O termo indústria cultural, pelo que tudo indica, foi utilizado pela primeira vez por Adorno e Horkheimer na obra Dialética do esclarecimento, escrita por ambos no ano de 1947. Um dos segmentos desta obra chama-se justamente “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”. Entretanto, apesar do nosso texto tratar deste assunto, analisaremos um outro texto adorniano que recebe o título de A indústria cultural e que foi baseado em conferências radiofônicas proferidas por Adorno, em 1962. Ele está inserido num compêndio de ensaios sob o título Theodor W. Adorno – Sociologia, organizado por Gabriel Cohn em 1986.
O ensaio apresenta as características da indústria cultural e tece comentários sobre sua perniciosa influência, afirmando que ela inculca as idéias do status quo e substitui a consciência pelo conformismo. Suas palavras finais, interpretadas resumidamente, asseveram que ela é um sistema coercitivo e inflexível causador do efeito de anti-Esclarecimento sobre os indivíduos. Nesta asserção sobressaem dois conceitos que exploraremos: indústria cultural e esclarecimento. A primeira expressão foi usada em substituição à “cultura de massa” que Adorno e Horkheimer julgavam inadequada pelo fato de não condizer com a espontaneidade da arte popular, visto que se trata de um produto do sistema capitalista visando à auto-sustentação deste por meio da ideologia de consumo. Já o conceito “esclarecimento” tem sua origem em Kant, mas no pensamento adorniano adquire, também, uma nova concepção, além da kantiana.
Assim, a partir do último parágrafo do referido ensaio, apresentaremos algumas características do que seria, para Adorno, a indústria cultural e qual seria sua concepção de “esclarecimento”, a fim de tentarmos entender porque aquela engendra o anti-Esclarecimento. Para tanto, recorreremos à obra Dialética do esclarecimento, assim como a obras de outros autores.
Após este percurso inicial, emitiremos algumas observações sobre a pertinência das assertivas adornianas. Cientes de que não podemos perder de vista o momento em que foram engendradas, julgamos, no entanto, que suas elucubrações devem servir de apoio ou ponto de partida para refletirmos sobre nossas condições hodiernas, mesmo porque acreditamos que não se passa incólume pela leitura de Adorno. Seu pensamento foi julgado por muitos como “pessimista”, mas acreditamos que esta adjetivação (pessimista/otimista) é inoportuna diante do relativismo de determinadas situações. Seja como for, devemos buscar o distanciamento necessário, encarando os efeitos das diversas “realidades” sobre as pessoas. O próprio Benjamin, com sua visão mais positiva sobre os avanços da técnica (fotografia e cinema, por exemplo), defendeu o pessimismo entre os intelectuais: é melhor duvidar das coisas do que se acomodar a elas.
1. O Aufklärung de Kant a Adorno: breves palavras
Em Kant, “esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”(Kant 5, p.100). A necessidade de se fazer uso do próprio entendimento - o que caracterizaria o homem esclarecido - é muito bem defendida e argumentada por Kant que prioriza a emancipação do indivíduo através do uso de sua própria razão. Sob este aspecto da razão parece prevalecer a autonomia do homem em relação aos outros, ou seja, o estatuto da liberdade. Este é o uso que se deve fazer dela: aquele que pensa por si só é livre, autônomo1.
Bem, esta conceituação belíssima é sem dúvida o que norteia um pensador iluminista. Se observarmos que é este o conceito de razão que Adorno e Horkheimer querem resgatar na Dialética do esclarecimento, perceberemos sua herança iluminista: a razão, imanente no ser humano, deve indicar o caminho que leva à maioridade, à “coragem de fazer uso do próprio entendimento”.
Entretanto, Adorno e Horkheimer observam nos primórdios da civilização, partindo do exemplo do Odisseu homérico, o uso da razão como instrumento de domínio. A nomeação dos deuses seria o primeiro movimento na tentativa de dominar o desconhecido para afastar o medo que se tem dele. Impotente diante dos mistérios inexplicáveis da natureza, ao homem só resta entender o que é o objeto externo e estranho a ele. Neste esforço, formula conceitos e nomeia os seres com a intenção de melhor conhecê-los, pois, para ele, conhecer é dominar e o dominar afasta momentaneamente o medo.
Movido por este impulso primário, o homem faz uso indevido da razão, ou seja, ao invés de viver em harmonia com a natureza, numa troca respeitosa que propiciaria a sobrevivência, vê-se obrigado a dominá-la. Este impulso de dominação desenvolve – num estágio posterior - a chamada razão instrumental. Grosso modo, esta seria o olhar interessado sobre os recursos da natureza: não se olha mais para ela a fim de obter uma fruição estética e nem como extensão do cosmos, olha-se para transformá-la em proveito próprio. Este processo acentua-se quando tudo pode ser transformado em mercadoria e, sob os anseios capitalistas, não medem mais as conseqüências de seus atos e nem os meios que conduzem aos fins desejados. Assim, impera a razão instrumental que se volta para a exploração sistemática da natureza.
Dessarte, o caminho que, a priori, conduziria à libertação das superstições oriundas da inexplicabilidade diante das forças ameaçadoras da natureza, resultou numa separação radical entre sujeito (homem) e objeto (natureza). Esta separação, que estabeleceu definitivamente uma hierarquia entre dominador (senhor) e dominado (escravo), procede do medo daquele para com este, incrementado por interesses mercantis. Por extensão, todo e qualquer objeto (ser) que se apresenta ao sujeito como estranho, desconhecido, pode representar perigo, fator que leva à insegurança e que só se desfaz diante da dominação.Em suma: o homem só afasta o medo quando se torna “senhor”.
Como dissemos, o primeiro impulso de dominação é o estabelecimento dos conceitos, que não passam de “vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”(Adorno e Horkheimer, p.29). Além do mais, o conceito não dá conta da pluralidade e da multiplicidade do ser. Ele é simplesmente um instrumento arbitrário que permite o assenhoreamento sobre a realidade externa, seja ela a natureza ou o próximo. Assim, a razão que formulou o conceito pretende, também, desencantar o mundo dos mitos, fazendo um percurso de transição dele à técnica, que não objetiva a felicidade do ser humano, mas, sim, um método preciso de dominar a natureza. O aprimoramento da técnica é reverenciado pelo homem moderno como progresso, resultante do domínio da razão (logos) sobre a natureza (mito) produtora de encantos e ilusões. Estas, que alimentam a imaginação, são substituídas pelo saber que emancipa o homem.
O processo emancipador que vai desencantando o mundo em direção ao progresso da técnica de dominação é visto, por Adorno e Horkheimer, como “o signo de uma calamidade triunfal” (Idem, p.19). A técnica, como essência do saber, confere ao homem o poder “que não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo” (Idem, p.20). Portanto, se pensarmos que o esclarecimento nasce do uso da razão, concluímos que a dominação da natureza, a partir da razão que afastou as trevas da superstição (mitologia), é esclarecimento. No entanto, este fruto degenerado da razão é combatido o tempo todo por Adorno e Horkheimer e o que eles tentam resgatar é justamente aquela razão defendida pelo discurso kantiano.
Assim, notamos que o homem, na verdade, não presta a devida atenção sobre seus próprios atos. Ele se julga senhor do mundo, sendo que seu poder sustenta-se no privilégio da razão. Percebendo que suas técnicas transformam a natureza circundante em proveito próprio, a ciência, por exemplo, propaga o estabelecimento do saber como meio de descoberta sobre as particularidades da natureza a fim de “melhor prover e auxiliar a vida”, depreciando a busca do saber pelo simples deleite.
A propaganda da imediatidade e da utilidade do saber é reforçada pela escritura que proíbe e condena aquele que come o fruto da árvore edênica. Ocorre que a cultura do antiesclarecimento difundida por esta alegoria, apesar de desvalorizar o conhecimento aprazível, não consegue conter o impulso natural no ser humano de buscar o conhecimento, pois o ser ínfimo e desprotegido diante da infinitude e dos mistérios do universo tem no medo natural o seu propulsor. Portanto, não havendo como fugir a este movimento da razão, o homem, acuado entre os anseios naturais e os interditos sagrados, sobrevive na dependência de uma escolha que não refute o saber: conhecimento não deve satisfazer, deve tornar-se práxis, técnica. Esta, que se compõe de conceitos, regras e leis, reduz a multiplicidade do real à unidade mensurável que possibilita a ordenação de um mundo caótico. Para tanto, o número torna-se “o cânon do conhecimento” e a calculabilidade do mundo estabelece o reino das equivalências.
Enfim, neste universo plano, mensurável e unificado não existe espaço para as ilusões fugidias, não existe espaço para as artes. A ironia deste processo reside no fato de que o poder positivista é tão amplo que não teme mais o poder da arte. Esta perdeu a força junto com a autonomia, pois a sua desauratização foi efetivada pela indústria cultural. A “República” positivista moderna não sente necessidade de expulsar os poetas que foram desarmados por ela mesma e que não representam o menor perigo. A padronização e a massificação da cultura desauratizada impossibilita a autonomia do pensamento tanto de quem cria, como de quem consome a criação: aquele se rende ao mercado; este é condicionado e seduzido por ele.
2. Indústria cultural: instrumento de dominação e engodo
O raciocínio desenvolvido no tópico anterior antecede a lógica da identidade condenada veementemente por Adorno. Um dos passos radicais desse raciocínio adorniano foi aproximá-lo da lógica capitalista que modela o sujeito aos padrões de comportamento conformistas. Adorno entrevê, no sistema constituído pela indústria cultural, um meio de transformar tudo em idêntico, semelhante, ao mesmo tempo em que dissimula o estabelecimento da diferença. Os diversos veículos da indústria cultural (revistas, jornais, rádio, tv e cinema) formam um sistema e propagam a nota uníssona e hipnotizante que violenta as idiossincrasias porque camufla e dilui a multiplicidade do ser, padronizando-o como se fosse idêntico a todos os outros. Os sons e imagens monocórdicos da indústria cultural condicionam o comportamento mecânico e a repetição impensada, ou seja, o automatismo verificado, por exemplo, nas linhas de produção industrial. Com isto, o homem que devia ser libertado pelo esclarecimento, torna-se alienado e submisso ao controle alheio:
A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomada pela indústria. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente (...) Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação.(Adorno e Horkheimer, pp. 117 e 123).
Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural tem o poder de decompor as particularidades sensíveis e recompô-las, condicionando nossos sentidos antes mesmo que a percepção da realidade ocorra. Portanto, guiada por interesses escusos, ela não tem nada de inofensivo, pois age diretamente na formação psíquica dos indivíduos.
A violenta compactação do múltiplo deixa escapar inúmeras diferenças e o produto padronizado da indústria cultural acentua a identificação entre o universal e o particular. Assim, o sujeito vai sendo condicionado a enxergar somente as características comuns nos vários seres que se lhe apresentam. Com a percepção condicionada, não divisa as diferenças e fica à mercê de uma “ordenação arbitrária” do real, iludido pela fixação de um mundo verdadeiro. Este mundo de equivalências, de casos idênticos, parece-lhe mais simples, compreensível e calculável. Portanto, podemos inferir deste breve percurso que o impulso humano para a conceituação, além de uma tentativa de autopreservação diante do desconhecido, é também um recurso racional que acredita e busca conviver melhor com um mundo sob medida, embora falso. O lamentável é que além do auto-engano encontra-se o outro enganador. Enganar-se e ser enganado: seria este o segredo da adaptação ao mundo? Se atentarmos para o processo dialético do aparelho psíquico, observado por Freud, veremos que o ego já engana o id para melhor adaptar-se ao princípio de realidade, enquanto, no mundo externo, o caminho para o engodo não encontra obstáculos nos indivíduos que são menores.
Portanto, para Adorno, a indústria cultural opera o antiesclarecimento porque, além de ofuscar, não oferece elementos que emancipem o individuo e o tornem autônomo. Ao contrário, pela formação de uma falsa subjetividade, torna os indivíduos autômatos, moldados pela forma condicionante de um sistema perverso que se fortalece ao mesmo tempo em que se salvaguarda de qualquer reação emancipadora. Perante esta situação, podemos perceber a hipocrisia de um sistema que se autodenomina democrático. A sua maior falsidade consiste na pseudoliberdade dos cidadãos que vivem enredados por uma realidade tolhedora, antiesclarecedora. A chamada “democracia” passa a impressão de liberdade, mas, na verdade, o cidadão não é autônomo o suficiente para fazer a escolha que o beneficiaria: o sistema condiciona e direciona sua escolha sem que ele perceba.
A crítica adorniana a este sistema nasce de um pensamento dialético caracterizado pela “co-determinação recíproca entre o particular e o universal, a concepção de uma totalidade articulada, na qual partes e todo se definem mutuamente” (Gagnebin, p.94). Sendo o pensamento adorniano orientado por esta dialética - em que partes e todo se determinam reciprocamente - justifica-se sua preocupação com um sistema que manipula as partes e padroniza o todo. Para aqueles que não encaram dialeticamente a realidade, a história humana apresenta-se como uma sucessão linear de acontecimentos em direção ao progresso, sendo as desigualdades sociais apenas obras do destino e não do próprio homem.
Retomando o termo “esclarecimento”, em resumo percebemos que ele é usado sob duas perspectivas: a princípio no sentido kantiano, mas com a prefixação negativa (anti-Esclarecimento) contrariando a condição para a emancipação e a autonomia do indivíduo. Depois, na indústria cultural, é pensado como o foi na Dialética do esclarecimento, quer dizer, como resultado de uma busca de desencantamento do mundo denominada razão instrumental. Por meio de uma dialética perversa, a cultura massificada que é difundida passa a impressão do esclarecimento quando, na verdade, condiciona e perpetua o uso e a submissão à razão instrumental.
3. A permanência da vida danificada
Se olharmos para a indústria cultural como um dos tentáculos do sistema capitalista, fica difícil não cedermos à sedução do pensamento adorniano que manipula tão bem Kant, Hegel, Marx e Freud. Perguntamos, portanto, se a rejeição a essa teoria adorniana não seria, justamente, a “estratégia canhestra da sobrevivência” de indivíduos ainda não preparados para enredarem-se na amplidão de tamanho desastre. Na verdade, temos a impressão simplória de que o espanto é proporcional à condição de vida de cada um. Esta nossa simploriedade funda-se no pensamento marxista de que o sujeito histórico revolucionário não surgiria entre aqueles que vivem sob as benesses do capitalismo, salvas pouquíssimas exceções. Este pensamento pode ser objetado pelo fato de que o próprio Adorno beneficiava-se de uma herança burguesa e, portanto, sua comodidade não se coaduna à rebeldia expressa em suas obras, mas, por outro lado, sabemos que a dramaticidade do seu radicalismo tem como pano de fundo nada menos que o nazismo, o stalinismo e a condição de exilado e que tais fatos devem ter ampliado sobremaneira o seu espanto. Portanto, podemos nos perguntar: até onde chega o envolvimento daquele que não está com a vida tão danificada? Quando haverá interesse em mudar esta situação, se um mundo propicia e perpetua o outro? Temos como paradigmas os políticos que visitam “turisticamente” os mundos subumanos da miséria e, logo depois, retornam aos seus mundos confortáveis. Àquele que vive sob o mundo miserável, o pensamento adorniano não é tão radical assim, seria, antes, real. Ao mesmo tempo e paradoxalmente (ou não), sucumbir às tentações deste pensamento “pessimista” seria auto-aniquilar-se de vez e, como vimos, a sobrevivência depende da “estratégia canhestra” do auto-engano.
O indivíduo só percebe o desastre quando - além de estar no centro dele - possui o esclarecimento, no sentido kantiano. Enquanto ele for um “menor”, suportará sua condição e sua vida danificada crendo nas palavras do dominador (o governante, o padre e/ou a indústria cultural) que o fazem crer que esta vida foi traçada por um destino imutável, mas que no reino dos céus seu tesouro está guardado. Assim, a domesticação deste “admirável gado novo” perpetua o conforto de alguns que nunca quererão sair dele. Estabelece-se o círculo vicioso da dialética do condicionamento e da dominação.
Seria interessante notarmos que este estado de coisas parte da e permanece pela mentira. Ela se dá pelo mau uso do logos, ou seja, é a razão que manipula palavras e constrói um discurso iludente.Muito mais interessante é quando percebemos que este discurso iludente que evoluiu do lógos platônico é bem mais nocivo do que o mýthos homérico que nunca escondeu que proferia verdades e mentiras2. Uma coisa é a palavra que apresenta a mentira do mundo, outra é aquela que a compõe e a apresenta ao mundo.
O poder do logos (razão e palavra) é incontestável. Mas, por que usamo-lo de forma tão prejudicial? Vontade de poder? As astúcias da linguagem, que são mostradas por Rousseau em seu segundo Discurso, antecedem o uso da violência no processo de dominação e exemplificam o poder da palavra. A partir de então, vemos que esta nunca perdeu seu poder de comando:
O primeiro que, tendo demarcado um terreno, ousou dizer isto é meu e encontrou gente suficientemente simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as cercas ou tapando o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: Evitai de ouvir este impostor. Estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a Terra não é de ninguém. (Prado, p.15)
Aquela “gente suficientemente simples” é a que não saiu da menoridade. Se acreditarmos que a evolução da linguagem (do mito ao logos e deste à técnica) deu-se através de um aprimoramento de sons (grunhidos) e imagens (pictóricas e gestuais), levando-se em conta que a escrita seria, aproximadamente, a forma grafada (imagem) dos sons e que todos estes ingredientes (sons, imagens e palavras) compõem o produto final da indústria cultural (rádio/música, tv/cinema, jornais/revistas, etc) e que esta permanece nas mãos de uma elite que pode fazer uso indevido do logos (palavra e razão) para impedir “a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente“ (Adorno 2,p.99), vemos quão convincentes podem ser as palavras de Adorno.
Aquela palavra primeira que possibilitou a dominação de um sobre tantos, hoje impera com muito mais eficácia, pois todos os meios técnicos e de formação das consciências estão mais avançados. A televisão que invade bilhões de lares dispensa os antigos e inflamados discursos em palanques que atingiam a uma parcela muitíssimo menor da população. Assim, a indústria cultural é a vitrine dos poderes da palavra que produziram e produzem tantas injustiças. Os olhos e ouvidos que se encantam com esta vitrine estão sendo moldados por um padrão único de condicionamento: antiesclarecer é automatizar.
Este sistema é perverso e sutil. Quando suas estratégias tornam-se inerentes à produção cultural, tendo sua eficiência intensificada pelas particularidades da arte e aprimoradas pela mais alta tecnologia, camufla-se muito bem o autor (o capital). Este estado de coisas permite até a crítica aos seus próprios recursos, já que eles são fortíssimos. Assim, o dominador pode passar a impressão, através de um discurso acalorado, de que se condói do sofrimento do povo, pois este mesmo povo está condicionado a crer que as coisas são assim mesmo. Isto se deve à mudança das estratégias de repressão e condicionamento que evoluíram da violência física à violência psicológica: uma se dá pelas armas; a outra por imagens, sons e palavras.
Enquanto isso, nas escolas continua-se a estimular a competição e não a cooperação e quando as crianças chegam em casa e ligam a televisão, deparam-se com mundos lúdicos onde, sempre, os mais fortes vencem os fracos. Assim, a criança desprivilegiada - que compõe a base da pirâmide social - crescerá e formará seu ego assumindo a posição do mais fraco que o desenho colorido lhe ensinou ser sempre o que perde. Seu espírito - alimentado por esta forte ilusão - retorna, no outro dia, ao banco escolar onde fica à mercê de um sistema de ensino hipócrita, pseudopreocupado com sua educação e que, na verdade, o prepara para mantê-lo subalterno, enquanto outras crianças, após um belo breakfast, são levadas por chauffers e seguranças às escolas que formarão a elite do futuro. Os pais daqueles - paupérrimos freqüentadores de supletivos e telecursos na rede pública de ensino - divertem-se com programas sensacionalistas apresentados na tv convencional que banaliza a violência e a miséria. Enquanto, não muito longe dali, prósperos pais brindam ao som da música clássica, vão ao teatro, escolhem livros numa imensa estante ou mudam o canal da tv por assinatura.
Essa realidade, preterida por tantos, demonstra que a educação passa a não ser a mesma para todos, pois temos, de um lado, a educação do senhor que o levará a ser dominador e, de outro, a educação do escravo que o levará a ser dominado. A distinção educativa efetuada pela indústria cultural pode ser resumida com as palavras de Duarte:
Sob esses aspectos, destaca-se na indústria cultural uma hierarquização dos diversos produtos quanto à qualidade, no sentido de servir uma quantificação completa dos seus procedimentos. Distinções que se fazem, por exemplo, entre filmes A ou B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, não têm a ver propriamente com seu conteúdo, mas com a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. (Duarte, p.39)
Após o breve percurso que fizemos, o fragmento de onde partiram nossos comentários enfim é alcançado. Nele, além de identificarmos os temas que discutimos, observaremos a acusação final da desumanidade de um sistema que transforma o corpo social em massa, ao colocar seus indivíduos sob a mesma medida e impedi-los de alcançar a maioridade a qual já estariam aptos, sobretudo se as técnicas fossem utilizadas de maneira positiva, ou seja, na formação emancipatória desejada por Benjamin e por nós. Pusemo-lo aqui porque acreditamos que finaliza muito bem nosso texto, assim como finalizou o de Adorno, resguardadas as devidas e imensas distâncias intelectuais que separam seus respectivos autores.
O efeito de conjunto da indústria cultural é o de um anti-Esclarecimento (anti-Aufklärung); nela, como Horkheimer e eu dissemos, o Esclarecimento (Aufklärung), a saber, a dominação técnica progressiva da natureza, se transforma em engodo das massas, em meio de tolher sua consciência. Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente. Mas estes seriam, contudo, a condição prévia de uma sociedade democrática, que só pode se manter e se desenvolver através de homens que atingiram a maioridade (mündig). Se as massas são injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria indústria cultural que as transforma em massas que, depois, despreza e impede de atingir a emancipação, para a qual os homens mesmos estariam tão maduros quanto as forças produtivas da época o permitiriam.(Adorno 2, p.99, trad. de Amélia Cohn, modificada por J. M. Gagnebin).
Samuel Veratti
Referências bibliográficas
1. ADORNO, T.W. e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
2. ADORNO,Theodor W. Sociologia. Org. e trad. por Gabriel Cohn. São Paulo: Ática, 1986.
3. DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer & A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
4. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
5. KANT, Immanuel.Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1974.
6. PRADO JR, Bento. “A força da voz e a violência das coisas”, in ROUSSEAU, J.J. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
7. TORRANO, Jaa. “O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo”, in Boletim do CPA, nº 4, Campinas: Unicamp, Julho/ Dezembro de 1997.
O ensaio apresenta as características da indústria cultural e tece comentários sobre sua perniciosa influência, afirmando que ela inculca as idéias do status quo e substitui a consciência pelo conformismo. Suas palavras finais, interpretadas resumidamente, asseveram que ela é um sistema coercitivo e inflexível causador do efeito de anti-Esclarecimento sobre os indivíduos. Nesta asserção sobressaem dois conceitos que exploraremos: indústria cultural e esclarecimento. A primeira expressão foi usada em substituição à “cultura de massa” que Adorno e Horkheimer julgavam inadequada pelo fato de não condizer com a espontaneidade da arte popular, visto que se trata de um produto do sistema capitalista visando à auto-sustentação deste por meio da ideologia de consumo. Já o conceito “esclarecimento” tem sua origem em Kant, mas no pensamento adorniano adquire, também, uma nova concepção, além da kantiana.
Assim, a partir do último parágrafo do referido ensaio, apresentaremos algumas características do que seria, para Adorno, a indústria cultural e qual seria sua concepção de “esclarecimento”, a fim de tentarmos entender porque aquela engendra o anti-Esclarecimento. Para tanto, recorreremos à obra Dialética do esclarecimento, assim como a obras de outros autores.
Após este percurso inicial, emitiremos algumas observações sobre a pertinência das assertivas adornianas. Cientes de que não podemos perder de vista o momento em que foram engendradas, julgamos, no entanto, que suas elucubrações devem servir de apoio ou ponto de partida para refletirmos sobre nossas condições hodiernas, mesmo porque acreditamos que não se passa incólume pela leitura de Adorno. Seu pensamento foi julgado por muitos como “pessimista”, mas acreditamos que esta adjetivação (pessimista/otimista) é inoportuna diante do relativismo de determinadas situações. Seja como for, devemos buscar o distanciamento necessário, encarando os efeitos das diversas “realidades” sobre as pessoas. O próprio Benjamin, com sua visão mais positiva sobre os avanços da técnica (fotografia e cinema, por exemplo), defendeu o pessimismo entre os intelectuais: é melhor duvidar das coisas do que se acomodar a elas.
1. O Aufklärung de Kant a Adorno: breves palavras
Em Kant, “esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”(Kant 5, p.100). A necessidade de se fazer uso do próprio entendimento - o que caracterizaria o homem esclarecido - é muito bem defendida e argumentada por Kant que prioriza a emancipação do indivíduo através do uso de sua própria razão. Sob este aspecto da razão parece prevalecer a autonomia do homem em relação aos outros, ou seja, o estatuto da liberdade. Este é o uso que se deve fazer dela: aquele que pensa por si só é livre, autônomo1.
Bem, esta conceituação belíssima é sem dúvida o que norteia um pensador iluminista. Se observarmos que é este o conceito de razão que Adorno e Horkheimer querem resgatar na Dialética do esclarecimento, perceberemos sua herança iluminista: a razão, imanente no ser humano, deve indicar o caminho que leva à maioridade, à “coragem de fazer uso do próprio entendimento”.
Entretanto, Adorno e Horkheimer observam nos primórdios da civilização, partindo do exemplo do Odisseu homérico, o uso da razão como instrumento de domínio. A nomeação dos deuses seria o primeiro movimento na tentativa de dominar o desconhecido para afastar o medo que se tem dele. Impotente diante dos mistérios inexplicáveis da natureza, ao homem só resta entender o que é o objeto externo e estranho a ele. Neste esforço, formula conceitos e nomeia os seres com a intenção de melhor conhecê-los, pois, para ele, conhecer é dominar e o dominar afasta momentaneamente o medo.
Movido por este impulso primário, o homem faz uso indevido da razão, ou seja, ao invés de viver em harmonia com a natureza, numa troca respeitosa que propiciaria a sobrevivência, vê-se obrigado a dominá-la. Este impulso de dominação desenvolve – num estágio posterior - a chamada razão instrumental. Grosso modo, esta seria o olhar interessado sobre os recursos da natureza: não se olha mais para ela a fim de obter uma fruição estética e nem como extensão do cosmos, olha-se para transformá-la em proveito próprio. Este processo acentua-se quando tudo pode ser transformado em mercadoria e, sob os anseios capitalistas, não medem mais as conseqüências de seus atos e nem os meios que conduzem aos fins desejados. Assim, impera a razão instrumental que se volta para a exploração sistemática da natureza.
Dessarte, o caminho que, a priori, conduziria à libertação das superstições oriundas da inexplicabilidade diante das forças ameaçadoras da natureza, resultou numa separação radical entre sujeito (homem) e objeto (natureza). Esta separação, que estabeleceu definitivamente uma hierarquia entre dominador (senhor) e dominado (escravo), procede do medo daquele para com este, incrementado por interesses mercantis. Por extensão, todo e qualquer objeto (ser) que se apresenta ao sujeito como estranho, desconhecido, pode representar perigo, fator que leva à insegurança e que só se desfaz diante da dominação.Em suma: o homem só afasta o medo quando se torna “senhor”.
Como dissemos, o primeiro impulso de dominação é o estabelecimento dos conceitos, que não passam de “vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”(Adorno e Horkheimer, p.29). Além do mais, o conceito não dá conta da pluralidade e da multiplicidade do ser. Ele é simplesmente um instrumento arbitrário que permite o assenhoreamento sobre a realidade externa, seja ela a natureza ou o próximo. Assim, a razão que formulou o conceito pretende, também, desencantar o mundo dos mitos, fazendo um percurso de transição dele à técnica, que não objetiva a felicidade do ser humano, mas, sim, um método preciso de dominar a natureza. O aprimoramento da técnica é reverenciado pelo homem moderno como progresso, resultante do domínio da razão (logos) sobre a natureza (mito) produtora de encantos e ilusões. Estas, que alimentam a imaginação, são substituídas pelo saber que emancipa o homem.
O processo emancipador que vai desencantando o mundo em direção ao progresso da técnica de dominação é visto, por Adorno e Horkheimer, como “o signo de uma calamidade triunfal” (Idem, p.19). A técnica, como essência do saber, confere ao homem o poder “que não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo” (Idem, p.20). Portanto, se pensarmos que o esclarecimento nasce do uso da razão, concluímos que a dominação da natureza, a partir da razão que afastou as trevas da superstição (mitologia), é esclarecimento. No entanto, este fruto degenerado da razão é combatido o tempo todo por Adorno e Horkheimer e o que eles tentam resgatar é justamente aquela razão defendida pelo discurso kantiano.
Assim, notamos que o homem, na verdade, não presta a devida atenção sobre seus próprios atos. Ele se julga senhor do mundo, sendo que seu poder sustenta-se no privilégio da razão. Percebendo que suas técnicas transformam a natureza circundante em proveito próprio, a ciência, por exemplo, propaga o estabelecimento do saber como meio de descoberta sobre as particularidades da natureza a fim de “melhor prover e auxiliar a vida”, depreciando a busca do saber pelo simples deleite.
A propaganda da imediatidade e da utilidade do saber é reforçada pela escritura que proíbe e condena aquele que come o fruto da árvore edênica. Ocorre que a cultura do antiesclarecimento difundida por esta alegoria, apesar de desvalorizar o conhecimento aprazível, não consegue conter o impulso natural no ser humano de buscar o conhecimento, pois o ser ínfimo e desprotegido diante da infinitude e dos mistérios do universo tem no medo natural o seu propulsor. Portanto, não havendo como fugir a este movimento da razão, o homem, acuado entre os anseios naturais e os interditos sagrados, sobrevive na dependência de uma escolha que não refute o saber: conhecimento não deve satisfazer, deve tornar-se práxis, técnica. Esta, que se compõe de conceitos, regras e leis, reduz a multiplicidade do real à unidade mensurável que possibilita a ordenação de um mundo caótico. Para tanto, o número torna-se “o cânon do conhecimento” e a calculabilidade do mundo estabelece o reino das equivalências.
Enfim, neste universo plano, mensurável e unificado não existe espaço para as ilusões fugidias, não existe espaço para as artes. A ironia deste processo reside no fato de que o poder positivista é tão amplo que não teme mais o poder da arte. Esta perdeu a força junto com a autonomia, pois a sua desauratização foi efetivada pela indústria cultural. A “República” positivista moderna não sente necessidade de expulsar os poetas que foram desarmados por ela mesma e que não representam o menor perigo. A padronização e a massificação da cultura desauratizada impossibilita a autonomia do pensamento tanto de quem cria, como de quem consome a criação: aquele se rende ao mercado; este é condicionado e seduzido por ele.
2. Indústria cultural: instrumento de dominação e engodo
O raciocínio desenvolvido no tópico anterior antecede a lógica da identidade condenada veementemente por Adorno. Um dos passos radicais desse raciocínio adorniano foi aproximá-lo da lógica capitalista que modela o sujeito aos padrões de comportamento conformistas. Adorno entrevê, no sistema constituído pela indústria cultural, um meio de transformar tudo em idêntico, semelhante, ao mesmo tempo em que dissimula o estabelecimento da diferença. Os diversos veículos da indústria cultural (revistas, jornais, rádio, tv e cinema) formam um sistema e propagam a nota uníssona e hipnotizante que violenta as idiossincrasias porque camufla e dilui a multiplicidade do ser, padronizando-o como se fosse idêntico a todos os outros. Os sons e imagens monocórdicos da indústria cultural condicionam o comportamento mecânico e a repetição impensada, ou seja, o automatismo verificado, por exemplo, nas linhas de produção industrial. Com isto, o homem que devia ser libertado pelo esclarecimento, torna-se alienado e submisso ao controle alheio:
A função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomada pela indústria. O esquematismo é o primeiro serviço prestado por ela ao cliente (...) Ao subordinar da mesma maneira todos os setores da produção espiritual a este fim único: ocupar os sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, até a chegada ao relógio de ponto, na manhã seguinte, com o selo da tarefa de que devem se ocupar durante o dia, essa subsunção realiza ironicamente o conceito da cultura unitária que os filósofos da personalidade opunham à massificação.(Adorno e Horkheimer, pp. 117 e 123).
Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural tem o poder de decompor as particularidades sensíveis e recompô-las, condicionando nossos sentidos antes mesmo que a percepção da realidade ocorra. Portanto, guiada por interesses escusos, ela não tem nada de inofensivo, pois age diretamente na formação psíquica dos indivíduos.
A violenta compactação do múltiplo deixa escapar inúmeras diferenças e o produto padronizado da indústria cultural acentua a identificação entre o universal e o particular. Assim, o sujeito vai sendo condicionado a enxergar somente as características comuns nos vários seres que se lhe apresentam. Com a percepção condicionada, não divisa as diferenças e fica à mercê de uma “ordenação arbitrária” do real, iludido pela fixação de um mundo verdadeiro. Este mundo de equivalências, de casos idênticos, parece-lhe mais simples, compreensível e calculável. Portanto, podemos inferir deste breve percurso que o impulso humano para a conceituação, além de uma tentativa de autopreservação diante do desconhecido, é também um recurso racional que acredita e busca conviver melhor com um mundo sob medida, embora falso. O lamentável é que além do auto-engano encontra-se o outro enganador. Enganar-se e ser enganado: seria este o segredo da adaptação ao mundo? Se atentarmos para o processo dialético do aparelho psíquico, observado por Freud, veremos que o ego já engana o id para melhor adaptar-se ao princípio de realidade, enquanto, no mundo externo, o caminho para o engodo não encontra obstáculos nos indivíduos que são menores.
Portanto, para Adorno, a indústria cultural opera o antiesclarecimento porque, além de ofuscar, não oferece elementos que emancipem o individuo e o tornem autônomo. Ao contrário, pela formação de uma falsa subjetividade, torna os indivíduos autômatos, moldados pela forma condicionante de um sistema perverso que se fortalece ao mesmo tempo em que se salvaguarda de qualquer reação emancipadora. Perante esta situação, podemos perceber a hipocrisia de um sistema que se autodenomina democrático. A sua maior falsidade consiste na pseudoliberdade dos cidadãos que vivem enredados por uma realidade tolhedora, antiesclarecedora. A chamada “democracia” passa a impressão de liberdade, mas, na verdade, o cidadão não é autônomo o suficiente para fazer a escolha que o beneficiaria: o sistema condiciona e direciona sua escolha sem que ele perceba.
A crítica adorniana a este sistema nasce de um pensamento dialético caracterizado pela “co-determinação recíproca entre o particular e o universal, a concepção de uma totalidade articulada, na qual partes e todo se definem mutuamente” (Gagnebin, p.94). Sendo o pensamento adorniano orientado por esta dialética - em que partes e todo se determinam reciprocamente - justifica-se sua preocupação com um sistema que manipula as partes e padroniza o todo. Para aqueles que não encaram dialeticamente a realidade, a história humana apresenta-se como uma sucessão linear de acontecimentos em direção ao progresso, sendo as desigualdades sociais apenas obras do destino e não do próprio homem.
Retomando o termo “esclarecimento”, em resumo percebemos que ele é usado sob duas perspectivas: a princípio no sentido kantiano, mas com a prefixação negativa (anti-Esclarecimento) contrariando a condição para a emancipação e a autonomia do indivíduo. Depois, na indústria cultural, é pensado como o foi na Dialética do esclarecimento, quer dizer, como resultado de uma busca de desencantamento do mundo denominada razão instrumental. Por meio de uma dialética perversa, a cultura massificada que é difundida passa a impressão do esclarecimento quando, na verdade, condiciona e perpetua o uso e a submissão à razão instrumental.
3. A permanência da vida danificada
Se olharmos para a indústria cultural como um dos tentáculos do sistema capitalista, fica difícil não cedermos à sedução do pensamento adorniano que manipula tão bem Kant, Hegel, Marx e Freud. Perguntamos, portanto, se a rejeição a essa teoria adorniana não seria, justamente, a “estratégia canhestra da sobrevivência” de indivíduos ainda não preparados para enredarem-se na amplidão de tamanho desastre. Na verdade, temos a impressão simplória de que o espanto é proporcional à condição de vida de cada um. Esta nossa simploriedade funda-se no pensamento marxista de que o sujeito histórico revolucionário não surgiria entre aqueles que vivem sob as benesses do capitalismo, salvas pouquíssimas exceções. Este pensamento pode ser objetado pelo fato de que o próprio Adorno beneficiava-se de uma herança burguesa e, portanto, sua comodidade não se coaduna à rebeldia expressa em suas obras, mas, por outro lado, sabemos que a dramaticidade do seu radicalismo tem como pano de fundo nada menos que o nazismo, o stalinismo e a condição de exilado e que tais fatos devem ter ampliado sobremaneira o seu espanto. Portanto, podemos nos perguntar: até onde chega o envolvimento daquele que não está com a vida tão danificada? Quando haverá interesse em mudar esta situação, se um mundo propicia e perpetua o outro? Temos como paradigmas os políticos que visitam “turisticamente” os mundos subumanos da miséria e, logo depois, retornam aos seus mundos confortáveis. Àquele que vive sob o mundo miserável, o pensamento adorniano não é tão radical assim, seria, antes, real. Ao mesmo tempo e paradoxalmente (ou não), sucumbir às tentações deste pensamento “pessimista” seria auto-aniquilar-se de vez e, como vimos, a sobrevivência depende da “estratégia canhestra” do auto-engano.
O indivíduo só percebe o desastre quando - além de estar no centro dele - possui o esclarecimento, no sentido kantiano. Enquanto ele for um “menor”, suportará sua condição e sua vida danificada crendo nas palavras do dominador (o governante, o padre e/ou a indústria cultural) que o fazem crer que esta vida foi traçada por um destino imutável, mas que no reino dos céus seu tesouro está guardado. Assim, a domesticação deste “admirável gado novo” perpetua o conforto de alguns que nunca quererão sair dele. Estabelece-se o círculo vicioso da dialética do condicionamento e da dominação.
Seria interessante notarmos que este estado de coisas parte da e permanece pela mentira. Ela se dá pelo mau uso do logos, ou seja, é a razão que manipula palavras e constrói um discurso iludente.Muito mais interessante é quando percebemos que este discurso iludente que evoluiu do lógos platônico é bem mais nocivo do que o mýthos homérico que nunca escondeu que proferia verdades e mentiras2. Uma coisa é a palavra que apresenta a mentira do mundo, outra é aquela que a compõe e a apresenta ao mundo.
O poder do logos (razão e palavra) é incontestável. Mas, por que usamo-lo de forma tão prejudicial? Vontade de poder? As astúcias da linguagem, que são mostradas por Rousseau em seu segundo Discurso, antecedem o uso da violência no processo de dominação e exemplificam o poder da palavra. A partir de então, vemos que esta nunca perdeu seu poder de comando:
O primeiro que, tendo demarcado um terreno, ousou dizer isto é meu e encontrou gente suficientemente simples para acreditar nisso, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantas misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as cercas ou tapando o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: Evitai de ouvir este impostor. Estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a Terra não é de ninguém. (Prado, p.15)
Aquela “gente suficientemente simples” é a que não saiu da menoridade. Se acreditarmos que a evolução da linguagem (do mito ao logos e deste à técnica) deu-se através de um aprimoramento de sons (grunhidos) e imagens (pictóricas e gestuais), levando-se em conta que a escrita seria, aproximadamente, a forma grafada (imagem) dos sons e que todos estes ingredientes (sons, imagens e palavras) compõem o produto final da indústria cultural (rádio/música, tv/cinema, jornais/revistas, etc) e que esta permanece nas mãos de uma elite que pode fazer uso indevido do logos (palavra e razão) para impedir “a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente“ (Adorno 2,p.99), vemos quão convincentes podem ser as palavras de Adorno.
Aquela palavra primeira que possibilitou a dominação de um sobre tantos, hoje impera com muito mais eficácia, pois todos os meios técnicos e de formação das consciências estão mais avançados. A televisão que invade bilhões de lares dispensa os antigos e inflamados discursos em palanques que atingiam a uma parcela muitíssimo menor da população. Assim, a indústria cultural é a vitrine dos poderes da palavra que produziram e produzem tantas injustiças. Os olhos e ouvidos que se encantam com esta vitrine estão sendo moldados por um padrão único de condicionamento: antiesclarecer é automatizar.
Este sistema é perverso e sutil. Quando suas estratégias tornam-se inerentes à produção cultural, tendo sua eficiência intensificada pelas particularidades da arte e aprimoradas pela mais alta tecnologia, camufla-se muito bem o autor (o capital). Este estado de coisas permite até a crítica aos seus próprios recursos, já que eles são fortíssimos. Assim, o dominador pode passar a impressão, através de um discurso acalorado, de que se condói do sofrimento do povo, pois este mesmo povo está condicionado a crer que as coisas são assim mesmo. Isto se deve à mudança das estratégias de repressão e condicionamento que evoluíram da violência física à violência psicológica: uma se dá pelas armas; a outra por imagens, sons e palavras.
Enquanto isso, nas escolas continua-se a estimular a competição e não a cooperação e quando as crianças chegam em casa e ligam a televisão, deparam-se com mundos lúdicos onde, sempre, os mais fortes vencem os fracos. Assim, a criança desprivilegiada - que compõe a base da pirâmide social - crescerá e formará seu ego assumindo a posição do mais fraco que o desenho colorido lhe ensinou ser sempre o que perde. Seu espírito - alimentado por esta forte ilusão - retorna, no outro dia, ao banco escolar onde fica à mercê de um sistema de ensino hipócrita, pseudopreocupado com sua educação e que, na verdade, o prepara para mantê-lo subalterno, enquanto outras crianças, após um belo breakfast, são levadas por chauffers e seguranças às escolas que formarão a elite do futuro. Os pais daqueles - paupérrimos freqüentadores de supletivos e telecursos na rede pública de ensino - divertem-se com programas sensacionalistas apresentados na tv convencional que banaliza a violência e a miséria. Enquanto, não muito longe dali, prósperos pais brindam ao som da música clássica, vão ao teatro, escolhem livros numa imensa estante ou mudam o canal da tv por assinatura.
Essa realidade, preterida por tantos, demonstra que a educação passa a não ser a mesma para todos, pois temos, de um lado, a educação do senhor que o levará a ser dominador e, de outro, a educação do escravo que o levará a ser dominado. A distinção educativa efetuada pela indústria cultural pode ser resumida com as palavras de Duarte:
Sob esses aspectos, destaca-se na indústria cultural uma hierarquização dos diversos produtos quanto à qualidade, no sentido de servir uma quantificação completa dos seus procedimentos. Distinções que se fazem, por exemplo, entre filmes A ou B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, não têm a ver propriamente com seu conteúdo, mas com a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. (Duarte, p.39)
Após o breve percurso que fizemos, o fragmento de onde partiram nossos comentários enfim é alcançado. Nele, além de identificarmos os temas que discutimos, observaremos a acusação final da desumanidade de um sistema que transforma o corpo social em massa, ao colocar seus indivíduos sob a mesma medida e impedi-los de alcançar a maioridade a qual já estariam aptos, sobretudo se as técnicas fossem utilizadas de maneira positiva, ou seja, na formação emancipatória desejada por Benjamin e por nós. Pusemo-lo aqui porque acreditamos que finaliza muito bem nosso texto, assim como finalizou o de Adorno, resguardadas as devidas e imensas distâncias intelectuais que separam seus respectivos autores.
O efeito de conjunto da indústria cultural é o de um anti-Esclarecimento (anti-Aufklärung); nela, como Horkheimer e eu dissemos, o Esclarecimento (Aufklärung), a saber, a dominação técnica progressiva da natureza, se transforma em engodo das massas, em meio de tolher sua consciência. Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente. Mas estes seriam, contudo, a condição prévia de uma sociedade democrática, que só pode se manter e se desenvolver através de homens que atingiram a maioridade (mündig). Se as massas são injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria indústria cultural que as transforma em massas que, depois, despreza e impede de atingir a emancipação, para a qual os homens mesmos estariam tão maduros quanto as forças produtivas da época o permitiriam.(Adorno 2, p.99, trad. de Amélia Cohn, modificada por J. M. Gagnebin).
Samuel Veratti
Referências bibliográficas
1. ADORNO, T.W. e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
2. ADORNO,Theodor W. Sociologia. Org. e trad. por Gabriel Cohn. São Paulo: Ática, 1986.
3. DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer & A dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
4. GAGNEBIN, Jeanne Marie. Sete aulas sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
5. KANT, Immanuel.Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1974.
6. PRADO JR, Bento. “A força da voz e a violência das coisas”, in ROUSSEAU, J.J. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
7. TORRANO, Jaa. “O (conceito de) mito em Homero e Hesíodo”, in Boletim do CPA, nº 4, Campinas: Unicamp, Julho/ Dezembro de 1997.
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