Nenhuma pessoa sensata discorda do fato de que o mundo muda. Nem precisamos fazer muito esforço para percebermos isto. Ocorre que, apesar do reconhecimento, algumas pessoas são resistentes aos efeitos causados pelas mudanças. São as chamadas conservadoras. Essa palavra assumiu um aspecto pejorativo, preservado em algumas situações: conservador é sinônimo de retrógrado, reacionário, “careta”, entre outras coisas. Mas, pela força do uso, esquecemo-nos que advém do verbo “conservar” e que este possui um sentido mais amplo, por vezes positivo: “resguardar de dano, decadência, deterioração, prejuízo, etc; preservar”. Esse último verbo apresenta sentidos positivos: “livrar de algum mal... defender, resguardar, proteger-se”.
Cada um de nós procura preservar, resguardar e defender aquilo que julga importante. No manifesto que justifica a criação desse blog, comprometi-me com a preservação do humano. Mas, como posso garantir essa empreitada? Resguardando e defendendo “a capacidade de pensar, sentir, refletir, sensibilizar-se, comover-se com a beleza e, sobretudo, sonhar”, como registrei no meu manifesto. O que me sustenta? A convicção pessoal de que a obra de arte tem o poder de desencadear essas capacidades, exclusivamente Humanas. Inúmeros fatores ameaçam a integridade do humano. Dentre eles, a obsessão capitalista pelo pragmático, útil e lucrativo. No momento, refletirei sobre um movimento que se configura no campo da teoria literária.
Há alguns anos vem se cultivando uma nova postura teórica nos meios literários. Denominada comparativismo, interdisciplinaridade ou culturalismo, atende pelo nome mais geral de “Estudos culturais”. Alguns fatores são apontados como engendradores dessa nova visão: o estruturalismo a partir dos anos 50, a filosofia representada por Derrida e Foucault, entre outros. Mas, segundo os adeptos desse novo gênero, a maior causadora dessa mudança de foco é a “situação cultural e política da sociedade contemporânea”, que estaria motivando o questionamento de suas próprias bases, apoiadas sobre um modelo racionalista de pensamento.
Esta nova linha de abordagem caracteriza-se por pensamentos desse teor:
“... não se trata mais de se considerar a literatura na sua condição de obra esteticamente concebida, ou de valorizar os seus critérios de literariedade, mas de interpretá-la como produto capaz de suscitar questões de ordem teórica ou de problematizar temas de interesse atual, sem se restringir a um público especifico.” (SOUZA, 2002, p.68)
Nossas considerações podem partir apenas e tão somente do pensamento externado nessas linhas acima. Quando a autora diz “não se trata mais”, quer dizer que é coisa do passado considerar a literatura como um objeto artístico, estético, sendo, portanto, desprezível qualquer consideração acerca da sua literariedade, que seria a confirmação da sua esteticidade. Em seguida, afirma que só devemos valorizar a capacidade que um livro tem de despertar questões teóricas e de interesse atual. Isto qualquer jornal é capaz de fazer, através das informações que traz. Por fim, “sem se restringir a um público especifico”: ou seja, pressupõe que a análise da literariedade de uma obra está limitada a algumas pessoas apenas. O que ela quis dizer com isso? Que são poucas as pessoas que se interessam por assuntos “distantes” da realidade prática do cotidiano? Que essas “inutilidades” só interessam a alguns? Ou, ainda, que só um grupo reduzido de pessoas na sociedade atual tem capacidade para compreender o que só os “iniciados” compreendem? Bom, ao que nos parece, o fenômeno que assusta, nas “sugestões” desse fragmento, se perfaz pela ausência de algumas conjunções, pois seria menos preocupante se estivesse assim:
“... não se trata somente de considerar a literatura na sua condição de obra esteticamente concebida, ou de valorizar os seus critérios de literariedade, mas também de interpretá-la como produto capaz de suscitar questões de ordem teórica ou de problematizar temas de interesse atual, sem se restringir a um público especifico.”
Estas pequenas mudanças não são suficientes para dar a exata medida de como se deve encarar uma obra literária. A teoria literária considera a obra de arte em sua especificidade de objeto estético (ressaltando a etimologia desse adjetivo) e a partir do trabalho teórico de descortinar o processo estrutural que configura a obra – não como fruto da razão, mas de “sentidos possíveis dentro das grandezas tempo e espaço” -, conferido-lhe sobretudo valor estético sem, no entanto, desconsiderar as questões e temas que ela suscita, afinal de contas o escritor dispõe da realidade social, externa, objetiva, configurando-a conforme seus estados de ânimo, sendo, portanto, uma medida valorativa dos fenômenos externos, que deve interessar. O ponto de vista sociológico não deve ser abandonado, e sim ampliado e modificado.
Edgar Allan Poe, que, antes de ser crítico e teórico, era um escritor, foi taxativo no que concerne à abordagem precípua de um romance:
“... gostaríamos de limitar a crítica literária a comentários feitos a uma arte. Um livro é escrito – e somente como um livro pode ser comentado e discutido. Só assim ele será objeto de uma resenha crítica. Com relação ao aspecto periférico da obra em si mesma, a crítica nada tem a ver.” (POE, In: Nostrand, 1968a, p.44)
Ao dizer que a crítica nada tem a ver com os aspectos periféricos da obra, ele está se referindo à critica literária, ou seja, o crítico formado no campo da literatura, enquanto gênero artístico, estaria “traindo” seu objeto de análise se o desconsiderasse, acima de tudo, como uma obra estética. Mesmo as outras disciplinas - como a Sociologia, a Filosofia e a Psicanálise -, ao refletirem sobre uma obra literária, não podem se esquecer que, antes de qualquer coisa, ela é um objeto estético, caso contrário, ficará a noção errônea de que a obra tem uma finalidade, uma utilidade. Se assim o fosse, o ficcionista abandonaria sua produção artística e escreveria ensaios ou tratados filosóficos e sociológicos.
Segundo Kant, existem as idéias racionais e as idéias estéticas. As primeiras são elaboradas pela razão e envolvem conceitos que não correspondem às intuições. As outras – estéticas - abrangem intuições cujo significado os conceitos não podem exaurir. O verdadeiro artista trabalha com idéias estéticas, e sua criação é um jogo feito com a realidade. O que leva o indivíduo ao jogo estético é um impulso lúdico, que independe de interesses práticos. Trata-se exatamente do domínio do supérfluo, do não-útil. E a maneira com que esses novos teóricos estão abordando a obra literária pressupõe que ela tenha uma utilidade, o que escapa totalmente à sua essência. A experiência estética deveria valer por si. Acontece que, no mundo contemporâneo fragmentado, a simples atitude contemplativa já não faz mais sentido. Isto, porém, não significa que devamos abandonar a esteticidade da obra e nos limitarmos aos seus efeitos práticos: suscitação de questões e temas atuais. Apesar das radicais mudanças ocasionadas pela modernidade, o impulso artístico continua e continuará existindo por não ser uma escolha e sim uma necessidade humana indelével.
A obra não é um mero espelho onde estão refletidos o mundo exterior e a vida interior do artista. Ela simplesmente expressa o modo pelo qual a consciência, operando sobre a realidade, configura-a de acordo com os sentimentos e as intenções valorativas do autor. A obra literária é uma forma mais ampla de conhecimento. Obviamente ela pode trazer conhecimentos científicos, históricos e filosóficos, mas o que a diferencia é o poder subjacente de formação do individuo. O mundo fictício é estruturado de forma ordenada e coerente e essa estrutura ordenada age sobre o inconsciente do leitor organizando seu psiquismo, o que faz com que ele lide melhor com a realidade externa. Interessa, à crítica literária, investigar quais são os fatores que atuam na organização interna da obra, gerando uma estrutura peculiar.
Os resultados obtidos atestam que mais do que meras informações ou idéias lançadas, os fatores sociais são agentes da estrutura “orgânica” da obra e podem ser dispostos entre os fatores estéticos. A obra de arte é “individualmente criada e socialmente condicionada”, logo, une, em si mesma, a experiência individual e social na “unidade de forma e conteúdo que a singulariza”. Essa união é dialética. O papel do crítico literário consciente é reconstituir a dialética da qual surgiu a obra, levando-nos assim de volta à experiência qualitativa nela concretizada .
É evidente e inevitável que o escritor reflita a sociedade em sua obra, afinal de contas existe um vinculo entre a obra e o ambiente. O material de onde parte a atividade lúdica do artista é a realidade externa: não só a obra estará condicionada conscientemente pelo social, como também o seu autor o está inconscientemente, já que nele encontram-se marcas desse social. Sendo assim, a integridade da obra não permite que se dissocie o texto do contexto, ou seja, a interpretação que incidirá sobre ela deve considerar a relação dialética entre esses fatores.
Quando consideramos apenas os fatores externos, sociais, estamos nos limitando ao campo da sociologia da literatura que não se dispõe a perscrutar o valor estético da obra, mas tão-somente o condicionamento social a que ela está sujeita. Trata-se de um posicionamento de cunho científico, descompromissado com a orientação estética necessária à critica artística.
A verdadeira crítica literária nunca desconsidera os elementos histórico-sociais de uma obra, com a essencial diferença que considera o significado desses elementos para a estrutura da obra. A peculiaridade dessa estrutura depende não só dos movimentos racionais materializados na técnica, mas também e, sobretudo, da sensibilidade do autor. Este dispõe da técnica para atingir o efeito que lhe interessa: representar a realidade como ele a viu e sentiu. O pensamento do verdadeiro artista dá forma à matéria intuída pelos seus sentidos, e a beleza da sua obra resulta da convergência do sentimento com a forma.
O terreno da obra literária enquanto obra de arte é o terreno da estética. Desconsiderar esse aspecto é desconsiderar a essência da obra literária. Seria o assassinato da Arte e, conseqüentemente, da verdadeira dimensão humana do homem, a única dimensão em que ele é livre. Essa liberdade se dá pela livre manipulação da realidade, perpassada por sentimentos peculiares, que tornam cada ser humano um ser único e especial. Este sentimento interior exterioriza-se através da peculiar configuração que a obra oferece a partir da sua representação da realidade. Através da atividade artística, o homem, entregue a sua liberdade, “empresta às coisas um sentido que antes não tinham, submetendo a realidade a intenções e a valores que ela, por si, não contém” . Trata-se de outra leitura da realidade que abre ao leitor novas dimensões do mesmo objeto.
Os “novos” críticos podem rebater dizendo que nada disso impede o seu método de abordagem, já que as questões levantadas pela obra nada mais são do que justamente essa leitura particular que abre novas perspectivas. Ocorre que essa simples função pode ser realizada por qualquer tipo de texto e não necessariamente por meio de uma obra ficcional. A raiz do problema está no fato de que o efeito causado pela ficção é distinto do efeito causado por um ensaio filosófico. Enquanto este atinge a razão, aquele atinge a razão e a sensibilidade, ou seja, é mais abrangente e formador. Eles podem insistir, ainda, em que as idéias estão sendo apresentadas ficcionalmente, portanto são sensíveis e cognoscíveis ao mesmo tempo. No entanto, a sensibilidade só é profundamente atingida se o leitor puder “vivenciar” a situação representada. Esta “vivência” não é proporcionada pelo discurso filosófico e nem pela má ficção. O mau ficcionista, ou se preferirmos, o não-artista, desprovido da aisthesia, não atinge a perfeição estrutural que ocasiona o verossímil. O leitor só é verdadeiramente atingido pela obra, ou seja, só “vivencia” as situações representadas na obra se elas forem verossímeis. A verossimilhança só é possível a partir das qualidades estéticas do autor, da sua “familiaridade” com o universo da Arte. Qualquer teoria que fuja dessa dimensão da obra, não é suficiente para abordá-la, porque estará desconsiderando a arte em sua essência: representação da realidade.
Na obra de arte, “tudo é tecido num conjunto, cada coisa vive e atua sobre a outra ”, formando um todo indissolúvel. Até que se prove o contrário, Aristóteles foi quem desvendou a verdade da obra de arte ao considerá-la como um organismo vivo. Essa imagem condensa e abrange toda a compleição de uma obra, dando-nos a noção da importância e a interdependência de cada parte na composição do todo e no retorno da energia unificada desse todo a cada parte.
Se essa mentalidade crítica vigorar entre os meios acadêmicos, mais uma vez o nível das produções será levado para baixo. Se o que mais importa numa obra literária são as questões e temas que ela suscita, a qualidade estética ficará em segundo plano, os elementos que se encontram numa grande obra e que incidem nas camadas psicológicas do leitor, organizando sua apreensão do mundo e da realidade, humanizando-o, serão desprezadas e influenciará na produção das obras. Isto sim mantém o nível intelectual sempre baixo. Se a crítica começar a aplaudir esses tipos de obras, os aplausos incentivarão e determinarão o nível da produção literária, assim como incentiva o nível da produção musical. Não se trata de mudar o ângulo de abordagem da obra literária. Trata-se simplesmente de levar as grandes obras aos excluídos. Todos temos a mesma integridade física e intelectual; todos somos capazes de lidar com Homero e Machado de Assis. E que se findem essas conversas fiadas.
Mais uma vez parece existir um processo sub-reptício agindo em detrimento da qualidade e em prol da quantidade. Gradativamente, a atenção vai sendo voltada para o mais cômodo, para o que aniquila a reflexão: as qualidades estéticas (estesia) vão perdendo lugar para as questões práticas; depois, as questões práticas vão ficando cada vez mais práticas, a ponto de qualquer tipo de esforço reflexivo ser abolido, resultando em produtos totalmente “mastigados” por determinadas cabeças e lançadas às goelas inermes de seres totalmente alienados.
Nelson Samuel Porto Veratti
Referências bibliográficas
CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”, in Vários escritos, São Paulo: Duas cidades, 1995.
NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 1999.
OLIVEIRA, Paulo Custódio de. “A tessitura do plástico”, Revista do COLL, ano II, nº 2, Deptº de Letras das Faculdades Integradas de Jales (FAI), 2002.
SOUZA, Eneida Maria de. “A teoria em crise”. In: Crítica Cult. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
Cada um de nós procura preservar, resguardar e defender aquilo que julga importante. No manifesto que justifica a criação desse blog, comprometi-me com a preservação do humano. Mas, como posso garantir essa empreitada? Resguardando e defendendo “a capacidade de pensar, sentir, refletir, sensibilizar-se, comover-se com a beleza e, sobretudo, sonhar”, como registrei no meu manifesto. O que me sustenta? A convicção pessoal de que a obra de arte tem o poder de desencadear essas capacidades, exclusivamente Humanas. Inúmeros fatores ameaçam a integridade do humano. Dentre eles, a obsessão capitalista pelo pragmático, útil e lucrativo. No momento, refletirei sobre um movimento que se configura no campo da teoria literária.
Há alguns anos vem se cultivando uma nova postura teórica nos meios literários. Denominada comparativismo, interdisciplinaridade ou culturalismo, atende pelo nome mais geral de “Estudos culturais”. Alguns fatores são apontados como engendradores dessa nova visão: o estruturalismo a partir dos anos 50, a filosofia representada por Derrida e Foucault, entre outros. Mas, segundo os adeptos desse novo gênero, a maior causadora dessa mudança de foco é a “situação cultural e política da sociedade contemporânea”, que estaria motivando o questionamento de suas próprias bases, apoiadas sobre um modelo racionalista de pensamento.
Esta nova linha de abordagem caracteriza-se por pensamentos desse teor:
“... não se trata mais de se considerar a literatura na sua condição de obra esteticamente concebida, ou de valorizar os seus critérios de literariedade, mas de interpretá-la como produto capaz de suscitar questões de ordem teórica ou de problematizar temas de interesse atual, sem se restringir a um público especifico.” (SOUZA, 2002, p.68)
Nossas considerações podem partir apenas e tão somente do pensamento externado nessas linhas acima. Quando a autora diz “não se trata mais”, quer dizer que é coisa do passado considerar a literatura como um objeto artístico, estético, sendo, portanto, desprezível qualquer consideração acerca da sua literariedade, que seria a confirmação da sua esteticidade. Em seguida, afirma que só devemos valorizar a capacidade que um livro tem de despertar questões teóricas e de interesse atual. Isto qualquer jornal é capaz de fazer, através das informações que traz. Por fim, “sem se restringir a um público especifico”: ou seja, pressupõe que a análise da literariedade de uma obra está limitada a algumas pessoas apenas. O que ela quis dizer com isso? Que são poucas as pessoas que se interessam por assuntos “distantes” da realidade prática do cotidiano? Que essas “inutilidades” só interessam a alguns? Ou, ainda, que só um grupo reduzido de pessoas na sociedade atual tem capacidade para compreender o que só os “iniciados” compreendem? Bom, ao que nos parece, o fenômeno que assusta, nas “sugestões” desse fragmento, se perfaz pela ausência de algumas conjunções, pois seria menos preocupante se estivesse assim:
“... não se trata somente de considerar a literatura na sua condição de obra esteticamente concebida, ou de valorizar os seus critérios de literariedade, mas também de interpretá-la como produto capaz de suscitar questões de ordem teórica ou de problematizar temas de interesse atual, sem se restringir a um público especifico.”
Estas pequenas mudanças não são suficientes para dar a exata medida de como se deve encarar uma obra literária. A teoria literária considera a obra de arte em sua especificidade de objeto estético (ressaltando a etimologia desse adjetivo) e a partir do trabalho teórico de descortinar o processo estrutural que configura a obra – não como fruto da razão, mas de “sentidos possíveis dentro das grandezas tempo e espaço” -, conferido-lhe sobretudo valor estético sem, no entanto, desconsiderar as questões e temas que ela suscita, afinal de contas o escritor dispõe da realidade social, externa, objetiva, configurando-a conforme seus estados de ânimo, sendo, portanto, uma medida valorativa dos fenômenos externos, que deve interessar. O ponto de vista sociológico não deve ser abandonado, e sim ampliado e modificado.
Edgar Allan Poe, que, antes de ser crítico e teórico, era um escritor, foi taxativo no que concerne à abordagem precípua de um romance:
“... gostaríamos de limitar a crítica literária a comentários feitos a uma arte. Um livro é escrito – e somente como um livro pode ser comentado e discutido. Só assim ele será objeto de uma resenha crítica. Com relação ao aspecto periférico da obra em si mesma, a crítica nada tem a ver.” (POE, In: Nostrand, 1968a, p.44)
Ao dizer que a crítica nada tem a ver com os aspectos periféricos da obra, ele está se referindo à critica literária, ou seja, o crítico formado no campo da literatura, enquanto gênero artístico, estaria “traindo” seu objeto de análise se o desconsiderasse, acima de tudo, como uma obra estética. Mesmo as outras disciplinas - como a Sociologia, a Filosofia e a Psicanálise -, ao refletirem sobre uma obra literária, não podem se esquecer que, antes de qualquer coisa, ela é um objeto estético, caso contrário, ficará a noção errônea de que a obra tem uma finalidade, uma utilidade. Se assim o fosse, o ficcionista abandonaria sua produção artística e escreveria ensaios ou tratados filosóficos e sociológicos.
Segundo Kant, existem as idéias racionais e as idéias estéticas. As primeiras são elaboradas pela razão e envolvem conceitos que não correspondem às intuições. As outras – estéticas - abrangem intuições cujo significado os conceitos não podem exaurir. O verdadeiro artista trabalha com idéias estéticas, e sua criação é um jogo feito com a realidade. O que leva o indivíduo ao jogo estético é um impulso lúdico, que independe de interesses práticos. Trata-se exatamente do domínio do supérfluo, do não-útil. E a maneira com que esses novos teóricos estão abordando a obra literária pressupõe que ela tenha uma utilidade, o que escapa totalmente à sua essência. A experiência estética deveria valer por si. Acontece que, no mundo contemporâneo fragmentado, a simples atitude contemplativa já não faz mais sentido. Isto, porém, não significa que devamos abandonar a esteticidade da obra e nos limitarmos aos seus efeitos práticos: suscitação de questões e temas atuais. Apesar das radicais mudanças ocasionadas pela modernidade, o impulso artístico continua e continuará existindo por não ser uma escolha e sim uma necessidade humana indelével.
A obra não é um mero espelho onde estão refletidos o mundo exterior e a vida interior do artista. Ela simplesmente expressa o modo pelo qual a consciência, operando sobre a realidade, configura-a de acordo com os sentimentos e as intenções valorativas do autor. A obra literária é uma forma mais ampla de conhecimento. Obviamente ela pode trazer conhecimentos científicos, históricos e filosóficos, mas o que a diferencia é o poder subjacente de formação do individuo. O mundo fictício é estruturado de forma ordenada e coerente e essa estrutura ordenada age sobre o inconsciente do leitor organizando seu psiquismo, o que faz com que ele lide melhor com a realidade externa. Interessa, à crítica literária, investigar quais são os fatores que atuam na organização interna da obra, gerando uma estrutura peculiar.
Os resultados obtidos atestam que mais do que meras informações ou idéias lançadas, os fatores sociais são agentes da estrutura “orgânica” da obra e podem ser dispostos entre os fatores estéticos. A obra de arte é “individualmente criada e socialmente condicionada”, logo, une, em si mesma, a experiência individual e social na “unidade de forma e conteúdo que a singulariza”. Essa união é dialética. O papel do crítico literário consciente é reconstituir a dialética da qual surgiu a obra, levando-nos assim de volta à experiência qualitativa nela concretizada .
É evidente e inevitável que o escritor reflita a sociedade em sua obra, afinal de contas existe um vinculo entre a obra e o ambiente. O material de onde parte a atividade lúdica do artista é a realidade externa: não só a obra estará condicionada conscientemente pelo social, como também o seu autor o está inconscientemente, já que nele encontram-se marcas desse social. Sendo assim, a integridade da obra não permite que se dissocie o texto do contexto, ou seja, a interpretação que incidirá sobre ela deve considerar a relação dialética entre esses fatores.
Quando consideramos apenas os fatores externos, sociais, estamos nos limitando ao campo da sociologia da literatura que não se dispõe a perscrutar o valor estético da obra, mas tão-somente o condicionamento social a que ela está sujeita. Trata-se de um posicionamento de cunho científico, descompromissado com a orientação estética necessária à critica artística.
A verdadeira crítica literária nunca desconsidera os elementos histórico-sociais de uma obra, com a essencial diferença que considera o significado desses elementos para a estrutura da obra. A peculiaridade dessa estrutura depende não só dos movimentos racionais materializados na técnica, mas também e, sobretudo, da sensibilidade do autor. Este dispõe da técnica para atingir o efeito que lhe interessa: representar a realidade como ele a viu e sentiu. O pensamento do verdadeiro artista dá forma à matéria intuída pelos seus sentidos, e a beleza da sua obra resulta da convergência do sentimento com a forma.
O terreno da obra literária enquanto obra de arte é o terreno da estética. Desconsiderar esse aspecto é desconsiderar a essência da obra literária. Seria o assassinato da Arte e, conseqüentemente, da verdadeira dimensão humana do homem, a única dimensão em que ele é livre. Essa liberdade se dá pela livre manipulação da realidade, perpassada por sentimentos peculiares, que tornam cada ser humano um ser único e especial. Este sentimento interior exterioriza-se através da peculiar configuração que a obra oferece a partir da sua representação da realidade. Através da atividade artística, o homem, entregue a sua liberdade, “empresta às coisas um sentido que antes não tinham, submetendo a realidade a intenções e a valores que ela, por si, não contém” . Trata-se de outra leitura da realidade que abre ao leitor novas dimensões do mesmo objeto.
Os “novos” críticos podem rebater dizendo que nada disso impede o seu método de abordagem, já que as questões levantadas pela obra nada mais são do que justamente essa leitura particular que abre novas perspectivas. Ocorre que essa simples função pode ser realizada por qualquer tipo de texto e não necessariamente por meio de uma obra ficcional. A raiz do problema está no fato de que o efeito causado pela ficção é distinto do efeito causado por um ensaio filosófico. Enquanto este atinge a razão, aquele atinge a razão e a sensibilidade, ou seja, é mais abrangente e formador. Eles podem insistir, ainda, em que as idéias estão sendo apresentadas ficcionalmente, portanto são sensíveis e cognoscíveis ao mesmo tempo. No entanto, a sensibilidade só é profundamente atingida se o leitor puder “vivenciar” a situação representada. Esta “vivência” não é proporcionada pelo discurso filosófico e nem pela má ficção. O mau ficcionista, ou se preferirmos, o não-artista, desprovido da aisthesia, não atinge a perfeição estrutural que ocasiona o verossímil. O leitor só é verdadeiramente atingido pela obra, ou seja, só “vivencia” as situações representadas na obra se elas forem verossímeis. A verossimilhança só é possível a partir das qualidades estéticas do autor, da sua “familiaridade” com o universo da Arte. Qualquer teoria que fuja dessa dimensão da obra, não é suficiente para abordá-la, porque estará desconsiderando a arte em sua essência: representação da realidade.
Na obra de arte, “tudo é tecido num conjunto, cada coisa vive e atua sobre a outra ”, formando um todo indissolúvel. Até que se prove o contrário, Aristóteles foi quem desvendou a verdade da obra de arte ao considerá-la como um organismo vivo. Essa imagem condensa e abrange toda a compleição de uma obra, dando-nos a noção da importância e a interdependência de cada parte na composição do todo e no retorno da energia unificada desse todo a cada parte.
Se essa mentalidade crítica vigorar entre os meios acadêmicos, mais uma vez o nível das produções será levado para baixo. Se o que mais importa numa obra literária são as questões e temas que ela suscita, a qualidade estética ficará em segundo plano, os elementos que se encontram numa grande obra e que incidem nas camadas psicológicas do leitor, organizando sua apreensão do mundo e da realidade, humanizando-o, serão desprezadas e influenciará na produção das obras. Isto sim mantém o nível intelectual sempre baixo. Se a crítica começar a aplaudir esses tipos de obras, os aplausos incentivarão e determinarão o nível da produção literária, assim como incentiva o nível da produção musical. Não se trata de mudar o ângulo de abordagem da obra literária. Trata-se simplesmente de levar as grandes obras aos excluídos. Todos temos a mesma integridade física e intelectual; todos somos capazes de lidar com Homero e Machado de Assis. E que se findem essas conversas fiadas.
Mais uma vez parece existir um processo sub-reptício agindo em detrimento da qualidade e em prol da quantidade. Gradativamente, a atenção vai sendo voltada para o mais cômodo, para o que aniquila a reflexão: as qualidades estéticas (estesia) vão perdendo lugar para as questões práticas; depois, as questões práticas vão ficando cada vez mais práticas, a ponto de qualquer tipo de esforço reflexivo ser abolido, resultando em produtos totalmente “mastigados” por determinadas cabeças e lançadas às goelas inermes de seres totalmente alienados.
Nelson Samuel Porto Veratti
Referências bibliográficas
CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”, in Vários escritos, São Paulo: Duas cidades, 1995.
NUNES, Benedito. Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Ática, 1999.
OLIVEIRA, Paulo Custódio de. “A tessitura do plástico”, Revista do COLL, ano II, nº 2, Deptº de Letras das Faculdades Integradas de Jales (FAI), 2002.
SOUZA, Eneida Maria de. “A teoria em crise”. In: Crítica Cult. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
Bacana .. bom texto
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