"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

BLACK MIRROR: ESPELHO DA VIDA DEGRADADA



A inconsistência é a consistência nessa civilização, cuja consistência, por sua vez, está na inconsistência de seus membros.
                                                                                                                  (Roberto Schwarz)


Black mirror está virando “modinha”? Tomara! Mas a torcida apenas se justifica se for para assistir a essa série com espírito preparado para receber choques de realidade através da ficção. O efeito é incômodo e desconcertante. Se a encararmos como mais uma diversão, desprezaremos alguns episódios em relação a outros. Caso a enfrentemos com seriedade, o sentido do julgamento será alterado. A questão primária parece ser a de como nos colocamos diante de uma droga, no caso, a tecnologia. E a questão secundária, porém mais importante, é a do nível de alienação do espectador, que determinará o valor reflexivo ou a profundidade da queda.

O seu criador, Charlie Brooker, afirmou que a proposta da série é pensar a tecnologia como uma droga e especular sobre quais seriam seus efeitos colaterais. Já a socióloga brasileira, Silvia Viana, percebeu algo ainda mais interessante: não se trata apenas dos efeitos colaterais da tecnologia, mas sim do papel mediador desta entre as relações humanas desgastadas. Visto por esse viés, cada episódio exige seriedade e aprofunda ainda mais as discussões.

Todos os episódios merecem uma análise à parte, ainda que o ponto em comum entre eles seja o uso das tecnologias avançadas. Acredito que, além de cumprir muito bem o papel que a arte tem como espelho da sociedade, ou seja, refletir os problemas, deixando a nosso encargo a busca de soluções, a série captura um aspecto importante da matéria contemporânea: a nossa relação com o tempo. Grosso modo, poderíamos definir o presentismo como uma espécie de “achatamento” do tempo, em que a sensação é a de que não há passado nem futuro, tudo é presente, um “tempo homogêneo e vazio”. Esse é o efeito causado pela tecnologia apresentada em cada episódio. O fato de os recursos tecnológicos serem muito avançados e ainda não estarem à disposição no mercado causa a sensação do que virá (futuro). Ao mesmo tempo, o estado, a condição do ser humano mediado por essas tecnologias é indiscutivelmente atual, presente. Eis a grande qualidade desse “espelho negro”: desligado, ele nos reflete em sua tela. Findo cada episódio e desligado os black mirrors (celulares, tablets, televisores), a imagem refletida somos nós mesmos, ou melhor, um outro eu de mim mesmo. O enfrentamento de si ou não determinará o grau de maturidade ou de infantilidade humana. Com a síndrome de Peter Pan que grassa por aí, quem tem coragem intelectual de sair da menoridade e mergulhar nesse pântano? Qual pílula você escolherá?


"Se tomar a pílula azul a história acaba e você acordará na sua cama acreditando no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho. Lembre-se tudo o que ofereço é a verdade. Nada mais." (Morpheus, Matrix)


O primeiro episódio da terceira temporada, Nosedive, inspirou a produtora Netflix a criar um site (Rate me) que permite que as pessoas avaliem as outras e sejam avaliadas. Por trás dessa “brincadeira divertida” há muita seriedade. Esse não é o único episódio que explora a questão da avaliação, julgamento e eliminação social. O produto vendido pela Endemol – empresa holandesa responsável pelo formato dos reality shows - adequa uma gama de programas como Master Chef, O aprendiz, The Voice e Big Brother, entre outros que comportam a mesma disposição avaliadora de performances. Com o pensamento suspenso, aplaudem-se perversidades como se fossem inocentes diversões. A emoção manipulada encobre o crime.

O aspecto mais assustador – que passa despercebido aos espíritos alienados – é o fato de que se paga para assistir ao julgamento de pessoas por seus semelhantes, sendo que aquelas são expostas a uma série de humilhações físicas (comerem coisas nojentas, por exemplo), psicológicas e morais (serem inferiorizadas brutalmente pelas falhas). Em suma, o sofrimento alheio transformado em mercadoria que diverte...e permitido pelo estado, ou seja, para a violência que dá lucro não há lei institucional. Tudo em nome do deus dinheiro. Esse modelo não começou agora. Basta que se observe o mesmo espírito estúpido que rege as “brincadeiras” bizarras em Jackass e no seu modelo brasileiro de quinta categoria, o programa Pânico. Se bem observado, estamos rindo diante da dor (física ou psicológica) do outro. Como veem, não é brincadeira, mas acumula capital.

Um olhar ainda mais atento permite que enxerguemos o adestramento das almas. O formato de enclausuramento, provas, avaliações, julgamentos e eliminações é o mesmo do cenário concorrencial do mundo empresarial, que promete se estender a todas as esferas institucionais da sociedade e que já atingiu a dimensão subjetiva de cada indivíduo. Qualquer leitor que esteja inserido no mundo corporativo, sendo consciente e sincero, assumirá essa verdade.  Outros ainda, sem que estejam, já podem olhar para si mesmos e notarem o quanto desse modelo já foi interiorizado, virando autocobrança, ou seja, já somos “empresas” de nós mesmos, administrando cada gesto nosso a fim de atender às expectativas insaciáveis do mercado competitivo (nossa timeline em redes sociais tornou-se extensão de nosso currículo de formação acadêmica e experiência profissional).

A “necessidade” de pertencimento social, portanto, ultrapassa a ingênua inserção na modinha do cabelo, do “estilo” de roupa usada, do filme assistido, da música ouvida, da brincadeira do momento, para atingir cada detalhe “no vão da unha da alma”. E se você não souber como agir, contrate um coaching pessoal para ajudá-lo a melhorar o desempenho em todas as áreas da sua vida, afinal, está sendo avaliado pela performance no mercado concorrencial e seu "valor" depende disso. Trata-se da “expansão da racionalidade de mercado a toda a existência por meio da generalização da forma-empresa”. A nova razão do mundo, cujo espírito foi capturado pelo formato dos programas mencionados, que representam o modus operandi do mercado, exposto à nossa capacidade analítica.

Essa cobrança foi interiorizada e modificou as almas, que, assim formatadas, passam a aceitar tudo isso como se fosse natural, atendendo ao projeto anunciado por Margaret Thatcher, nos idos de 1990, de “mudar a alma e o coração” das pessoas. Assim, os adeptos ferrenhos do capitalismo e atuais idólatras do neoliberalismo (dentre eles, uma nova esquerda) conquistaram o mundo pelo qual tanto lutaram: a identificação do mercado com uma realidade natural. Uma vida pautada pela lógica do mercado, conforme formulação feita por Alain Minc acerca do pensamento de Jean-Baptiste Say e Frédéric Bastiat - autores de cabeceira de Ronald Reagan - “o capitalismo não pode ruir, ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado sim”.  Pronto. O credo naturalista do liberalismo econômico acumula suas “vitórias” e nós colhemos nossa ruína humana. Não há que se comover com o alto custo psíquico – humano, portanto - já que os lucros “vão bem, obrigado” e nos permitem comprar ansiolíticos e antidepressivos à vontade.  

O ingrediente “estimulador” dessa paranoia spenceriana generalizada chama-se desemprego. Todos fomos tornados Donas Plácidas e Quincas Borbas diante de alguns Brás Cubas com moedas nas mãos, donos de nossas vidas. A mesma insegurança a que estavam submetidos aqueles célebres personagens de ficção - representativos das relações socioeconômicas desde a colônia - é a nossa mais real situação de insegurança: há sempre o fantasma do desemprego a nos espreitar e uma fila de semelhantes para tranquilizar o empregador e continuar movendo as engrenagens, independentemente de crises econômicas recorrentes (basta observar o aumento do número de milionários, conforme estudo do Banco Credit Suisse divulgado pelo Estadão). Nesse mundo líquido, nada está garantido, nenhum extremado zelo de nossa parte é suficiente, e, sob a pressão da ameaça constante, nós nos tornamos nossos próprios e ininterruptos avaliadores, sôfregos rumo à inalcançável perfeição. “Engolimos” a câmera do Big Brother. Somos obrigados a sorrir 24 horas por dia, 365 dias do ano, em “fotos” que indiquem “espírito de grupo”, pois somos nossos próprios filmadores.

Essas poucas reflexões partem apenas do subproduto ocasionado por um dos episódios de Black Mirror. Um desdobramento de lucro para a Netflix, que está aquém do estrago psicossocial causado, desmascarando uma contradição que confirma a linha de interesse mercadológico da empresa que ela é. A mesma empresa que produz uma série tão profundamente crítica acerca da degradação humana se aproveita da ideia de um dos episódios para lucrar com a invenção de um site que estimula um sistema de avaliações comandado, muitas vezes, por digitais invejosas, hipócritas, interesseiras, vingativas, desonestas, criminosas, corruptas, sociopatas, psicopatas...enfim, dedos humanos falhos, almas doentes julgando as doenças alheias, e, acima de tudo, individualistas, portanto, dessolidarizadas. Julgando, sem nunca se preocupar em cuidar. Catastroficamente inconscientes.

Do julgamento social da protagonista do episódio White bear ao linchamento daquele jovem amarrado a um poste, em 2014, no Rio de Janeiro; da exposição aviltante do primeiro ministro em The National Anthem às escutas telefônicas sem embasamento jurídico no cenário de eliminação na política brasileira; e do sequestro da intimidade de um adolescente em Shut Up and Dance à administração da nossa imagem exposta em redes sociais, passamos por alguns exemplos de eliminação do estado de direito (estruturado pelas instâncias jurídicas de julgamento e absolvição/condenação efetivos) e chegamos ao nível tacanho dos pseudojuristas, pseudosociólogos e pseudofilósofos de plantão no Facebook e nos comentários judiciosos de leitores e espectadores falhos, sem pensarmos no quanto estamos expostos a isso também, já que nos julgamos cidadãos de bem, frequentadores de igrejas, colaboradores em movimentos filantrópicos etc etc. Em suma: a minha e a sua vida estão expostas e à mercê de julgamentos feitos por pessoas comuns, destituídas de qualquer conhecimento especializado, aparato jurídico e, bovinamente,  movidas pelas impressões ditadas por uma “moral” arbitrária e egoísta, cuja aparência social nada garante. Nesse cenário, cada indivíduo é responsabilizado pelo mínimo gesto, independente das suas condições de existência, começando pelos mais enfraquecidos. Regressamos à condição selvática de competição. Civilização ou barbárie? Queda livre. Próxima postagem...

                                                                                 Samuel Veratti

Sugestões bibliográficas

ARANTES, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
DARDOT & LAVAL. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
SCHWARZ, Roberto. “Dinheiro, memória, beleza” in A sereia e o desconfiado, 2ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
VIANA, Silvia. Rituais de sofrimento. São Paulo: Boitempo, 2013.

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