"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O TRIUNFO DA AMBIGUIDADE SOB CÉU CINZENTO


Dedicado a um futuro incerto

O triunfo da ambiguidade. Essa expressão é complexa e instigante. O núcleo substantivo “triunfo” significa “grande êxito numa batalha”. Uma batalha pressupõe forças contrárias, cujo sucesso cabe apenas a uma delas. Na formação do sintagma, o substantivo abstrato “ambiguidade” detém o poder, pois é dele que advém o triunfo. Entretanto, causa um certo desconforto o seu étimo latino “amb”, que indica duplicidade, remetendo a “dois”. Poderíamos dizer que a força da composição está no incômodo que ela gera: de um lado, o triunfo que sugere um e não dois; do outro, a ambiguidade que corresponde a dois e não a um. Essa complicação se desfaz se considerarmos dois indivíduos concretos disputando algo, de que resultaria o triunfo de um. A expressão que tomamos, no entanto, ganha peso e eficácia se pensada como tradução de uma força que resulta do uso de uma abstração (ambiguidade, dubiedade, incerteza): a energia da dúvida usada como um meio, um instrumento para a conquista, a vitória. Utilizar a dúvida como instrumento para o triunfo. Utilizar. Uma simples questão de cálculo e aplicação.

O processo de impeachment que acabamos de acompanhar encerra uma etapa e dá início a um novo (ou velho? Eis aí a certeza) horizonte para o Brasil. Conjecturando uma esperada imparcialidade, o cidadão que conseguiu atravessar essa fase com neutralidade (princípio que deveria reger as instâncias julgadoras na Câmara, no Senado e no Supremo) sai dela com gosto de ferrugem na boca, fruto amargo do que foi e se manteve corrompido pelo tempo (este mesmo que possibilitaria o progresso).  O amargor incômodo não é consequência direta das forças que agiram em sentido discursivamente contrário: duas reivindicações majoritárias (tchau/fica querida), dois espaços geográficos (avenida/praça, centro/periferia, cidade/campo), duas representações partidárias (coxinhas/petralhas), duas ideologias (direita conservadora/esquerda progressista) etc. Essa separação por si só não foi a alma que conduziu o processo. Embora o espírito fosse de Fla-Flu, a jogada principal contou com escusas habilidades extracampo.

Os responsáveis pela alma do negócio operaram sobre os distintos clamores das torcidas, convertendo o “Ibope” das manifestações pela tabela eleitoral, que não deixou de receber patrocínios financeiros e midiáticos. Mas isso ainda não é tudo. O pulo do gato foi um procedimento secular: cercar tudo com uma atmosfera imprecisa, vaga, fragilmente definível, o beco sem saída da ambiguidade. No espaço da dúvida arquitetada, tudo pode ser e o “escrúpulo da exatidão” leva à loucura ou, no mínimo, à depressão. Conforme disse acima, o triunfo advém da ambiguidade, neste caso, mais precisamente de quem soube engendrá-la no extracampo e administrá-la na arquibancada (Gol da Alemanha!).

E como se gesta e se nutre uma ambiguidade? Temperando os ânimos com toques caseiros de “injustiça lícita e legalidade injusta”, traduzidos em especiarias de jogo de acusações injustas, apoiadas sobre argumentos justos e de argumentos injustos, sustentados por acusações justas. Tudo isso para o triunfo dos Masterchefs e dos cartolas sobre a incauta cozinheira Dilma Rousseff, que distribuiu passes errados no meio de campo e esqueceu o fogo aceso.

Das faces da moeda ambígua, a que restou à arquibancada não traz conforto a nenhum cidadão sóbrio e consciente, já que foi o resultado de uma luta entre acusados e acusados: ficha imunda julgando suja a do outro. A pergunta séria e madura a ser feita é:  qual o resultado do jogo? Há três respostas possíveis, uma para cada tipo de torcedor (dos que não pagam aos que pagam meia entrada): perdemos, empatamos ou vencemos. Sinceramente, a que mais me incomoda é a última resposta, porque ela consagra o triunfo da ambiguidade, a vitória do indefinível “cinza”, do secular modo brasileiro de vencer através da conciliação dos inconciliáveis, do sujo ajuste do desajuste, da vitória material por meio da derrota ética, do moderno alimentado pelo atrasado, das porcelanas finas sobre terra faminta. O gosto de derrota na vitória: o combate à corrupção orquestrado por corruptos.

O exercício da arbitrariedade sob os impulsos do capricho, decidindo, conforme a circunstância e o envolvido, o que é norma e o que é infração. O mal-estar da ambiguidade: a ressaca causada por um cruzado insólito e indigesto (Legal + Ilegítimo) dado pelos velhos pugilistas de rapina naqueles entrincheirados entre a triste realidade de que ela perdera o leme e a indignada consciência de que o remédio foi administrado pela doença. Resta um povo sempre doente. Um povo sempre sem força. O triunfo da abstração sobre a materialidade de um mundo dominado por injustiças perfeitamente lícitas. Imoralidades e Legalidades de mãos dadas. Ainda não é Democracia...

E com a palavra final, Mefistófeles, o diabo (o que divide e rouba as forças):

Cinza, caro amigo, é toda Teoria. E verde, a árvore dourada da Vida”
                                                                                     (Fausto, Goethe)


                                                                           Samuel Veratti

Um comentário:

  1. Definiu de forma magistral este triste capítulo da história brasileira, tudo com letra minúscula mesmo...

    ResponderExcluir