Dedicado a um futuro incerto
O
triunfo da ambiguidade. Essa expressão é complexa e instigante. O núcleo
substantivo “triunfo” significa “grande êxito numa batalha”. Uma batalha
pressupõe forças contrárias, cujo sucesso cabe apenas a uma delas. Na formação
do sintagma, o substantivo abstrato “ambiguidade” detém o poder, pois é dele
que advém o triunfo. Entretanto, causa um certo desconforto o seu étimo latino
“amb”, que indica duplicidade,
remetendo a “dois”. Poderíamos dizer que a força da composição está no incômodo
que ela gera: de um lado, o triunfo que sugere um e não dois; do outro, a ambiguidade que corresponde a dois e não a um. Essa complicação se
desfaz se considerarmos dois indivíduos concretos disputando algo, de que
resultaria o triunfo de um. A expressão que tomamos, no entanto, ganha peso e eficácia
se pensada como tradução de uma força que resulta do uso de uma abstração
(ambiguidade, dubiedade, incerteza):
a energia da dúvida usada como um meio, um instrumento para a conquista, a
vitória. Utilizar a dúvida como instrumento para o triunfo. Utilizar. Uma simples questão de cálculo
e aplicação.
O
processo de impeachment que acabamos
de acompanhar encerra uma etapa e dá início a um novo (ou velho? Eis aí a certeza)
horizonte para o Brasil. Conjecturando uma esperada imparcialidade, o cidadão que conseguiu
atravessar essa fase com neutralidade
(princípio que deveria reger as instâncias julgadoras na Câmara,
no Senado e no Supremo) sai dela com gosto de ferrugem na boca, fruto amargo do
que foi e se manteve corrompido pelo tempo (este mesmo que possibilitaria o
progresso). O amargor incômodo não é
consequência direta das forças que agiram em sentido discursivamente contrário:
duas reivindicações majoritárias (tchau/fica querida), dois espaços geográficos
(avenida/praça, centro/periferia, cidade/campo), duas representações
partidárias (coxinhas/petralhas), duas ideologias (direita conservadora/esquerda
progressista) etc. Essa separação por si só não foi a alma que conduziu o
processo. Embora o espírito fosse de Fla-Flu, a jogada principal contou com escusas
habilidades extracampo.
Os
responsáveis pela alma do negócio operaram sobre os distintos clamores das torcidas,
convertendo o “Ibope” das manifestações pela tabela eleitoral, que não deixou
de receber patrocínios financeiros e midiáticos. Mas isso ainda não é tudo. O
pulo do gato foi um procedimento secular: cercar tudo com uma atmosfera imprecisa,
vaga, fragilmente definível, o beco sem saída da ambiguidade. No espaço da
dúvida arquitetada, tudo pode ser e o “escrúpulo da exatidão” leva à loucura
ou, no mínimo, à depressão. Conforme disse acima, o triunfo advém da
ambiguidade, neste caso, mais precisamente de quem soube engendrá-la no
extracampo e administrá-la na arquibancada (Gol da Alemanha!).
E
como se gesta e se nutre uma ambiguidade? Temperando os ânimos com toques
caseiros de “injustiça lícita e legalidade injusta”, traduzidos em especiarias
de jogo de acusações injustas, apoiadas sobre argumentos justos e de argumentos
injustos, sustentados por acusações justas. Tudo isso para o triunfo dos Masterchefs e dos cartolas sobre a
incauta cozinheira Dilma Rousseff, que distribuiu passes errados no meio de
campo e esqueceu o fogo aceso.
Das
faces da moeda ambígua, a que restou à arquibancada não traz conforto a nenhum
cidadão sóbrio e consciente, já que foi o resultado de uma luta entre acusados
e acusados: ficha imunda julgando suja a do outro. A pergunta séria e madura a
ser feita é: qual o resultado do jogo?
Há três respostas possíveis, uma para cada tipo de torcedor (dos que não pagam
aos que pagam meia entrada): perdemos, empatamos ou vencemos. Sinceramente, a
que mais me incomoda é a última resposta, porque ela consagra o triunfo da ambiguidade,
a vitória do indefinível “cinza”, do secular modo brasileiro de vencer através
da conciliação dos inconciliáveis, do sujo ajuste do desajuste, da vitória
material por meio da derrota ética, do moderno alimentado pelo atrasado, das
porcelanas finas sobre terra faminta. O gosto de derrota na vitória: o combate
à corrupção orquestrado por corruptos.
O
exercício da arbitrariedade sob os impulsos do capricho, decidindo, conforme a
circunstância e o envolvido, o que é norma e o que é infração. O mal-estar da
ambiguidade: a ressaca causada por um cruzado
insólito e indigesto (Legal + Ilegítimo) dado pelos velhos pugilistas de rapina
naqueles entrincheirados entre a triste realidade de que ela perdera o leme e a
indignada consciência de que o remédio foi administrado pela doença. Resta um
povo sempre doente. Um povo sempre sem força. O triunfo da abstração sobre a materialidade
de um mundo dominado por injustiças perfeitamente lícitas. Imoralidades e
Legalidades de mãos dadas. Ainda não é Democracia...
E
com a palavra final, Mefistófeles, o diabo
(o que divide e rouba as forças):
“Cinza, caro amigo, é toda Teoria. E verde, a árvore dourada da
Vida”
(Fausto, Goethe)
Samuel
Veratti