"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 5 de julho de 2011

O BEIJO DE NEO

UMA NOTA SOBRE MATRIX RELOADED

As minhas impressões sobre Matrix reloaded (EUA, 2003) são diversas. Os irmãos Wachowski mantiveram a qualidade dos efeitos especiais e trabalharam bem a expectativa criada pelo sucesso do primeiro filme. Mas, num primeiro instante, fiquei decepcionado com essa segunda parte: ela não tem a aura da primeira.
Nessa segunda parte da trilogia, o caráter de verossimilhança foi desfeito pela ausência de mediações que possibilitariam a aceitação de algumas cenas: o Neo que voa e que se liberta de uma centena de homens, por exemplo. No primeiro filme, os autores parecem ter tido um cuidado maior com os detalhes, tornando mais aceitáveis as peripécias do personagem. Talvez, essa continuação tenha sido vítima da sedução dos recursos visuais e, portanto, tenha abusado deles. Assim, a adrenalina gerada pela primeira luta vai perdendo o efeito e a partir da terceira os bocejos são quase inevitáveis. Mesmo assim, existem pontos de reflexão no filme que devem ser considerados.
Importa-nos os detalhes sugestivos do filme. Dentre eles, destaco a sacralização de Neo, reverenciado pelos habitantes de Zion. O caráter sagrado atribuído a ele origina-se nos resquícios de humanidade que singularizam sua pessoa. Num mundo virtual tão intenso, onde a racionalidade instrumental e a alienação superaram os limites, ele surge, no mínimo, como um ser estranho, capaz de exceder as potencialidades humanas justamente pela parcela de humanidade que o faz ser “o escolhido”. Esta característica humana, admitida pelo Arquiteto da Matrix, é também inexplicável ao seu criador.
As qualidades humanas de Neo que fogem ao controle da experiência – sobretudo da super-evoluída tecnologia – são encaradas pela média (a massa) como transcendentes e superam a realidade conhecida por ela. Sobre este ângulo, talvez a maior contribuição do filme seja o alerta sobre a raridade do humano que vem se acentuando a cada superação tecnológica. Por trás de todo o progresso da tecnologia subjaz, funesta, a regressão da condição humana, a ponto de pensarmos em "raridade". A confirmação disso sustenta-se nas passagens do filme em que as pessoas levam oferendas a Neo como se ele fosse um deus, remetendo-nos a um tempo mítico onde os homens rendiam devoção às forças inexplicáveis da natureza.


O ponto mais significativo para este comentário é a troca sugerida por Perséfone (a estonteante Monica Belluci): comprovando a raridade do humano, ela pede a Neo que a beije com amor, pois este sentimento lhe é muito remoto. A troca de um beijo por algo vital à manutenção do sistema é um sinal do valor de culto que é atribuído a uma raridade. Perséfone com todos os privilégios oriundos do poder de seu companheiro demonstra a “pobreza” de quem vive sem sentimentos, já que o maior deles foi extinto da face da Terra. O ósculo do Amor que conduziu ao chaveiro pode ser lido como a chave para libertação. Assim, a salvação do humano reside no humano e o Amor é a chave. Sugestão significativa nos tempos que correm...
Samuel Veratti

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