na verdade, o cidadão não é autônomo o suficiente para fazer a escolha que o beneficiaria: o sistema condiciona e direciona sua escolha sem que ele perceba.
A crítica adorniana a este sistema nasce de um pensamento dialético caracterizado pela “co-determinação recíproca entre o particular e o universal, a concepção de uma totalidade articulada, na qual partes e todo se definem mutuamente” (Gagnebin, p.94). Sendo o pensamento adorniano orientado por esta dialética - em que partes e todo se determinam reciprocamente - justifica-se sua preocupação com um sistema que manipula as partes e padroniza o todo. Para aqueles que não encaram dialeticamente a realidade, a história humana apresenta-se como uma sucessão linear de acontecimentos em direção ao progresso, sendo as desigualdades sociais apenas obras do destino e não do próprio homem.
Retomando o termo “esclarecimento”, em resumo percebemos que ele é usado sob duas perspectivas: a princípio no sentido kantiano, mas com a prefixação negativa (anti-Esclarecimento) contrariando a condição para a emancipação e a autonomia do indivíduo. Depois, na indústria cultural, é pensado como o foi na Dialética do esclarecimento, quer dizer, como resultado de uma busca de desencantamento do mundo denominada razão instrumental. Por meio de uma dialética perversa, a cultura massificada que é difundida passa a impressão do esclarecimento quando, na verdade, condiciona e perpetua o uso e a submissão à razão instrumental.

3. A permanência da vida danificada

Se olharmos para a indústria cultural como um dos tentáculos do sistema capitalista, fica difícil não cedermos à sedução do pensamento adorniano que manipula tão bem Kant, Hegel, Marx e Freud. Perguntamos, portanto, se a rejeição a essa teoria adorniana não seria, justamente, a “estratégia canhestra da sobrevivência” de indivíduos ainda não preparados para enredarem-se na amplidão de tamanho desastre. Na verdade, temos a impressão simplória de que o espanto é proporcional à condição de vida de cada um. Esta nossa simploriedade funda-se no pensamento marxista de que o sujeito histórico revolucionário não surgiria entre aqueles que vivem sob as benesses do capitalismo, salvas pouquíssimas exceções. Este pensamento pode ser objetado pelo fato de que o próprio Adorno beneficiava-se de uma herança burguesa e, portanto, sua comodidade não se coaduna à rebeldia expressa em suas obras, mas, por outro lado, sabemos que a dramaticidade do seu radicalismo tem como pano de fundo nada menos que o nazismo, o stalinismo e a condição de exilado e que tais fatos devem ter ampliado sobremaneira o seu espanto. Portanto, podemos nos perguntar: até onde chega o envolvimento daquele que não está com a vida tão danificada? Quando haverá interesse em mudar esta situação, se um mundo propicia e perpetua o outro? Temos como paradigmas os políticos que visitam “turisticamente” os mundos subumanos da miséria e, logo depois, retornam aos seus mundos confortáveis. Àquele que vive sob o mundo miserável, o pensamento adorniano não é tão radical assim, seria, antes, real. Ao mesmo tempo e paradoxalmente (ou não), sucumbir às tentações deste pensamento “pessimista” seria auto-aniquilar-se de vez e, como vimos, a sobrevivência depende da “estratégia canhestra” do auto-engano.
O indivíduo só percebe o desastre quando - além de estar no centro dele - possui o esclarecimento, no sentido kantiano. Enquanto ele for um “menor”, suportará sua condição e sua vida danificada crendo nas palavras do dominador (o governante, o padre e/ou a indústria cultural) que o fazem crer que esta vida foi traçada por um destino imutável, mas que no reino dos céus seu tesouro está guardado. Assim, a domesticação deste “admirável gado novo” perpetua o conforto de alguns que nunca quererão sair dele. Estabelece-se o círculo vicioso da dialética do condicionamento e da dominação.
Seria interessante notarmos que este estado de coisas parte da e permanece pela mentira. Ela se dá pelo mau uso do logos, ou seja, é a razão que manipula palavras e constrói um discurso iludente.Muito mais interessante é quando percebemos que este discurso iludente que evoluiu do lógos platônico é bem mais nocivo do que o mýthos homérico que nunca escondeu que proferia verdades e mentiras2. Uma coisa é a palavra que apresenta a mentira do mundo, outra é aquela que a compõe e a apresenta ao mundo.
O poder do logos (razão e palavra) é incontestável. Mas, por que usamo-lo de forma tão prejudicial? Vontade de poder? As astúcias da linguagem, que são mostradas por Rousseau em seu segundo Discurso, antecedem o uso da violência no processo de dominação e exemplificam o poder da palavra. A partir de então, vemos que esta nunca perdeu seu poder de comando:

O primeiro que, tendo demarcado um terreno, ousou dizer isto é meu e encontrou gente suficientemente simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as cercas ou tapando o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: Evitai de ouvir este impostor. Estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a Terra não é de ninguém. (Prado, p.15)

Aquela “gente suficientemente simples” é a que não saiu da menoridade. Se acreditarmos que a evolução da linguagem (do mito ao logos e deste à técnica) deu-se através de um aprimoramento de sons (grunhidos) e imagens (pictóricas e gestuais), levando-se em conta que a escrita seria, aproximadamente, a forma grafada (imagem) dos sons e que todos estes ingredientes (sons, imagens e palavras) compõem o produto final da indústria cultural (rádio/música, tv/cinema, jornais/revistas, etc) e que esta permanece nas mãos de uma elite que pode fazer uso indevido do logos (palavra e razão) para impedir “a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente“ (Adorno 2,p.99), vemos quão convincentes podem ser as palavras de Adorno.
Aquela palavra primeira que possibilitou a dominação de um sobre tantos, hoje impera com muito mais eficácia, pois todos os meios técnicos e de formação das consciências estão mais avançados. A televisão que invade bilhões de lares dispensa os antigos e inflamados discursos em palanques que atingiam a uma parcela muitíssimo menor da população. Assim, a indústria cultural é a vitrine dos poderes da palavra que produziram e produzem tantas injustiças. Os olhos e ouvidos que se encantam com esta vitrine estão sendo moldados por um padrão único de condicionamento: antiesclarecer é automatizar.
Este sistema é perverso e sutil. Quando suas estratégias tornam-se inerentes à produção cultural, tendo sua eficiência intensificada pelas particularidades da arte e aprimoradas pela mais alta tecnologia, camufla-se muito bem o autor (o capital). Este estado de coisas permite até a crítica aos seus próprios recursos, já que eles são fortíssimos. Assim, o dominador pode passar a impressão, através de um discurso acalorado, de que se condói do sofrimento do povo, pois este mesmo povo está condicionado a crer que as coisas são assim mesmo. Isto se deve à mudança das estratégias de repressão e condicionamento que evoluíram da violência física à violência psicológica: uma se dá pelas armas; a outra por imagens, sons e palavras.
Enquanto isso, nas escolas continua-se a estimular a competição e não a cooperação e quando as crianças chegam em casa e ligam a televisão, deparam-se com mundos lúdicos onde, sempre, os mais fortes vencem os fracos. Assim, a criança desprivilegiada - que compõe a base da pirâmide social - crescerá e formará seu ego assumindo a posição do mais fraco que o desenho colorido lhe ensinou ser sempre o que perde. Seu espírito - alimentado por esta forte ilusão - retorna, no outro dia, ao banco escolar onde fica à mercê de um sistema de ensino hipócrita, pseudopreocupado com sua educação e que, na verdade, o prepara para mantê-lo subalterno, enquanto outras crianças, após um belo breakfast, são levadas por chauffers e seguranças às escolas que formarão a elite do futuro. Os pais daqueles - paupérrimos freqüentadores de supletivos e telecursos na rede pública de ensino - divertem-se com programas sensacionalistas apresentados na tv convencional que banaliza a violência e a miséria. Enquanto, não muito longe dali, prósperos pais brindam ao som da música clássica, vão ao teatro, escolhem livros numa imensa estante ou mudam o canal da tv por assinatura.
Essa realidade, preterida por tantos, demonstra que a educação passa a não ser a mesma para todos, pois temos, de um lado, a educação do senhor que o levará a ser dominador e, de outro, a educação do escravo que o levará a ser dominado. A distinção educativa efetuada pela indústria cultural pode ser resumida com as palavras de Duarte:

Sob esses aspectos, destaca-se na indústria cultural uma hierarquização dos diversos produtos quanto à qualidade, no sentido de servir uma quantificação completa dos seus procedimentos. Distinções que se fazem, por exemplo, entre filmes A ou B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, não têm a ver propriamente com seu conteúdo, mas com a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. (Duarte, p.39)

Após o breve percurso que fizemos, o fragmento de onde partiram nossos comentários enfim é alcançado. Nele, além de identificarmos os temas que discutimos, observaremos a acusação final da desumanidade de um sistema que transforma o corpo social em massa, ao colocar seus indivíduos sob a mesma medida e impedi-los de alcançar a maioridade a qual já estariam aptos, sobretudo se as técnicas fossem utilizadas de maneira positiva, ou seja, na formação emancipatória desejada por Benjamin e por nós. Pusemo-lo aqui porque acreditamos que finaliza muito bem nosso texto, assim como finalizou o de Adorno, resguardadas as devidas e imensas distâncias intelectuais que separam seus respectivos autores.

O efeito de conjunto da indústria cultural é o de um anti-Esclarecimento (anti-Aufklärung); nela, como Horkheimer e eu dissemos, o Esclarecimento (Aufklärung), a saber, a dominação técnica progressiva da natureza, se transforma em engodo das massas, em meio de tolher sua consciência. Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente. Mas estes seriam, contudo, a condição prévia de uma sociedade democrática, que só pode se manter e se desenvolver através de homens que atingiram a maioridade (mündig). Se as massas são injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria indústria cultural que as transforma em massas que, depois, despreza e impede de atingir a emancipação, para a qual os homens mesmos estariam tão maduros quanto as forças produtivas da época o permitiriam.(Adorno 2, p.99, trad. de Amélia Cohn, modificada por J. M. Gagnebin).

Samuel Veratti

Referências bibliográficas

1. ADORNO, T.W. e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
2. ADORNO,Theodor W. Sociologia. Org. e trad. por Gabriel Cohn. São Paulo: Ática, 1986.
3. DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer & A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
4. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
5. KANT, Immanuel.Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1974.
6. PRADO JR, Bento. “A força da voz e a violência das coisas”, in ROUSSEAU, J.J. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
7. TORRANO, Jaa. “O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo”, in Boletim do CPA, nº 4, Campinas: Unicamp, Julho/ Dezembro de 1997.