Os comentadores de Franz Kafka (1883-1924) costumam encetar suas considerações apresentando quase sempre a mesma preocupação: as dificuldades impostas pelo seu texto. Discorrem sobre algumas delas e, logo depois, partem para uma tentativa de interpretação. Vislumbrando inúmeras possibilidades, fazem suas escolhas, debruçam-se sobre elas e, no fim das contas, são perturbados por Kafka e suas histórias que oferecem um horizonte infinito de seduções. Este misto de incômodo e admiração é unânime e, talvez, nesse aspecto resida um dos pontos de maior interesse sobre sua obra.
Seus textos já receberam abordagens teológicas, filosóficas, psicanalíticas, sociológicas e literárias. Muitas são consideradas pertinentes e magistrais, mas nenhuma deu conta de sua profundidade e plenitude, restando espaços vazios que reclamam preenchimento. A obra, repleta de paradoxos deslizantes, nos convida à entrada e até mesmo nos oferece inúmeras portas - ilusórias como as de seus próprios cenários – mas, ao entrarmos, nos perdemos num enorme labirinto e, depois de tanto circular, nos conscientizamos de que nem sequer alcançamos o ponto de onde emerge a vertiginosa elipse. Apesar de incompletos, os poucos passos que são dados nesse universo oferecem ao leitor atento uma multiplicidade de novos elementos sedutores.
O importante na leitura de Kafka é que a porta escolhida introduza realmente no universo da sua história. Uma vez lá dentro, será de bom senso deter-se apenas nos aspectos daquele universo. Deleuze e Guattari iniciam sua tentativa analítica exatamente com esta pergunta: “Como entrar na obra de Kafka?”. Após algumas considerações, ainda no início do texto, afirmam acreditarem somente numa “experimentação de Kafka, sem interpretação nem significância, mas somente protocolos de experiência”.
Adorno, autor de uma das leituras exemplares, renega a tentativa de enquadrar Kafka numa corrente de pensamento e sugere que insistamos nos “aspectos que dificultam o enquadramento” , atribuindo justamente a esta dificuldade a perturbação de uma obra em que “cada frase diz: ‘interprete-me’; e nenhuma frase tolera interpretação”. Para ele, a tentativa de interpretação “é uma questão de vida ou morte”. Albert Camus, por outro lado, propõe que se façam releituras diante dessa obra que contém “desenlaces e faltas de desenlace” ; Costa Lima, falando sobre as situações indecidíveis, nos diz que “cada interpretação suscita uma contra-interpretação, sem que possa haver acordo sobre a legitimidade de cada uma” ; Anders, apoiando-se talvez nas próprias palavras do Diário IV de Kafka - onde o escritor diz que tem o direito de ao menos representar o que havia de negativo em seu tempo - insere-o “num horizonte largamente estirado de problemas gerais” , efetuando assim uma leitura diversificada e belíssima da obra kafkiana. Enfim, para finalizarmos esta pequena lista de pensadores que se debruçaram sobre uma obra ímpar, seguiremos orientados pelas próprias palavras kafkianas, citadas por Rosenfeld: “Talvez haja só um pecado capital: a impaciência”.
No presente trabalho, tentaremos levantar alguns aspectos da obra kafkiana que revelam o olhar atento daquele que parecia “fora do mundo”, numa encruzilhada existencial: queria ajustar-se para ser aceito pelos poderes deste mundo e também continuar sendo fiel aos seus princípios. Neste ponto residia seu maior problema: como este olhar estrangeiro tão sensível às injustiças poderia anular-se? Trata-se de uma angustiada hesitação entre o “entregar-se” e o “afirmar-se” que, irresoluta, perdura na frustração. Nossa cautela nos limita à observação deste percurso malogrado do personagem kafkiano que vai revelando – entre outras coisas - os absurdos da racionalidade instrumental, por meio de um olhar que se emancipou dos hábitos burgueses.
Para tanto, traremos algumas considerações sobre o conceito de olhar, recolhidas do ensaio Fenomenologia do Olhar, de Alfredo Bosi. Também buscaremos alguns aspectos filosóficos em Adorno e Benjamin, tecendo, a partir deles, comentários sobre certas características do universo kafkiano sem, contudo, atrevermo-nos a enquadrá-lo numa determinada corrente filosófica. Trata-se, portanto, de simples observações provocadas por elementos que se nos mostraram significativos, sendo que alguns deles são iluminados pela extrema condição de estrangeiro em Kafka. Assim, as imagens que ele registra revelam ao leitor os recônditos da alma e da vida humana deformada, sem descrevê-las minuciosamente, apenas desvelando-as nos atos e gestos de seus personagens, através de um deslocamento que vasculha o diferente, revela o negativo e desperta a consciência.
1. Um estranho no mundo
Nascido em Praga, filho de família judia-assimilada e tendo que aceitar a língua alemã como oficial, o jovem Kafka não sentia o chão firme sob os seus pés. Vivia sob um constante e incômodo sentimento de não-pertencer ao mundo: não era um judeu ortodoxo; não se identificava com o tcheco por ter que falar alemão e nem com o alemão por ser tcheco; sua família era burguesa, mas ele trabalhava em uma fábrica, assim, não se adaptava ao operariado e nem à burguesia; por ser um escritor, não se adequava à burocracia de um escritório e na posição de arrimo, desfaziam-se as características do escritor. Em uma carta ao seu sogro, escreveu: “vivo em minha família mais deslocado do que um estranho”. Dentre os efeitos desse estranhamento do mundo, ressaltamos a sua condição de estrangeiro em todos os lugares, sendo que uma das mais importantes implicações desta condição em sua obra é o olhar diferenciado: o olhar que se debruça sobre o diferente, sobre o que passa, a muitos, despercebido.
Este singular estranhamento é característica do personagem central kafkiano que está sempre chegando aos lugares onde as regras já estão estabelecidas: Karl, em O Foguista; o explorador, em Na Colônia penal; o agrimensor K., n’O Castelo, Gregor Sansa que, em Metamorfose, desperta (chega) do mundo dos sonhos e, até mesmo, Joseph K., que em O Processo é acordado por um estranho e passa a viver um pesadelo num mundo totalmente diferente do que vivia. Além do conteúdo manifesto deste constante chegar, temos a forma de expressão das histórias que, geralmente, se iniciam in media res (em meio às coisas predeterminadas).
Os hábitos e costumes desses lugares lhe são estranhos, havendo, assim, uma espécie de discordância entre o sujeito e o mundo, pois eles não se acham na mesma sintonia. Esta inadaptação se confirma nas constantes questões levantadas por seus personagens principais: eles nunca trazem respostas a perguntas não formuladas, mas, ao contrário, sempre levantam questões que nunca são respondidas. Sobre isto, Rosenfeld nos lembra das “possibilidades que se anulam, da dúvida que duvida da própria dúvida, ad infinitum”. Estas giram em torno da lei, da justiça, da autoridade e da verdade. Não que seus personagens vivam em busca da verdade, mas eles se deparam com situações de estranhamento que requerem uma resolução justa e verdadeira, além de parecerem seduzidos pela lei, como o agrimensor K. e Joseph K.
O extraordinário em suas obras é que a construção ficcional insere o leitor na pele do estrangeiro, a ponto de suas surpresas serem as surpresas de quem as lê. Os elementos básicos da vida de Kafka, mais as “partículas reais” do mundo racionalizado são manipulados a ponto de resultarem em imagens transformadas e deformadas. Estes deslocamentos e acentuações negativas do real causam uma “impressão ao mesmo tempo de estranhamento e de dèjá vu, de extrema realidade e extrema irrealidade” . Com isso, Kafka atira na face do leitor as imprecisões do mundo e as ruínas da justiça.
Deleuze e Guattari refletiram sobre a mestria da construção kafkiana e concluíram que não há simplesmente uma correlação entre as formas de conteúdo e as formas de expressão, mas há, sim, o que eles chamaram uma máquina de expressão que desorganiza as próprias formas e libertam conteúdos puros que se confundem com a expressão . Assim, Kafka prende o leitor com sua arte: o artifício literário d’A Metamorfose, por exemplo, suscita no leitor o incômodo e o asco como se ele estivesse realmente vivenciando (ou presenciando) aquela condição de inseto.Da mesma forma, o mundo d’O Processo é projetado a partir de Joseph K. e sua angústia é vivenciada pelo leitor que compartilha tanto de sua visão, quanto de sua ignorância.O singular é que o sucesso de tal efeito literário resulta, sobretudo, da habilidade da sua máquina de expressão, posto que tal resultado não seria o mesmo se dependesse somente do conteúdo coadunado à expressão.
Dessa forma, o estranhamento do autor - que é natural à própria condição de estrangeiro que lhe atribuímos – passa ao leitor pela eficiência do seu método. Tal situação condiciona o efeito de distanciamento usado por Kafka. Distanciamento que propicia maior percepção ótica e, conseqüentemente, uma visão que recolhe fragmentos geralmente desprezados. Mas, afinal, como se opera tal estranhamento? Para simplificarmos, diríamos que aqueles que vivem em determinado lugar já estão habituados aos seus costumes e leis e suportam o peso de sua inexorabilidade. Ao estrangeiro, as regras do lugar não se apresentam com este peso. Sua conduta e seu olhar não estão presos às convenções dos decretos, por isso ele possui uma neutralidade e um distanciamento que faz com que veja as coisas por um outro ângulo . Ocorre que, em Kafka, esta visão deslocada não parece um privilégio para seus personagens, como não o é para os seres reais que a possuem. Compara-se a uma maldição, pois eles sofrem e se angustiam diante de uma vida dirigida de forma tão injusta e ininteligível. Portanto, o leitor sente-se sufocado pela impotência do “herói” kafkiano, já que sua sobriedade para nada serve: não encontra respostas (saídas) e não corrige as injustiças, vergando-se diante de uma lei convencional e soberana.
Por outro lado, o personagem que se desloca desta maneira sui generis num universo de convenções, diferencia-se dos demais, sobretudo, pela esperança que lhe confere maior mobilidade em oposição aos outros indivíduos que estão sempre conformados e estáticos. Este inconformismo é encontrado na determinação do Agrimensor e na insaciabilidade de Joseph K. Estabelece-se assim uma das características que enquadram Kafka como um escritor moderno: ele, entre outras coisas, opõe-se ao convencional, tanto na expressão estética que originou um novo estilo, quanto na visão crítica do mundo. Pois bem, o que devemos frisar é a importância desta espécie para a humanidade, pois “... são úteis precisamente em sua qualidade de estranhos: sua estranheza deve ser protegida e cuidadosamente preservada”.
2. Persona non grata
Aparentemente, as características do escritor Kafka que se refletem nos personagens são um paradigma da alteridade e da estraneidade do povo judeu. Notamos, por exemplo, na leitura de algumas de suas obras, que os personagens que trazem o estigma do estrangeiro são aqueles que são recebidos com precaução e mesmo desprazer aonde chegam. Esta inaceitabilidade por parte dos demais é, entre outras coisas, um reflexo do medo diante do outro, do desconhecido. Receio de uma sociedade que já está regulada por normas às quais todos se adaptaram e que proporcionam uma certa organização cômoda para os que julgam o bom andamento do corpo social. O ser estranho a estas normas julga-se livre dos seus ditames e orienta-se, muitas vezes, por seus próprios costumes. Seus desejos podem contrariar os demais.Assim, vemos os ressabiados aldeões d’O Castelo; o cuidado inicial do explorador (estrangeiro) com as palavras que discordavam das convenções na Colônia Penal; o incômodo causado por Karl Rossman em O Foguista e a prepotência e arrogância de Joseph K. perante o tribunal formado na sala da lavadeira.
O estrangeiro é justamente aquele que critica a nova terra por observar suas falhas e, ao ostentá-las, possibilita mudanças. Como disse Enriquez:
Ele, então, é capaz de notar as faltas. É assim aquele por quem o escândalo aparece.
Felizmente, diremos, contra o discurso do ostracismo diante do estrangeiro. Pois o que seria uma sociedade sem escândalo: uma sociedade presa na compulsão à repetição, no narcisismo nacional e numa visão mortífera do mundo. Acolher o estrangeiro é acolher o novo, o diferente, o exótico, é colocar-nos em questão e dar-nos uma chance de evoluir e de continuar nossa busca da verdade .
É notável, por exemplo, o número de imigrantes que participaram de revoluções sociais, dado que suas visões, sem a mácula e o vício das convenções, percebem as rachaduras e as ruínas do meio em que passam a viver. São críticos do status quo como Kafka foi um crítico das escravizações humanas. Revoltam-se diante das injustiças e, principalmente, diante do conformismo das próprias vítimas destas injustiças. Estes seres modelares - assim como os Abios apresentados no canto XIII da Ilíada - nos comovem pela visão mais justa dos homens e do mundo.
Eles parecem representar a própria visão de mundo do escritor Kafka, estrangeiro em potencial. Enquanto os habitantes da aldeia que circunda o castelo submetem-se às leis regentes, o agrimensor K. vive em busca de uma maneira de se aproximar da origem da lei para inquiri-la; o explorador da colônia penal não aceita o veredicto sobre o condenado e muito menos a sua forma de execução, ao passo que o soldado e o oficial agem como se aquilo fosse a coisa mais natural e necessária do mundo; temos, ainda, o jovem Karl que enxerga todas as injustiças que recaem sobre o foguista, mas não alcança êxito ao defende-lo, já que a própria vítima se conforma com a situação e, novamente, Joseph K. que repreende o comerciante Bloch quando este se ajoelha diante do advogado, mendigando a sua complacência.
Notamos, na verdade, que a atenção do personagem kafkiano se volta às questões da lei e da justiça. Ele se comporta não só como o que vem de outro mundo, mas também nos parece que este mundo, de onde vem, é um mundo onde predomina outro tipo de poder, bem diferente desse poder desumano. Benjamim, em um texto de 1921, nos dá uma noção do que seriam as diferenças entre esses poderes, muito embora ele acredite que não há como anular o poder . A necessidade de repressão como mantenedora de uma ordem social foi amplamente analisada pela teoria freudiana sobre a civilização, embora não deva ser aceita tacitamente. No entanto, percebe-se em alguns pensadores, entre eles Benjamin, Adorno, Marcuse e o próprio Kafka, uma revolta diante da opressão exacerbada, que extrapola os limites do propriamente organizacional para se deter num prazer egocêntrico e despótico de dominação.
Adorno e Horkheimer em sua Dialética do esclarecimento , já atribuíam este impulso de dominação a um medo imanente do desconhecido, desde os tempos míticos. O primeiro e menos aparente movimento de dominação seria a elaboração do conceito: abarcar a pluralidade de um ser na unidade de um conceito seria uma forma ilusória (porém eficiente, a priori) de dominar o outro. Conceituar seria conhecer, conhecer seria poder dominar e este poder afastaria o medo. Daí surge-nos a questão: seria a etiologia da lei a principal busca do personagem kafkiano? Sob este ponto de vista, o homem estranho ao meio representa um perigo por parecer indomável e todo ser indomado traz a semente da subversão. Enquadra-lo na lei - sob o peso do poder-violência (gewalt) - é, para o dominador, a única forma de afastar o medo, o risco de um descontrole social e sua conseqüente perda do poder.
Os abusos deste poder - apresentados na obra kafkiana - nos despertam a crítica sobre o modelo vigente. Como dissemos acima, Benjamin não descarta a presença do poder, assim como nós não conseguimos descartá-lo ao crermos que ele já opera no processo dialético do aparelho psíquico, mais precisamente nas instâncias do ego e do superego que são moldados pelas convenções sociais, não estando isentos de projeções e repressões. O que Kafka ressalta em sua obra – em consonância com vários outros pensadores – é que a lei dos dominantes, além de excessiva, mostra-se muitas vezes parcial. Esta lei é injusta, pois não respeita o princípio básico de reciprocidade que deve nortear direitos e deveres. Kafka focaliza (rejeitando) uma lei que traz estas características, além de ser soberana e impenetrável. O enigma maior se encontra na sua origem, na fonte que nunca é alcançada, sendo que os personagens apenas se avizinham dos funcionários da lei: os mensageiros e alguns subalternos do Castelo; o oficial da Colônia Penal; o guarda-porteiro de Diante da lei; o capitão, em O Foguista; Leni, a lavadeira e o pintor Titorelli, em O Processo.
3. O olhar ativo de K.
Segundo Bosi , os gregos e os romanos helenizados acreditavam no olhar receptivo e no olhar ativo. O primeiro se caracteriza simplesmente pelo que ele chama de um “ver-por-ver” e o segundo, seria um “ver-depois-de-olhar”. Quer dizer, com isso, que o olho, como “fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito”, pode tanto receber estímulos imagéticos involuntários, quanto escolher ou partir em busca de imagens selecionadas. Este “selecionar” envolve um processo idiossincrático complexo que seria o “pensar”.
Em Kafka, o olhar é antiburguês. Esta é a sua postura: decantar a educação burguesa. O pensamento da burguesia tem por base um modelo cartesiano-racionalista para lidar com a realidade. Sem fazermos uma crítica a Descartes, devemos, porém, criticar o uso que se fez do seu pensamento: ele foi explorado pela burguesia e extenuado pelo capitalismo. Desta apropriação indevida resultou um racionalismo tecnicista-instrumental funesto, pela extrapolação de uma razão que “analisa quantitativamente a forma formada que está a sua frente”. Razão que afasta as qualidades naturais que são imensuráveis geometricamente. Em suma: um olhar parcial que julga conhecer o objeto através de cálculos matemáticos. Bosi, citando a posição de Goethe e Sartre, nos diz que “o conhecimento dos seres vivos e, em particular, do ser humano, não se deve reduzir ao olhar físico-algébrico. Uma ciência das coisas e de suas propriedades não é uma ciência dos homens”.
Ora, mesmo que a ciência nunca descubra um método preciso de apreensão do real como coisa-em-si, continuaremos com a percepção de que o real é muito mais complexo e mutável do que se imagina e, portanto, não se deixa prender facilmente. Os limites da razão, ante a complexidade do real, foram enfaticamente discutidos por Adorno, em seu texto A atualidade da Filosofia , de 1931. Neste texto contundente, Adorno diz que aquele que se dispõe ao trabalho filosófico deve abandonar, desde o início, qualquer pretensão de se apoderar da totalidade do real. Após fazer um apanhado das vertentes filosóficas que surgiram até aquele momento histórico, julga-as todas ineficientes enquanto herdeiras de uma tradição idealista e totalizante.
Neste mesmo texto, Adorno exorta a atenção sobre aquilo que destoa, sobre o estranho, o inteiramente outro, o que Freud chamou de “escória do mundo dos fenômenos”. Sob este aspecto, ele se aproxima do modo de criação literária kafkiana quando nos diz que “a desconstrução em pequenos elementos desprovidos de intenção se conta, pois, entre os pressupostos fundamentais da interpretação filosófica”. Kafka quando ressalta o gestual, parece desconstruir o corpo humano em partes, conotando uma rejeição à totalidade, ao mesmo tempo em que nos alerta para a existência de outros aspectos do ser humano, além da razão. Este ato corrosivo sobre o sentido das coisas faz justamente abrir o sentido das coisas, permitindo e convidando a inúmeras interpretações.
As situações apresentadas pela ficção kafkiana deslocam e fixam os objetos de pesquisa. Este deslocamento opera de diversas maneiras através de uma técnica que atua sobre as imagens, sobre os gestos ou, até mesmo, sobre uma simples, mas obtusa troca de denominações: com a intenção de desfazer preconceitos que se associam a nomes, usa a palavra “chinês” ao invés de “judeu”. Esta “troca de etiquetas” propicia a neutralidade do olhar que confere uma “posição menos nociva possível à descoberta, à representação, à comunicação e à aceitação da verdade. Se o realismo tem um sentido filosófico, é este ”. Este pensamento se complementa com outro de Adorno: “Na verdade a realidade não é superada no conceito. (...) Pois o espírito não é capaz de produzir ou de compreender a totalidade do real; mas ele é capaz de irromper-se no pequeno, de fazer saltar no pequeno as medidas do meramente existente ”.
Enquanto a filosofia tradicional se detinha nas convenções, orientada por um desejo de unidade e pela totalização do real, Adorno defendia o olhar deslocado para as fissuras deste real. A atenção adorniana sobre o que destoa, talvez tenha sido um dos pontos de seu interesse pelo teatro do absurdo de Samuel Beckett, pelas contingências do humano em Kafka e pelas dissonâncias do psíquico focalizadas por Freud que se deteve sobre a loucura, a histeria, o unheimlich . Afinal, o que poderia ser descoberto de interessante sobre a sexualidade de um casal de classe média, por exemplo? Quanto a Kafka, basta lermos com atenção suas obras para percebermos que seu olhar focaliza e revela detalhes, gestos e ações dissonantes e, por vezes, estranhos.
Sendo a arte regularmente considerada a melhor forma de se aproximar do inexprimível, Kafka teve o mérito e a mestria de elevar esta potencialidade ao extremo: sua obra instiga, desperta e escandaliza por estar sempre próxima, esbarrando na verdade, através do absurdo, como os funcionários da lei. Estas qualidades kafkianas são o diametralmente oposto ao “olho do racionalismo clássico (que) examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca exprime ”.
Este olhar racionalista é veementemente rebatido por um processo recorrente em Kafka: a ênfase nos gestos mais simples dos personagens, os toques de mão, os olhares, os sons animalescos nos exortando à verdade: o homem não se restringe ao pensamento (ergo sum), ele é também as sensações, os sentidos. Além disso, tornar-se animal seria uma radicalização para expressar a vergonha de ser homem decaído.Com isto, Kafka nos coloca mais um dilema sobre o homem ao contrapor duas possibilidades: ele desauratiza a vida burguesa ou revela a vida burguesa desauratizada? Acreditamos que tenha feito as duas coisas: ao revelar a mesquinhez burguesa , desfaz a sua falsa aura de grandeza social, ao mesmo tempo em que, ao expor os seus interesses mercadológicos, demonstra que ela não possui e nem aprecia a verdadeira aura que é justamente imensurável. Seja como for, a ausência de aura nas imagens kafkianas não incide no banal, pois como dizíamos
Este novo olhar é o que, desde sempre, exprime e reconhece forças e estados internos, tanto no próprio sujeito, que deste modo se revela, quanto no outro, com o qual o sujeito entretém uma relação compreensiva. A percepção do outro depende da leitura dos seus fenômenos expressivos dos quais o olhar é o mais prenhe de significações. (BOSI, p.77).
Ou seja, ceder unicamente à ordem interna da razão não garante o sucesso na apreensão da verdade, como ressaltou Adorno, pois esse método considera somente os objetos enquanto imóveis. Ele nunca será suficiente para apreender a mutabilidade do ser humano, sua complexidade e sua riqueza.
O olhar frio e racionalista do homem burguês coisificou o ser humano e anulou a vida das relações sociais, onde tudo é transformado em valor de mercado. Sem falarmos que ao torna-se coisa, objeto inanimado (sem alma) e mensurável, o homem é facilmente dominado. Essa situação abre as portas para o barbarismo tecnicista que grassa em nossa humanidade, contra ele posicionamos a obra kafkiana que rejeita o olhar coisificante, anulador do ser humano. O homem-coisa é apreciado e apreçado pela sua utilidade prática e material. Destarte, é substituível quando se torna uma peça inútil. Este conceito mercantilista de utilidade manifestava-se no desprezo do pai de Kafka pela sua personalidade sensível, artística, “aérea”. Este viés dá ensejo à crítica kafkiana contra a racionalidade que despontava em seu tempo. Ele e alguns de seus contemporâneos perceberam os efeitos funestos desta transformação na vida dos homens.
A obra de Kafka apela para um novo modo de olhar. O olhar reverente que foi percebido por Modesto Carone, ao traduzir o título original kafkiano Betrachtung por “contemplação”, pois como ele mesmo disse, “para Kafka, a atenção dada ao objeto é uma forma leiga de oração”. Reforçando a apreensão deste conceito tão caro a Kafka, voltamos a Bosi:
Contemplar é olhar religiosamente (con-templum). Considerar é olhar com maravilha (con-sidus). Respeitar é olhar para trás, tomando-se a devida distância (re-spicio). E admirar é olhar com encanto movendo a alma até a soleira do objeto (ad-mirar). Os termos afins, contemplação, consideração e respeito conheceram todos um matiz de atenção e superior deferência... (1997, p. 78).
Observemos com atenção este olhar em Kafka: olhar que desloca e apresenta o desumano para resgatar do espanto o humano, porque o considera essencial; respeita (afasta-se e renomeia para eliminar preconceitos) e admira (encanta-se com o objeto) num ato diferente e deferente de oração. Esta forma de contemplação, ao desvelar imagens sem aura, desperta a nossa consciência para que percebamos o verdadeiro valor (áureo) das coisas. As qualidades humanistas desta forma de olhar são redimensionadas pela visão mais sensível do estrangeiro que se distingue pela distância exata, possibilitando a percepção da presença ou da ausência da aura dos seres.
Apesar dessas palavras, admitimos que este olhar não está evidente em sua obra. Para apreendê-lo, devemos perceber suas inversões: a exposição de detalhes negativos provoca a emersão dos positivos, pois, ao expor o absurdo como natural, o efeito é o choque sobre o que nos tornamos. Convida-nos à reflexão. Assim, conscientes talvez de nossos defeitos, temos um ponto de partida para a transformação, por mais que a sintaxe da frustração seja reforçada pela visão de que o nosso mundo seja apenas um mau humor de Deus e haja “esperança infinita, mas não para nós ”.
Kafka e seus contemporâneos sentiam a decadência das relações humanas, alimentada pela frieza do racionalismo técnico, pela explosão da Primeira Guerra Mundial e pelos bafejos do nazismo. Ocorre que o espírito da decadência não se extinguiu do nosso mundo, ele apenas adquire novos matizes em cada período histórico que passa. Este sentimento perdura por culpa do próprio ser humano que continua fazendo uso impróprio da razão. O uso que descambou em racionalismo técnico coisificante e que perpetua e acentua a “sub-existência” humana, mantendo a discrepância de direitos entre opressores e oprimidos.
Não se trata de uma crítica à razão enquanto faculdade humana e, sim, uma crítica à razão que se mostra irracional. No terreno do pensamento, existe uma crise diante das certezas cartesianas que é vivenciada pelo espírito de suspeição de vários pensadores, em várias épocas. Mas, este movimento crítico, sóbrio, ainda não conseguiu afastar do espírito humano – contaminado pela ideologia da utilidade – este ranço decadente que engendra a barbárie: processo (i)racional que acredita no progresso. O que certos pensadores almejam é o estatuto de uma razão sensual (Marcuse) que entende a razão humana como um conjunto de qualidades inerentes ao ser humano (razão e sentidos) e não a primazia de uma razão instrumental. Talvez, esta percepção angustiante e incômoda é que nos provoca uma nostalgia sem sentido aparente ou, quem sabe, tenhamos no inconsciente um arquétipo de paraíso perdido pelo qual anelamos, que motiva nossas ações críticas e mantém viva nossa esperança.
4. O olhar crítico
Um dos aspectos que diferencia Kafka de muitos escritores é que ele não se destacou pelo engajamento, ao menos não demonstrou esta intenção. No entanto, se levarmos em conta as palavras de Adorno , sua obra provoca “uma reação frente à qual as obras oficialmente engajadas desbancam-se como brinquedos”, já que ela tem o mérito de “resistir à roda viva que sempre de novo está a mirar o peito dos homens”. Esta resistência fica evidente na indignação de alguns personagens e no próprio estilo literário, além de poder ser entendida como uma forma contundente de questionamento acerca da existência. Daí, por exemplo, seus volteios com o pecado e a culpa. As questões da lei e da justiça nasciam no seio do ambiente familiar, onde, inspiradas pelos atos despóticos do pai, projetavam-se redimensionadas para a sociedade de uma forma geral. Seu fulcro “pessimista” (constante malogro) origina-se na própria vida incerta e no convívio paterno resistente.
O sentimento de culpa alimentado pelo pai debilitou o filho, mas, surpreendentemente, fortaleceu no escritor a expressão incomparável da frustração. Assim, o fracasso que golpeia os personagens kafkianos parece anular a semente de uma possível transformação. Este sentimento de impotência provavelmente foi percebido por Adorno que parecia crer mais na obra kafkiana como ponto de resistência do que como apelo à transformação. Além do mais, o destino dos homens kafkianos é inexorável, pois eles já nascem com o estigma da culpa e decaídos não escapam à sentença. A síntese desta condição poderia ser o drama de Joseph K. que se enreda num processo onde, na busca de uma explicação sobre a culpa, só faz enlear-se cada vez mais.
Logo, a similitude com o pensamento engajado se caracteriza justamente pelo olhar que não se ilude com as estatísticas otimistas de um sistema que se julga progressista. Este julgamento encontra-se tão alienado quanto o resto: o homem moderno não reconhece mais a sua natureza substancial, ele deixou de ser humano para tornar-se mercadoria, homem-profissão, máquina produtora de mais-valia. Estes aspectos em sua obra – apesar de pouco evidentes – foram apreendidos por Orson Welles em sua maravilhosa adaptação d’O Processo para o cinema (1963) e são apresentadas, por exemplo, nas imagens dos funcionários que datilografam o tempo todo – como autômatos - na empresa onde trabalha Joseph K., além da evidente ironia com relação à supremacia da máquina (e da razão tecnicista) no momento em que seu tio, vindo do campo (oposição ao urbano), sugere que ele pergunte ao computador os motivos do processo que se move contra ele.
O abandono e o auto-abandono do homem em função de um interesse mercadológico é sugerido, também, no texto kafkiano. Em Um artista da fome, vemos que, no início, o jejuador tinha um relógio afixado na parede de sua jaula. Desta maneira, ele podia medir constantemente e com precisão a grandeza da sua arte (os limites da sua abstinência). Com o tempo, sua condição foi decaindo e o relógio foi substituído por uma plaqueta que exigia a marcação manual do tempo transcorrido do jejum. Aquele ser humano abandonado, não podia mais medir o seu único valor (que já não lucrava ao empresário). Os dias não contados acusavam uma cifra que parecia um embuste, não cometido pelo dedicado artista. Fraudado pelo mundo, seu coração tornou-se pesado até a morte, não sem, antes, um inspetor notar aquela jaula – “peça perfeitamente aproveitável” – sem perceber no meio da palha podre o corpo definhado do artista . Este mundo onde tudo se transforma em mercadoria é onde reina a injustiça.
Como mencionamos a nostalgia por uma espécie de paraíso perdido, talvez seja pertinente atribuir a ela a inspiração kafkiana que direciona o olhar sobre um passado longínquo onde reinava uma outra justiça. O juízo que atravessa o olhar kafkiano provoca a postura crítica diante da “justiça” dos homens e de suas leis absurdas. Um olhar que, certamente, assim como em Benjamin, não descarta a exigência de um poder ordenador, desde que este não degenere em opressão. Aliás, poderíamos imaginar que fosse a nostalgia de um poder anterior à queda, pois não sintoniza também com o poder que imputa uma culpa congênita à raça adâmica. Uma espécie de protolei: a lei antes de ser escrita e que se acha contida num mundo fechado, num casulo indevassável onde o personagem kafkiano tenta entrar, ludibriado por portas que “mesmo abertas, vedam o acesso à lei ou levam a lugar nenhum”. A instância da lei em Kafka, “remete a uma época anterior à lei das doze tábuas, a um mundo primitivo, contra o qual a instituição do direito escrito representou uma das primeiras vitórias ”.
A incoerência das leis humanas é expressa na impossibilidade de sequer aproximar-se delas que foram feitas para todos, já que entre o anelante e o anelado existem inúmeros guardas, um mais poderoso que o outro. Estas verdades são percebidas pelo olhar suspeitoso e insubmisso de Kafka, o olhar do artista marginal que escandaliza. Olhos símiles aos benjaminianos que se voltam condolentes sobre os vencidos e incisivos sobre os vencedores. Olhos de “anjos necessários” que vêm (e vêem) de outra dimensão, estrangeiros angelicais que nos evoca um novo olhar, pluridimensional.
Kafka desejaria olhar para um mundo que não lhe fosse estranho. Sua obra foi uma tentativa de encontrar-se, situar-se num mundo que não provocasse o estranhamento tão angustiante. Na qualidade de vidente, buscava a identidade com o visível. Mas queria identificar-se com o todo e não apenas com os injustiçados, assim como ele. Gostaria que por seus olhos entrasse
Seus textos já receberam abordagens teológicas, filosóficas, psicanalíticas, sociológicas e literárias. Muitas são consideradas pertinentes e magistrais, mas nenhuma deu conta de sua profundidade e plenitude, restando espaços vazios que reclamam preenchimento. A obra, repleta de paradoxos deslizantes, nos convida à entrada e até mesmo nos oferece inúmeras portas - ilusórias como as de seus próprios cenários – mas, ao entrarmos, nos perdemos num enorme labirinto e, depois de tanto circular, nos conscientizamos de que nem sequer alcançamos o ponto de onde emerge a vertiginosa elipse. Apesar de incompletos, os poucos passos que são dados nesse universo oferecem ao leitor atento uma multiplicidade de novos elementos sedutores.
O importante na leitura de Kafka é que a porta escolhida introduza realmente no universo da sua história. Uma vez lá dentro, será de bom senso deter-se apenas nos aspectos daquele universo. Deleuze e Guattari iniciam sua tentativa analítica exatamente com esta pergunta: “Como entrar na obra de Kafka?”. Após algumas considerações, ainda no início do texto, afirmam acreditarem somente numa “experimentação de Kafka, sem interpretação nem significância, mas somente protocolos de experiência”.
Adorno, autor de uma das leituras exemplares, renega a tentativa de enquadrar Kafka numa corrente de pensamento e sugere que insistamos nos “aspectos que dificultam o enquadramento” , atribuindo justamente a esta dificuldade a perturbação de uma obra em que “cada frase diz: ‘interprete-me’; e nenhuma frase tolera interpretação”. Para ele, a tentativa de interpretação “é uma questão de vida ou morte”. Albert Camus, por outro lado, propõe que se façam releituras diante dessa obra que contém “desenlaces e faltas de desenlace” ; Costa Lima, falando sobre as situações indecidíveis, nos diz que “cada interpretação suscita uma contra-interpretação, sem que possa haver acordo sobre a legitimidade de cada uma” ; Anders, apoiando-se talvez nas próprias palavras do Diário IV de Kafka - onde o escritor diz que tem o direito de ao menos representar o que havia de negativo em seu tempo - insere-o “num horizonte largamente estirado de problemas gerais” , efetuando assim uma leitura diversificada e belíssima da obra kafkiana. Enfim, para finalizarmos esta pequena lista de pensadores que se debruçaram sobre uma obra ímpar, seguiremos orientados pelas próprias palavras kafkianas, citadas por Rosenfeld: “Talvez haja só um pecado capital: a impaciência”.
No presente trabalho, tentaremos levantar alguns aspectos da obra kafkiana que revelam o olhar atento daquele que parecia “fora do mundo”, numa encruzilhada existencial: queria ajustar-se para ser aceito pelos poderes deste mundo e também continuar sendo fiel aos seus princípios. Neste ponto residia seu maior problema: como este olhar estrangeiro tão sensível às injustiças poderia anular-se? Trata-se de uma angustiada hesitação entre o “entregar-se” e o “afirmar-se” que, irresoluta, perdura na frustração. Nossa cautela nos limita à observação deste percurso malogrado do personagem kafkiano que vai revelando – entre outras coisas - os absurdos da racionalidade instrumental, por meio de um olhar que se emancipou dos hábitos burgueses.
Para tanto, traremos algumas considerações sobre o conceito de olhar, recolhidas do ensaio Fenomenologia do Olhar, de Alfredo Bosi. Também buscaremos alguns aspectos filosóficos em Adorno e Benjamin, tecendo, a partir deles, comentários sobre certas características do universo kafkiano sem, contudo, atrevermo-nos a enquadrá-lo numa determinada corrente filosófica. Trata-se, portanto, de simples observações provocadas por elementos que se nos mostraram significativos, sendo que alguns deles são iluminados pela extrema condição de estrangeiro em Kafka. Assim, as imagens que ele registra revelam ao leitor os recônditos da alma e da vida humana deformada, sem descrevê-las minuciosamente, apenas desvelando-as nos atos e gestos de seus personagens, através de um deslocamento que vasculha o diferente, revela o negativo e desperta a consciência.
1. Um estranho no mundo
Nascido em Praga, filho de família judia-assimilada e tendo que aceitar a língua alemã como oficial, o jovem Kafka não sentia o chão firme sob os seus pés. Vivia sob um constante e incômodo sentimento de não-pertencer ao mundo: não era um judeu ortodoxo; não se identificava com o tcheco por ter que falar alemão e nem com o alemão por ser tcheco; sua família era burguesa, mas ele trabalhava em uma fábrica, assim, não se adaptava ao operariado e nem à burguesia; por ser um escritor, não se adequava à burocracia de um escritório e na posição de arrimo, desfaziam-se as características do escritor. Em uma carta ao seu sogro, escreveu: “vivo em minha família mais deslocado do que um estranho”. Dentre os efeitos desse estranhamento do mundo, ressaltamos a sua condição de estrangeiro em todos os lugares, sendo que uma das mais importantes implicações desta condição em sua obra é o olhar diferenciado: o olhar que se debruça sobre o diferente, sobre o que passa, a muitos, despercebido.
Este singular estranhamento é característica do personagem central kafkiano que está sempre chegando aos lugares onde as regras já estão estabelecidas: Karl, em O Foguista; o explorador, em Na Colônia penal; o agrimensor K., n’O Castelo, Gregor Sansa que, em Metamorfose, desperta (chega) do mundo dos sonhos e, até mesmo, Joseph K., que em O Processo é acordado por um estranho e passa a viver um pesadelo num mundo totalmente diferente do que vivia. Além do conteúdo manifesto deste constante chegar, temos a forma de expressão das histórias que, geralmente, se iniciam in media res (em meio às coisas predeterminadas).
Os hábitos e costumes desses lugares lhe são estranhos, havendo, assim, uma espécie de discordância entre o sujeito e o mundo, pois eles não se acham na mesma sintonia. Esta inadaptação se confirma nas constantes questões levantadas por seus personagens principais: eles nunca trazem respostas a perguntas não formuladas, mas, ao contrário, sempre levantam questões que nunca são respondidas. Sobre isto, Rosenfeld nos lembra das “possibilidades que se anulam, da dúvida que duvida da própria dúvida, ad infinitum”. Estas giram em torno da lei, da justiça, da autoridade e da verdade. Não que seus personagens vivam em busca da verdade, mas eles se deparam com situações de estranhamento que requerem uma resolução justa e verdadeira, além de parecerem seduzidos pela lei, como o agrimensor K. e Joseph K.
O extraordinário em suas obras é que a construção ficcional insere o leitor na pele do estrangeiro, a ponto de suas surpresas serem as surpresas de quem as lê. Os elementos básicos da vida de Kafka, mais as “partículas reais” do mundo racionalizado são manipulados a ponto de resultarem em imagens transformadas e deformadas. Estes deslocamentos e acentuações negativas do real causam uma “impressão ao mesmo tempo de estranhamento e de dèjá vu, de extrema realidade e extrema irrealidade” . Com isso, Kafka atira na face do leitor as imprecisões do mundo e as ruínas da justiça.
Deleuze e Guattari refletiram sobre a mestria da construção kafkiana e concluíram que não há simplesmente uma correlação entre as formas de conteúdo e as formas de expressão, mas há, sim, o que eles chamaram uma máquina de expressão que desorganiza as próprias formas e libertam conteúdos puros que se confundem com a expressão . Assim, Kafka prende o leitor com sua arte: o artifício literário d’A Metamorfose, por exemplo, suscita no leitor o incômodo e o asco como se ele estivesse realmente vivenciando (ou presenciando) aquela condição de inseto.Da mesma forma, o mundo d’O Processo é projetado a partir de Joseph K. e sua angústia é vivenciada pelo leitor que compartilha tanto de sua visão, quanto de sua ignorância.O singular é que o sucesso de tal efeito literário resulta, sobretudo, da habilidade da sua máquina de expressão, posto que tal resultado não seria o mesmo se dependesse somente do conteúdo coadunado à expressão.
Dessa forma, o estranhamento do autor - que é natural à própria condição de estrangeiro que lhe atribuímos – passa ao leitor pela eficiência do seu método. Tal situação condiciona o efeito de distanciamento usado por Kafka. Distanciamento que propicia maior percepção ótica e, conseqüentemente, uma visão que recolhe fragmentos geralmente desprezados. Mas, afinal, como se opera tal estranhamento? Para simplificarmos, diríamos que aqueles que vivem em determinado lugar já estão habituados aos seus costumes e leis e suportam o peso de sua inexorabilidade. Ao estrangeiro, as regras do lugar não se apresentam com este peso. Sua conduta e seu olhar não estão presos às convenções dos decretos, por isso ele possui uma neutralidade e um distanciamento que faz com que veja as coisas por um outro ângulo . Ocorre que, em Kafka, esta visão deslocada não parece um privilégio para seus personagens, como não o é para os seres reais que a possuem. Compara-se a uma maldição, pois eles sofrem e se angustiam diante de uma vida dirigida de forma tão injusta e ininteligível. Portanto, o leitor sente-se sufocado pela impotência do “herói” kafkiano, já que sua sobriedade para nada serve: não encontra respostas (saídas) e não corrige as injustiças, vergando-se diante de uma lei convencional e soberana.
Por outro lado, o personagem que se desloca desta maneira sui generis num universo de convenções, diferencia-se dos demais, sobretudo, pela esperança que lhe confere maior mobilidade em oposição aos outros indivíduos que estão sempre conformados e estáticos. Este inconformismo é encontrado na determinação do Agrimensor e na insaciabilidade de Joseph K. Estabelece-se assim uma das características que enquadram Kafka como um escritor moderno: ele, entre outras coisas, opõe-se ao convencional, tanto na expressão estética que originou um novo estilo, quanto na visão crítica do mundo. Pois bem, o que devemos frisar é a importância desta espécie para a humanidade, pois “... são úteis precisamente em sua qualidade de estranhos: sua estranheza deve ser protegida e cuidadosamente preservada”.
2. Persona non grata
Aparentemente, as características do escritor Kafka que se refletem nos personagens são um paradigma da alteridade e da estraneidade do povo judeu. Notamos, por exemplo, na leitura de algumas de suas obras, que os personagens que trazem o estigma do estrangeiro são aqueles que são recebidos com precaução e mesmo desprazer aonde chegam. Esta inaceitabilidade por parte dos demais é, entre outras coisas, um reflexo do medo diante do outro, do desconhecido. Receio de uma sociedade que já está regulada por normas às quais todos se adaptaram e que proporcionam uma certa organização cômoda para os que julgam o bom andamento do corpo social. O ser estranho a estas normas julga-se livre dos seus ditames e orienta-se, muitas vezes, por seus próprios costumes. Seus desejos podem contrariar os demais.Assim, vemos os ressabiados aldeões d’O Castelo; o cuidado inicial do explorador (estrangeiro) com as palavras que discordavam das convenções na Colônia Penal; o incômodo causado por Karl Rossman em O Foguista e a prepotência e arrogância de Joseph K. perante o tribunal formado na sala da lavadeira.
O estrangeiro é justamente aquele que critica a nova terra por observar suas falhas e, ao ostentá-las, possibilita mudanças. Como disse Enriquez:
Ele, então, é capaz de notar as faltas. É assim aquele por quem o escândalo aparece.
Felizmente, diremos, contra o discurso do ostracismo diante do estrangeiro. Pois o que seria uma sociedade sem escândalo: uma sociedade presa na compulsão à repetição, no narcisismo nacional e numa visão mortífera do mundo. Acolher o estrangeiro é acolher o novo, o diferente, o exótico, é colocar-nos em questão e dar-nos uma chance de evoluir e de continuar nossa busca da verdade .
É notável, por exemplo, o número de imigrantes que participaram de revoluções sociais, dado que suas visões, sem a mácula e o vício das convenções, percebem as rachaduras e as ruínas do meio em que passam a viver. São críticos do status quo como Kafka foi um crítico das escravizações humanas. Revoltam-se diante das injustiças e, principalmente, diante do conformismo das próprias vítimas destas injustiças. Estes seres modelares - assim como os Abios apresentados no canto XIII da Ilíada - nos comovem pela visão mais justa dos homens e do mundo.
Eles parecem representar a própria visão de mundo do escritor Kafka, estrangeiro em potencial. Enquanto os habitantes da aldeia que circunda o castelo submetem-se às leis regentes, o agrimensor K. vive em busca de uma maneira de se aproximar da origem da lei para inquiri-la; o explorador da colônia penal não aceita o veredicto sobre o condenado e muito menos a sua forma de execução, ao passo que o soldado e o oficial agem como se aquilo fosse a coisa mais natural e necessária do mundo; temos, ainda, o jovem Karl que enxerga todas as injustiças que recaem sobre o foguista, mas não alcança êxito ao defende-lo, já que a própria vítima se conforma com a situação e, novamente, Joseph K. que repreende o comerciante Bloch quando este se ajoelha diante do advogado, mendigando a sua complacência.
Notamos, na verdade, que a atenção do personagem kafkiano se volta às questões da lei e da justiça. Ele se comporta não só como o que vem de outro mundo, mas também nos parece que este mundo, de onde vem, é um mundo onde predomina outro tipo de poder, bem diferente desse poder desumano. Benjamim, em um texto de 1921, nos dá uma noção do que seriam as diferenças entre esses poderes, muito embora ele acredite que não há como anular o poder . A necessidade de repressão como mantenedora de uma ordem social foi amplamente analisada pela teoria freudiana sobre a civilização, embora não deva ser aceita tacitamente. No entanto, percebe-se em alguns pensadores, entre eles Benjamin, Adorno, Marcuse e o próprio Kafka, uma revolta diante da opressão exacerbada, que extrapola os limites do propriamente organizacional para se deter num prazer egocêntrico e despótico de dominação.
Adorno e Horkheimer em sua Dialética do esclarecimento , já atribuíam este impulso de dominação a um medo imanente do desconhecido, desde os tempos míticos. O primeiro e menos aparente movimento de dominação seria a elaboração do conceito: abarcar a pluralidade de um ser na unidade de um conceito seria uma forma ilusória (porém eficiente, a priori) de dominar o outro. Conceituar seria conhecer, conhecer seria poder dominar e este poder afastaria o medo. Daí surge-nos a questão: seria a etiologia da lei a principal busca do personagem kafkiano? Sob este ponto de vista, o homem estranho ao meio representa um perigo por parecer indomável e todo ser indomado traz a semente da subversão. Enquadra-lo na lei - sob o peso do poder-violência (gewalt) - é, para o dominador, a única forma de afastar o medo, o risco de um descontrole social e sua conseqüente perda do poder.
Os abusos deste poder - apresentados na obra kafkiana - nos despertam a crítica sobre o modelo vigente. Como dissemos acima, Benjamin não descarta a presença do poder, assim como nós não conseguimos descartá-lo ao crermos que ele já opera no processo dialético do aparelho psíquico, mais precisamente nas instâncias do ego e do superego que são moldados pelas convenções sociais, não estando isentos de projeções e repressões. O que Kafka ressalta em sua obra – em consonância com vários outros pensadores – é que a lei dos dominantes, além de excessiva, mostra-se muitas vezes parcial. Esta lei é injusta, pois não respeita o princípio básico de reciprocidade que deve nortear direitos e deveres. Kafka focaliza (rejeitando) uma lei que traz estas características, além de ser soberana e impenetrável. O enigma maior se encontra na sua origem, na fonte que nunca é alcançada, sendo que os personagens apenas se avizinham dos funcionários da lei: os mensageiros e alguns subalternos do Castelo; o oficial da Colônia Penal; o guarda-porteiro de Diante da lei; o capitão, em O Foguista; Leni, a lavadeira e o pintor Titorelli, em O Processo.
3. O olhar ativo de K.
Segundo Bosi , os gregos e os romanos helenizados acreditavam no olhar receptivo e no olhar ativo. O primeiro se caracteriza simplesmente pelo que ele chama de um “ver-por-ver” e o segundo, seria um “ver-depois-de-olhar”. Quer dizer, com isso, que o olho, como “fronteira móvel e aberta entre o mundo externo e o sujeito”, pode tanto receber estímulos imagéticos involuntários, quanto escolher ou partir em busca de imagens selecionadas. Este “selecionar” envolve um processo idiossincrático complexo que seria o “pensar”.
Em Kafka, o olhar é antiburguês. Esta é a sua postura: decantar a educação burguesa. O pensamento da burguesia tem por base um modelo cartesiano-racionalista para lidar com a realidade. Sem fazermos uma crítica a Descartes, devemos, porém, criticar o uso que se fez do seu pensamento: ele foi explorado pela burguesia e extenuado pelo capitalismo. Desta apropriação indevida resultou um racionalismo tecnicista-instrumental funesto, pela extrapolação de uma razão que “analisa quantitativamente a forma formada que está a sua frente”. Razão que afasta as qualidades naturais que são imensuráveis geometricamente. Em suma: um olhar parcial que julga conhecer o objeto através de cálculos matemáticos. Bosi, citando a posição de Goethe e Sartre, nos diz que “o conhecimento dos seres vivos e, em particular, do ser humano, não se deve reduzir ao olhar físico-algébrico. Uma ciência das coisas e de suas propriedades não é uma ciência dos homens”.
Ora, mesmo que a ciência nunca descubra um método preciso de apreensão do real como coisa-em-si, continuaremos com a percepção de que o real é muito mais complexo e mutável do que se imagina e, portanto, não se deixa prender facilmente. Os limites da razão, ante a complexidade do real, foram enfaticamente discutidos por Adorno, em seu texto A atualidade da Filosofia , de 1931. Neste texto contundente, Adorno diz que aquele que se dispõe ao trabalho filosófico deve abandonar, desde o início, qualquer pretensão de se apoderar da totalidade do real. Após fazer um apanhado das vertentes filosóficas que surgiram até aquele momento histórico, julga-as todas ineficientes enquanto herdeiras de uma tradição idealista e totalizante.
Neste mesmo texto, Adorno exorta a atenção sobre aquilo que destoa, sobre o estranho, o inteiramente outro, o que Freud chamou de “escória do mundo dos fenômenos”. Sob este aspecto, ele se aproxima do modo de criação literária kafkiana quando nos diz que “a desconstrução em pequenos elementos desprovidos de intenção se conta, pois, entre os pressupostos fundamentais da interpretação filosófica”. Kafka quando ressalta o gestual, parece desconstruir o corpo humano em partes, conotando uma rejeição à totalidade, ao mesmo tempo em que nos alerta para a existência de outros aspectos do ser humano, além da razão. Este ato corrosivo sobre o sentido das coisas faz justamente abrir o sentido das coisas, permitindo e convidando a inúmeras interpretações.
As situações apresentadas pela ficção kafkiana deslocam e fixam os objetos de pesquisa. Este deslocamento opera de diversas maneiras através de uma técnica que atua sobre as imagens, sobre os gestos ou, até mesmo, sobre uma simples, mas obtusa troca de denominações: com a intenção de desfazer preconceitos que se associam a nomes, usa a palavra “chinês” ao invés de “judeu”. Esta “troca de etiquetas” propicia a neutralidade do olhar que confere uma “posição menos nociva possível à descoberta, à representação, à comunicação e à aceitação da verdade. Se o realismo tem um sentido filosófico, é este ”. Este pensamento se complementa com outro de Adorno: “Na verdade a realidade não é superada no conceito. (...) Pois o espírito não é capaz de produzir ou de compreender a totalidade do real; mas ele é capaz de irromper-se no pequeno, de fazer saltar no pequeno as medidas do meramente existente ”.
Enquanto a filosofia tradicional se detinha nas convenções, orientada por um desejo de unidade e pela totalização do real, Adorno defendia o olhar deslocado para as fissuras deste real. A atenção adorniana sobre o que destoa, talvez tenha sido um dos pontos de seu interesse pelo teatro do absurdo de Samuel Beckett, pelas contingências do humano em Kafka e pelas dissonâncias do psíquico focalizadas por Freud que se deteve sobre a loucura, a histeria, o unheimlich . Afinal, o que poderia ser descoberto de interessante sobre a sexualidade de um casal de classe média, por exemplo? Quanto a Kafka, basta lermos com atenção suas obras para percebermos que seu olhar focaliza e revela detalhes, gestos e ações dissonantes e, por vezes, estranhos.
Sendo a arte regularmente considerada a melhor forma de se aproximar do inexprimível, Kafka teve o mérito e a mestria de elevar esta potencialidade ao extremo: sua obra instiga, desperta e escandaliza por estar sempre próxima, esbarrando na verdade, através do absurdo, como os funcionários da lei. Estas qualidades kafkianas são o diametralmente oposto ao “olho do racionalismo clássico (que) examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca exprime ”.
Este olhar racionalista é veementemente rebatido por um processo recorrente em Kafka: a ênfase nos gestos mais simples dos personagens, os toques de mão, os olhares, os sons animalescos nos exortando à verdade: o homem não se restringe ao pensamento (ergo sum), ele é também as sensações, os sentidos. Além disso, tornar-se animal seria uma radicalização para expressar a vergonha de ser homem decaído.Com isto, Kafka nos coloca mais um dilema sobre o homem ao contrapor duas possibilidades: ele desauratiza a vida burguesa ou revela a vida burguesa desauratizada? Acreditamos que tenha feito as duas coisas: ao revelar a mesquinhez burguesa , desfaz a sua falsa aura de grandeza social, ao mesmo tempo em que, ao expor os seus interesses mercadológicos, demonstra que ela não possui e nem aprecia a verdadeira aura que é justamente imensurável. Seja como for, a ausência de aura nas imagens kafkianas não incide no banal, pois como dizíamos
Este novo olhar é o que, desde sempre, exprime e reconhece forças e estados internos, tanto no próprio sujeito, que deste modo se revela, quanto no outro, com o qual o sujeito entretém uma relação compreensiva. A percepção do outro depende da leitura dos seus fenômenos expressivos dos quais o olhar é o mais prenhe de significações. (BOSI, p.77).
Ou seja, ceder unicamente à ordem interna da razão não garante o sucesso na apreensão da verdade, como ressaltou Adorno, pois esse método considera somente os objetos enquanto imóveis. Ele nunca será suficiente para apreender a mutabilidade do ser humano, sua complexidade e sua riqueza.
O olhar frio e racionalista do homem burguês coisificou o ser humano e anulou a vida das relações sociais, onde tudo é transformado em valor de mercado. Sem falarmos que ao torna-se coisa, objeto inanimado (sem alma) e mensurável, o homem é facilmente dominado. Essa situação abre as portas para o barbarismo tecnicista que grassa em nossa humanidade, contra ele posicionamos a obra kafkiana que rejeita o olhar coisificante, anulador do ser humano. O homem-coisa é apreciado e apreçado pela sua utilidade prática e material. Destarte, é substituível quando se torna uma peça inútil. Este conceito mercantilista de utilidade manifestava-se no desprezo do pai de Kafka pela sua personalidade sensível, artística, “aérea”. Este viés dá ensejo à crítica kafkiana contra a racionalidade que despontava em seu tempo. Ele e alguns de seus contemporâneos perceberam os efeitos funestos desta transformação na vida dos homens.
A obra de Kafka apela para um novo modo de olhar. O olhar reverente que foi percebido por Modesto Carone, ao traduzir o título original kafkiano Betrachtung por “contemplação”, pois como ele mesmo disse, “para Kafka, a atenção dada ao objeto é uma forma leiga de oração”. Reforçando a apreensão deste conceito tão caro a Kafka, voltamos a Bosi:
Contemplar é olhar religiosamente (con-templum). Considerar é olhar com maravilha (con-sidus). Respeitar é olhar para trás, tomando-se a devida distância (re-spicio). E admirar é olhar com encanto movendo a alma até a soleira do objeto (ad-mirar). Os termos afins, contemplação, consideração e respeito conheceram todos um matiz de atenção e superior deferência... (1997, p. 78).
Observemos com atenção este olhar em Kafka: olhar que desloca e apresenta o desumano para resgatar do espanto o humano, porque o considera essencial; respeita (afasta-se e renomeia para eliminar preconceitos) e admira (encanta-se com o objeto) num ato diferente e deferente de oração. Esta forma de contemplação, ao desvelar imagens sem aura, desperta a nossa consciência para que percebamos o verdadeiro valor (áureo) das coisas. As qualidades humanistas desta forma de olhar são redimensionadas pela visão mais sensível do estrangeiro que se distingue pela distância exata, possibilitando a percepção da presença ou da ausência da aura dos seres.
Apesar dessas palavras, admitimos que este olhar não está evidente em sua obra. Para apreendê-lo, devemos perceber suas inversões: a exposição de detalhes negativos provoca a emersão dos positivos, pois, ao expor o absurdo como natural, o efeito é o choque sobre o que nos tornamos. Convida-nos à reflexão. Assim, conscientes talvez de nossos defeitos, temos um ponto de partida para a transformação, por mais que a sintaxe da frustração seja reforçada pela visão de que o nosso mundo seja apenas um mau humor de Deus e haja “esperança infinita, mas não para nós ”.
Kafka e seus contemporâneos sentiam a decadência das relações humanas, alimentada pela frieza do racionalismo técnico, pela explosão da Primeira Guerra Mundial e pelos bafejos do nazismo. Ocorre que o espírito da decadência não se extinguiu do nosso mundo, ele apenas adquire novos matizes em cada período histórico que passa. Este sentimento perdura por culpa do próprio ser humano que continua fazendo uso impróprio da razão. O uso que descambou em racionalismo técnico coisificante e que perpetua e acentua a “sub-existência” humana, mantendo a discrepância de direitos entre opressores e oprimidos.
Não se trata de uma crítica à razão enquanto faculdade humana e, sim, uma crítica à razão que se mostra irracional. No terreno do pensamento, existe uma crise diante das certezas cartesianas que é vivenciada pelo espírito de suspeição de vários pensadores, em várias épocas. Mas, este movimento crítico, sóbrio, ainda não conseguiu afastar do espírito humano – contaminado pela ideologia da utilidade – este ranço decadente que engendra a barbárie: processo (i)racional que acredita no progresso. O que certos pensadores almejam é o estatuto de uma razão sensual (Marcuse) que entende a razão humana como um conjunto de qualidades inerentes ao ser humano (razão e sentidos) e não a primazia de uma razão instrumental. Talvez, esta percepção angustiante e incômoda é que nos provoca uma nostalgia sem sentido aparente ou, quem sabe, tenhamos no inconsciente um arquétipo de paraíso perdido pelo qual anelamos, que motiva nossas ações críticas e mantém viva nossa esperança.
4. O olhar crítico
Um dos aspectos que diferencia Kafka de muitos escritores é que ele não se destacou pelo engajamento, ao menos não demonstrou esta intenção. No entanto, se levarmos em conta as palavras de Adorno , sua obra provoca “uma reação frente à qual as obras oficialmente engajadas desbancam-se como brinquedos”, já que ela tem o mérito de “resistir à roda viva que sempre de novo está a mirar o peito dos homens”. Esta resistência fica evidente na indignação de alguns personagens e no próprio estilo literário, além de poder ser entendida como uma forma contundente de questionamento acerca da existência. Daí, por exemplo, seus volteios com o pecado e a culpa. As questões da lei e da justiça nasciam no seio do ambiente familiar, onde, inspiradas pelos atos despóticos do pai, projetavam-se redimensionadas para a sociedade de uma forma geral. Seu fulcro “pessimista” (constante malogro) origina-se na própria vida incerta e no convívio paterno resistente.
O sentimento de culpa alimentado pelo pai debilitou o filho, mas, surpreendentemente, fortaleceu no escritor a expressão incomparável da frustração. Assim, o fracasso que golpeia os personagens kafkianos parece anular a semente de uma possível transformação. Este sentimento de impotência provavelmente foi percebido por Adorno que parecia crer mais na obra kafkiana como ponto de resistência do que como apelo à transformação. Além do mais, o destino dos homens kafkianos é inexorável, pois eles já nascem com o estigma da culpa e decaídos não escapam à sentença. A síntese desta condição poderia ser o drama de Joseph K. que se enreda num processo onde, na busca de uma explicação sobre a culpa, só faz enlear-se cada vez mais.
Logo, a similitude com o pensamento engajado se caracteriza justamente pelo olhar que não se ilude com as estatísticas otimistas de um sistema que se julga progressista. Este julgamento encontra-se tão alienado quanto o resto: o homem moderno não reconhece mais a sua natureza substancial, ele deixou de ser humano para tornar-se mercadoria, homem-profissão, máquina produtora de mais-valia. Estes aspectos em sua obra – apesar de pouco evidentes – foram apreendidos por Orson Welles em sua maravilhosa adaptação d’O Processo para o cinema (1963) e são apresentadas, por exemplo, nas imagens dos funcionários que datilografam o tempo todo – como autômatos - na empresa onde trabalha Joseph K., além da evidente ironia com relação à supremacia da máquina (e da razão tecnicista) no momento em que seu tio, vindo do campo (oposição ao urbano), sugere que ele pergunte ao computador os motivos do processo que se move contra ele.
O abandono e o auto-abandono do homem em função de um interesse mercadológico é sugerido, também, no texto kafkiano. Em Um artista da fome, vemos que, no início, o jejuador tinha um relógio afixado na parede de sua jaula. Desta maneira, ele podia medir constantemente e com precisão a grandeza da sua arte (os limites da sua abstinência). Com o tempo, sua condição foi decaindo e o relógio foi substituído por uma plaqueta que exigia a marcação manual do tempo transcorrido do jejum. Aquele ser humano abandonado, não podia mais medir o seu único valor (que já não lucrava ao empresário). Os dias não contados acusavam uma cifra que parecia um embuste, não cometido pelo dedicado artista. Fraudado pelo mundo, seu coração tornou-se pesado até a morte, não sem, antes, um inspetor notar aquela jaula – “peça perfeitamente aproveitável” – sem perceber no meio da palha podre o corpo definhado do artista . Este mundo onde tudo se transforma em mercadoria é onde reina a injustiça.
Como mencionamos a nostalgia por uma espécie de paraíso perdido, talvez seja pertinente atribuir a ela a inspiração kafkiana que direciona o olhar sobre um passado longínquo onde reinava uma outra justiça. O juízo que atravessa o olhar kafkiano provoca a postura crítica diante da “justiça” dos homens e de suas leis absurdas. Um olhar que, certamente, assim como em Benjamin, não descarta a exigência de um poder ordenador, desde que este não degenere em opressão. Aliás, poderíamos imaginar que fosse a nostalgia de um poder anterior à queda, pois não sintoniza também com o poder que imputa uma culpa congênita à raça adâmica. Uma espécie de protolei: a lei antes de ser escrita e que se acha contida num mundo fechado, num casulo indevassável onde o personagem kafkiano tenta entrar, ludibriado por portas que “mesmo abertas, vedam o acesso à lei ou levam a lugar nenhum”. A instância da lei em Kafka, “remete a uma época anterior à lei das doze tábuas, a um mundo primitivo, contra o qual a instituição do direito escrito representou uma das primeiras vitórias ”.
A incoerência das leis humanas é expressa na impossibilidade de sequer aproximar-se delas que foram feitas para todos, já que entre o anelante e o anelado existem inúmeros guardas, um mais poderoso que o outro. Estas verdades são percebidas pelo olhar suspeitoso e insubmisso de Kafka, o olhar do artista marginal que escandaliza. Olhos símiles aos benjaminianos que se voltam condolentes sobre os vencidos e incisivos sobre os vencedores. Olhos de “anjos necessários” que vêm (e vêem) de outra dimensão, estrangeiros angelicais que nos evoca um novo olhar, pluridimensional.
Kafka desejaria olhar para um mundo que não lhe fosse estranho. Sua obra foi uma tentativa de encontrar-se, situar-se num mundo que não provocasse o estranhamento tão angustiante. Na qualidade de vidente, buscava a identidade com o visível. Mas queria identificar-se com o todo e não apenas com os injustiçados, assim como ele. Gostaria que por seus olhos entrasse
... a imagem de um mundo feito de coexistências, coextensividades, simultaneidades, parentescos, implicações mútuas, afinidades, imbricações, entrelaçamentos, correspondências; em suma, um contexto de reversibilidade, palavra que é, não por acaso ... como ‘a verdade última’.
Nesse mundo a espessura da carne não deve ser temida como um obstáculo que separa o eu do outro, mas acolhida como um meio de comunicação. (BOSI, p.82).
Esta comunicação parecia impossível com um mundo que se lhe apresentava tão estranho. Tamanha dificuldade impunha-se também pela sensação de que o pai gigantesco estava deitado sobre o mapa-múndi impedindo o seu acesso. Situação que gerava enorme impotência, vencida pelo menos no campo da literatura, onde “sofria estados de clarividência”.
Contudo, não vemos na escrita kafkiana uma perscrutação do futuro. Ela se detém nas mazelas do seu presente, quando muito apoiado sobre a rememoração de um passado que se apresenta aos seus olhos como um horizonte distante, muito aquém do mundo mítico, sobre uma justiça que transcende o homem moderno, alienado, coisificado para projetar-se num passado imemorável. Um senso de justiça recolhido de outro poder e não dessa pseudojustiça do direito humano, mantenedora de um status que lhe convém na administração dos que lhe servem.Como nos diz Benjamin:
Um olhar dirigido apenas para as coisas mais próximas perceberá, quando muito, um movimento dialético de altos e baixos nas configurações do poder enquanto instituinte e mantenedor do direito (...) Deve ser rejeitado, porém, todo poder mítico, o poder instituinte do direito, que poder ser chamado de um poder que o homem põe (schaltende Gewalt). Igualmente vil é também o poder mantenedor do direito, o poder administrado (verwaltete Gewalt) que lhe serve. O poder divino, que é insígnia e chancela, jamais um meio de execução sagrada, pode ser chamado de um poder de que Deus dispõe (waltende Gewalt). (1986, p. 175).
Esta diferenciação que Benjamin faz entre as manifestações do poder vão, até certo ponto, de encontro ao pensamento exposto nas obras kafkianas, muito embora Kafka se manifeste de forma mais crítica com relação ao poder divino. No entanto, é interessante observar que, talvez pela origem judaica e pela relação ambígua que estes pensadores mantiveram com a tradição, essa postura rememorativa é própria do judeu que segue os ensinamentos da Torah. Para Kafka, assim como para o judeu, é proibido prever o futuro. Porém, vale ressaltar que o judeu não esvazia o futuro de qualquer significado: não o prevê, mas o espera numa espécie de preparação que se faz através da própria rememoração do passado e do olhar atento sobre o presente. Assim posicionado, o povo judeu espera abrir-se uma porta por onde poderá entrar o messias . Muito embora, Kafka um dia tenha dito: “O messias só virá quando o mundo já estiver salvo”.
Para os frankfurtianos aqui citados, parece mais plausível uma leitura redentora que se debruça sobre as rupturas do processo histórico, sobre a irrupção do totalmente outro, preparando para o imprevisto. O olhar deve se voltar sobre a superfície plana, desde que perceba as fendas onde se escondem, além de coisas más, possibilidades de mudança. Neste contexto crítico, existe um esforço por quebrar, destruir a imagem ilusória que nos passa a ideologia dominante, a fim de resgatar o que pede para ser salvo, resgatar a herança de uma possibilidade: salvar da razão deformada a boa razão. Em Kafka, não existe uma saída que conduza a esta salvação. No entanto, a permanência no seu universo, imposta por movimentos frustrados que incidem em aporia, expressa a realidade de um mundo que não tem resposta para o que é ser justo porque não conhece a lei escondida atrás de uma porta fechada. Lei que não só proíbe, como é o próprio lugar da proibição. Diante desta interdição não há uma saída real, resta permanecer e observar as possibilidades de salvar a justiça ou a boa razão, até que a morte feche a última porta.
Após esse percurso superficial sobre alguns aspectos kafkianos, devemos concordar com a suspeita adorniana sobre o olhar convencional. Mas, há a possibilidade de um olhar totalmente inocente? Talvez, os olhos do artista são os que mais se aproximem desta inocência. Mas, será mesmo isento de intenções? Nenhum olhar é! Seu mérito consiste em ter um ponto de vista distinto, que desloca a realidade e fixa o outro. Sua expressão carrega a marca da alteridade e se não atinge a precisão tão discutida por Adorno, tem, ao menos, o talento de mostrar o outro aos olhos do mesmo. Assim, a viagem ao mundo de Kafka requer um olhar estrangeiro preparado para o afastamento indispensável – num ato heróico de desreificação - que amplia a perspectiva e sucumbe ao espanto, ao estranhamento necessário que diferencia o indivíduo crítico do comum, tão conformado ao mundo em que vive.
O mundo apresentado por Kafka é um esboço do que se tornou o nosso. Basta percebermos que ele estendeu a mão ao que se encontrava nas fendas abismais e não podia ser visto por olhos turvados. Esta aparição, a principio, não atordoa justamente por causa da semelhança. Anders disse que nele o espantoso não espanta ninguém . Isto ocorre justamente porque nossa visão banalizou-se: passamos com naturalidade por entre os cadáveres, não temos compaixão pelas vítimas e aceitamos as injustiças. Só nos sentimos tocados pelo mundo kafkiano quando descobrimos que o que ele fez foi escarnecer dos nossos atos pequeno-burgueses. Seus personagens venais – assim como nós - agem com extrema naturalidade e impassividade diante dos acontecimentos mais absurdos. Diante deles levanta-se um agrimensor, um explorador, um Karl Rossman. São eles que reivindicam um outro olhar. Colocados em suas peles por Kafka, deveríamos, no mínimo, sermos provocados, até vermos que certas coisas são inaceitáveis e não devem ser presenciadas com naturalidade.
Nelson Samuel Porto Veratti
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