Quem
pensa por si mesmo é livre
E
ser livre é coisa muito sériaNão se pode fechar os olhos
Não se pode olhar pra trás
Sem se aprender alguma coisa pro futuro.
(Renato Russo)
Vivemos o momento de transição de um
paradigma humano. Muitos se perguntam sobre qual será o resultado deste homem
que está em processo. Mais profundamente, como será a espécie humana?
Certamente, qualquer tentativa de resposta é especulativa, quase uma pretensão
profética. Mas não nos devemos perguntar?
As especulações oscilam entre o otimismo e o
pessimismo. Os otimistas costumam lidar com as mudanças de forma tranquila,
acreditando que a história da humanidade já nos deu inúmeras provas de que o
homem se transforma e avança. Costumam se apoiar também sobre o fato de que em
todas as épocas houve um embate entre o novo e o velho, sendo que a visão
fatalista sempre coube a este. Assim, concluem que não houve um passado melhor
e o futuro não foi tão assustador como queriam fazer crer.
Diante disso, o discurso fatalista do
pessimismo soa como uma ladainha enfadonha e inútil. O pessimista tende a
elaborar sua análise embasado no contraste entre seus valores e os que estão se
modelando. E para ele, os novos valores assombram porque compõem um pontilhado
nada promissor. Este observador pessimista tem total razão, razão parcial ou
está plenamente equivocado?
Se considerarmos que, realmente, a passagem
do tempo foi nos mostrando que muito do que era demonizado pelos fatalistas do
passado não se concretizou, não podemos dar total razão ao fatalista de hoje.
Mas também, se considerarmos o risco de uma visão positivista, cuja crença se
apoia no determinismo entre causa e efeito, tendemos a afirmar que toda
previsão pessimista falhará, como muitas do passado falharam. Portanto, resta-nos
uma possibilidade: acatarmos a parcialidade
da razão pessimista.
Sob essa escolha, como devemos prosseguir?
Talvez o mais sensato fosse a busca de um equilíbrio, que só poderia ser
alcançado pelo diálogo entre o velho e o novo. Ocorre que muitas especulações
teóricas têm nos apontado a mesma aporia: a linguagem do novo não é a mesma do
velho. A língua dos educadores (pais, professores, filósofos) é um novo latim:
uma língua morta. Mas o que matou essa língua? Que fenômeno rompeu o canal de
comunicação entre as gerações? Teria sido a mudança dos signos? Da palavra para
a imagem? O novo ser humano prescindirá totalmente da palavra?
Para que o velho pudesse auxiliar nesse
momento de transição paradigmática, teria que ter uma linguagem que acessasse o
sistema cognitivo do novo. Para colaborar neste processo, compartilhando a
experiência adquirida, ajudando a sopesar os prós e os contras, temperando a
imaturidade com a sabedoria de vida, é necessária a reciprocidade da compreensão.
No entanto, o que temos é um papo de surdo e mudo.
Samuel Veratti
Meu amigo, mesmo que muitos estejam surdos, alguns poucos escutam. Às vezes retrucam, criticam, mas ficam com a pulguinha incomodando atrás da orelha. Eu, muitas vezes, imaginei que soltava palavras ao vento, mas a vida tem me mostrado que, um pouco fica, um pouco do que diz o velho, fica na mente do novo. E o que fica, aparece aqui e ali, nas atitudes e na vida de alguns que pareciam surdos. Nunca devemos deixar de lançar sementes, algum solo razoável podem fazê-las brotar.
ResponderExcluirAcho que a transformação da sociedade se traduz pela combinação de dois processos.
ResponderExcluirO primeiro, de caráter absoluto, é crescente, cumulativo e transformador. Se fosse representado num gráfico em função do tempo, seria uma linha crescente representando a evolução - uma reta mais ou menos inclinada ou uma exponencial. São inegáveis as transformações positivas da civilização, desde a "pedra lascada" até a sociedade contemporânea.
O outro processo é relativo, com altos e baixos. Reflete os progressos científicos, as técnicas e as habilidades adquiridas, que podem beneficiar muitos, mas também ser utilizados em malefícios contra outros tantos. Reflete ainda os costumes e as crenças, que também podem implicar de forma positiva ou negativa, assim como as ações políticas, religiosas e ideológicas. Se fosse representado graficamente, seria uma senoide - altos e baixos intercalados.
Combinando esses dois processos, temos uma tendência evolutiva com altos e baixos - mas evolutiva em sua resultante. Isso, obviamente, se reflete na cultura e nas artes, assim como nas formas de expressão de um povo.
Creio que a revolução tecnológica, representada pela Era da Informação, seja um ponto de inflexão dessa senoide descrita. Espero que seja um período de ascensão - se bem que muitas vezes possa aparentar caos ou desconstrução.
Toda mudança causa incômodos e incertezas, mas também oportunidades e possibilidades. Cabe a nós contribuirmos para que a mudança seja positiva.
Sou, portanto, um otimista, mas também um tanto desconfiado e precavido.
Um grande abraço do seu velho amigo.
Meu velho e estimado amigo, muito obrigado pela participação e pelas sábias colocações.
ExcluirGostaria muito de nutrir-me de suas esperanças, mas, do lado de cá dos trópicos escolares, desenha-se uma perspectiva desoladora. A fórmula que se nos apresenta - Individualismo extremado, lei do menor esforço, culto às futilidades, incapacidade de distinguir o real do virtual, comodismo e preguiça intelectual, analfabetismo funcional etc - não me apontam uma mudança positiva, já que esta depende do agente. Façamos o seguinte: eu sigo apontando criticamente os sinais do crepúsculo e você os ilumina com os alvores do seu otimismo de grande alma.
Forte abraço saudoso