"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Primeira reflexão

Em Dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer defendem que o signo permanente do esclarecimento é a dominação sobre a natureza exterior e a repressão sobre a interior. Em suma: para dominar, o homem deve dominar-se, do Odisseu homérico ao moderno workaholic do sistema capitalista. Este processo, num estágio avançado, revela, por exemplo, os paradoxos do fenômeno capitalista, pois, embora forme a civilização, degenera em efeitos que denotam uma natureza bárbara, nada civilizada. A própria razão - que possibilitou a civilização - destrói a civilização, ao transformá-la em palco de atos (i)racionais, desumanos.


O processo de esclarecimento funda-se no desejo de auto-conservação diante de uma natureza externa. Ocorre que, ao dominar a natureza com um ato racional, o homem anula a verdadeira razão e privilegia a razão instrumental, ou seja, aquela que se volta apenas aos fins, não importando os meios. Na obra citada, Adorno e Horkheimer entendem que este caráter de utilidade – próprio do sistema capitalista – abarcou todas as instâncias, transformando tudo em mercadoria, cuja razão é ser útil. Assim, todas as esferas foram contaminadas por este fenômeno: a arte, por exemplo, virou mercadoria e move a indústria cultural, e a ciência moderna desvirtuou sua função ao abandonar a pretensão do conhecimento sobre o ser, preocupando-se mais com a utilidade mercadológica das suas descobertas.


Num outro plano, as ciências humanas pregam no deserto, já que seus objetos de pesquisa e suas descobertas no ramo do conhecimento não têm valor mercadológico. Uma prova disto é a porcentagem de bolsas de estudo que são destinadas às áreas de pesquisa: o menor incentivo encontra-se nas áreas ditas humanas, já que não rendem descobertas úteis ao mercado. E o que resta aos estudiosos dessa área desprezada? Abandoná-la? Jamais. Resta o sabor do último riso: a razão instrumental-capitalista afasta cada vez mais o homem do homem, ou melhor, o homem do humano.E nisso reside seu atual colapso.


No momento extremo desta sociedade doente, cujos valores invertidos têm dominado cada instância da existência, os desprezados serão lembrados, porque o princípio de uma solução só pode partir do entendimento sobre o ser humano e seu subseqüente resgate. Somente quem observa o homem com olhos atentos sobre o humano e não sobre a coisa-mercadoria em que ele foi transformado, vislumbra a chave para uma solução. Portanto, eis o paradoxo terrível a que sucumbirá o capitalismo: naquilo que para ele nada vale, encontra-se o segredo para a salvação do que realmente vale: o homem-humano.



Samuel Veratti

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