"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A BOLSA OU A VIDA, SR. FAUSTO?


Quando reduzida ao ato sensual mais simples – na prostituição – a relação entre os sexos limita-se ao que tem de mais genérico, ao que todo exemplar da espécie é capaz de sentir e fazer; nela as personalidades mais opostas se encontram, enquanto as diferenças individuais desaparecem. Em Economia, o correspondente dessa espécie de relação é o dinheiro, o tipo genérico dos valores econômicos, pois também ele não se ocupa com determinações individuais, mas antes visa o que é comum a todos os valores. Por essa razão experimentamos na sua natureza algo da prostituição. A indiferença com que se presta a tudo, a ligeireza com que se desprende das pessoas, pois não se liga verdadeiramente a nenhuma, a eficácia que tem por ser puro meio, que exclui qualquer vínculo afetivo – tudo impõe essa sua analogia sinistra com a prostituição.

                                               (Georg Simmel)

 Fausto, o célebre personagem goethiano que fez um pacto com o diabo (Mefistófeles) para obter prazeres, deu sua alma em troca de poder. Perdeu a posse de sua alma, perdeu a si mesmo, perdeu a autonomia e a liberdade. Etimologicamente, “autonomia” significa “o direito de reger-se segundo leis próprias”, por extensão o “direito de um indivíduo tomar decisões livremente”. Embora a aproximação entre essa definição e o conceito de Liberdade não seja muito precisa, nada impede que tratemos aqui da autonomia como sinônimo de liberdade e, nos atendo à liberdade que a autonomia proporciona, aproximarmos seu efeito da noção do que seja a Felicidade. Ser feliz é ser livre.
Atualmente, o conceito de Felicidade anda atrelado ao consumo. Toda propaganda, de uma forma ou de outra, sugere que ser feliz é ter aquilo que ela oferece, e o que ela oferece são bens materiais ou recursos para atingi-los. Assim, feliz é quem tem posses ou o poder de tê-las, proporcionado pelo dinheiro. Não é insignificante que a ciência de Fausto fosse a alquimia, pois a magia desta é transformar pobres metais em ouro. E o que é o dinheiro senão um “pobre” papel-moeda transformado em ouro?  Esse ouro compra felicidade.
Assim como Fausto, o ser humano faz de tudo para ser feliz, não é verdade? Afinal, a felicidade é o bem supremo. Mas e a liberdade? Ao imaginarmo-nos livres também não gozamos previamente o sentimento pleno de felicidade? Para a maioria, a cota semanal de felicidade não se realiza às sextas-feiras quando tira o uniforme escolar ou deixa o posto de trabalho para retomá-lo apenas na segunda-feira? Não é o final de semana que se brinda nas redes sociais? Pois bem, pouquíssimos responderiam negativamente a essas perguntas. Sendo assim, poderíamos dizer que a verdadeira felicidade é ser livre e reunir liberdade e felicidade em um pensamento comum hoje em dia: “ser feliz é ser livre para consumir”. E o meio que realiza o desejo de consumo chama-se dinheiro. O dinheiro possibilita que eu atenda a meus propósitos pessoais.
O que colheríamos então da relação entre prostituição, dinheiro e felicidade? Como desenvolver o pensamento de Simmel com que este texto foi epigrafado? No sexto capítulo da sua “Filosofia do dinheiro”, Simmel aponta o valor positivo do poder de abstração e da objetividade característica do dinheiro e do intelecto. Objetividade necessária para governar uma infinidade de desejos pessoais. Ocorre que, na sequência, o sociólogo opõe uma “contra-instância decisiva”  

Ao lado dessa objetividade impessoal, própria à inteligência em função de seus conteúdos, existe uma relação extremamente próxima entre essa inteligência e a individualidade e todo o princípio do individualismo; o dinheiro, por seu lado, quanto mais transforma os modos de agir impulsivos e subjetivos em modos supra-pessoais e objetivamente normativos, é o viveiro do individualismo e do egoísmo econômicos. Aqui temos evidentemente diante de nós as ambiguidades e complexidades dos conceitos que convém analisar claramente para compreender o estilo de vida por eles caracterizados. 

A marca de negatividade do dinheiro se dá pelo fato de ele alimentar o individualismo e o egoísmo econômico, além de ser “sentido em toda parte como um fim”. Ele contamina as relações interpessoais, na maioria das vezes destituindo-as de qualquer afeto ou consideração humana recíproca, o que as transforma em simples relações de interesse. Esse fenômeno se torna mais acentuado num sistema competitivo.  Para Schwarz, “a presença do dinheiro politiza a vida interior” e "não há camaradagem possível quando êxito e consumo de um são a fome e o fracasso de outro". Faz-nos lembrar ainda Adorno, a quem uma educação para o capital e para o poder geraria pessoas frias.

       Segundo Simmel, “no interior dos negócios monetários, todas as pessoas têm o mesmo valor, não porque cada uma tem seu valor, mas porque nenhuma tem valor, somente o dinheiro”. Na relação de troca entre um produto e uma nota, a abstração do valor dá a medida desse valor. No caso da prostituição, a troca do corpo pelo dinheiro sem vínculo afetivo estabelece a mais crassa das equivalências. Seu efeito mais nocivo se dá ao prostituir inclinações pessoais e estabelecer uma equivalência geral entre bens desiguais, com a diferença que "a equivalência conquistada pelo dinheiro, é sofrida pelos homens". A violência operada pelo dinheiro está em “ensinar” o pacto entre a autonomia de agir e de sentir e algo que não está à altura disso.  Trata-se de um processo degradante, ainda que tenha se “naturalizado” por força da ordem social propagada.
O dinheiro mede as qualidades em escala de quantidade, tornando-as mercadorias, portanto cambiáveis. Consequentemente, as relações “humanas” passam a ser mercantis, já que o dinheiro se “infiltra em todos os domínios autônomos”. Para entendermos o extremo da aproximação entre dinheiro e prostituição além da questão da equivalência, devemos imaginar a condição daquele que não possui meios de produção (propriedade) e que, portanto, não tem garantia de sobrevivência. A necessidade lhe “ensinará” a equivalência entre qualquer esforço e qualquer dinheiro. Sob esta condição, trocará sua autonomia de pensamento e de sentimento – sua dignidade, portanto - por uma moeda, cujo valor será decidido por outra pessoa (que nessa relação de dependência, exerce o poder). Pela necessidade, resta-lhe acatar a equivalência.
Acontece que o valor que damos a nossa autonomia está exatamente na autonomia. Se autonomia determina liberdade, ser obrigado a vendê-la é perder a liberdade. Eis o paradoxo. A violência se dá pela necessidade e pela troca a que se é obrigado. Ora, isso contraria o conceito de felicidade associado à liberdade. O dinheiro pelo qual ela é trocada estabelece uma equivalência entre “valores” díspares: qual seria o “preço” da sua alma?
O fundamento dessa relação de troca é a expropriação de si mesmo. A violência se perfaz na perda total: sem meios de produção (propriedade material), sem garantias de sobrevivência (situação de dependência) e também sem o domínio de si mesmo (à mercê do domínio pleno do outro), não resta nada, a não ser uma força de trabalho sobre a qual também não se terá autonomia. Em muitos casos, o que resta de si é pago por uma quantia que não compra o que seu próprio trabalho produz, logo o dinheiro força a equivalência entre bens que não se equivalem. Pura alquimia mefistofélica. O que é seu (seu corpo, seu pensamento, seu sentimento) é desvalorizado para valorizar um produto que não será seu.  Essa violência é legalizada com nome de ordem social, selada no salário, pago em “alquímico” dinheiro.
Nessa naturalização do processo de equivalência, o assalariado é obrigado a escolher sua própria violação, sua instância de prostituição, seu processo de degradação. Quem reage à aberração desse processo de equivalência passa a ser visto como ameaça à “ordem natural” das coisas, pois “um coração menos fácil de triturar” impede a “marcha gloriosa da civilização”, como ressaltou Balzac. O que muitas vezes não se percebe conscientemente é que o dinheiro, ao mesmo tempo que possibilita a realização de alguns propósitos pessoais, esvazia esses propósitos ao destituí-los da sua autonomia, dada a sua “natureza mutiladora”.
Afinal, que liberdade é essa? Quando a busca do dinheiro para a realização de desígnios se torna objetivo único, obsessão, passa-se de escravo do outro a escravo de si mesmo, de escravo de uma empresa a empresa de si mesmo. Da competição com o outro nesse campo de luta pela sobrevivência, passo a competir com meus próprios limites. E não há limites nesse sistema concorrencial. Nessa dialética sinistra, o mesmo sistema que promete a felicidade trazida pelo deus-dinheiro, ao ser internalizado, não permite que o escravo seja feliz. Quem sabe miseravelmente nas folgas semanais... se Mefisto liberar.
                                                                                 Samuel Veratti

 Notas
1.     Fausto: (adj.) que é feliz, venturoso ou (s.m.) pompa, ostentação.
2.     “Mefisto liberar”: deixar livre (ironia).

Referências bibliográficas
BALZAC, Honoré de. O pai Goriot. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia. São Paulo: Editora 34, 2013.
SCHWARZ, Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
SIMMEL, Georg. Philosophie des Geldes. Frankfurt/M, Suhrkamp, 1989. (Fragmento citado através de material de aula do Prof. Leopoldo Waizbort)

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