Se não fizermos da morte de Deus uma
grande renúncia e uma perpétua
vitória sobre nós mesmos, teremos que
pagar por essa perda.
(Nietzsche)
Se não tenho pai, então eu devo me engendrar a mim mesmo.
(Danny-Robert
Dufour)
Uma
característica dramática da pós-modernidade talvez seja o fim da
transcendência. Os rumos da tribo humana têm sido, cada vez mais, determinados
por essa falta, esse vazio, essa ausência de um referencial externo
constitutivo da subjetividade e, consequentemente, balizador dos
comportamentos. Mas a transcendência também trouxe suas doenças: carnificinas
em nome de Deus, do Rei e da Raça, por exemplo. O seu fim abre um campo de
possibilidades, mas, por hora, tem apenas sinalizado novos distúrbios psicossociais.
A
proposta interessante de Lacan foi a busca de uma universalidade sem
transcendência. Caso eu não esteja equivocado, essa ideia tem base kantiana e
corresponde ao imperativo categórico como norteador ético do comportamento
humano. No entanto, esse pretenso imperativo precisa ser internalizado para que
opere “naturalmente”. E, se não me engano, a internalização de um “governo”
depende de um processo de simbolização que retorna ao impasse gerado pela
pós-modernidade: em nome de quem eu devo me comportar?
Não
sei a resposta de Lacan, ainda que não nos reste dúvida de que o homem
pós-moderno é autorreferente: empresa de si mesmo. Por hora, observo apenas um
ponto de contato entre a proposta lacaniana e o eu-lírico drummondiano, ateu e
ético. Se considerarmos Claro enigma,
de 1951, como sendo uma espécie de ponto final no arco da sua caminhada pela estrada pedregosa, notaremos que a poesia de Drummond representa uma busca
incessante pelo sentido da vida, o qual não prescinde da relação com o
outro. E qual seria, para ele, o referencial (grande Outro lacaniano) em nome
do qual se deveria agir perante o próximo? Certamente, essa questão era
intrínseca à poesia drummondiana, e os anos 1940 foram decisivos para
que ela ficasse à flor da pele, dada a tragédia da Segunda Grande Guerra. Nas
duas obras coetâneas a esse período paroxístico – Sentimento do mundo (1940) e A
rosa do povo (1945) – evidencia-se o apelo ao amor fraterno como a base
para um imperativo categórico.
Nas
entrelinhas, o poeta cantou o amor, sugerido pela indignação perante a barbárie
da violência visível e invisível, pela valorização das coisas simples, pela
relação simbólica com a Natureza, pelo recurso ao gesto solidário, pela crença
em uma nova ordem mundial, pela comunhão através da poesia. Como balanço
negativo desse esforço, temos o último poema de Claro enigma, “Relógio do Rosário”, em que o poeta conclui que o
único fenômeno capaz de unir os seres humanos e de despertar a noção de
universalidade sem transcendência, talvez, fosse a Dor...
(...)
pelo
âmago de tudo, e no mais fundo
decifro
o choro pânico do mundo,
que
se entrelaça no meu próprio choro,
e
compomos os dois um vasto coro.
Oh
dor individual...
Desiludido,
desiste da capacidade do amor...
O
amor elide a face...Ele murmura
Algo
que foge, e é brisa e fala impura.
O
amor não nos explica. E nada basta,
Nada
é de natureza tão casta
Que
não macule ou perca sua essência
Ao
contato furioso da existência.
Não
se discute o niilismo que permeia Claro
enigma. Restaria avaliar com mais acuidade se esse niilismo era lúcido ou
esgotado, conforme pensado por Nietzsche. A permissão para o azul dado ao céu,
na última estrofe do último poema, sinaliza a lucidez de quem pretende
recomeçar a partir do nada. Em célebre frase, Freud afirmou que o “amor é a
cura, mas também a loucura”. E Lacan concluiu que, em análise, “não se faz
outra coisa, senão falar de amor”. Mas se amor - ainda com Lacan - “é dar o que
não se tem a alguém que não o quer”, como encontrar um substituto que sele o
compromisso universal, se nem a dor humana comove aquele que não tem governo,
nem nunca terá: o desejo? Quem sabe, reinventando o amor, para o qual não há
substituto.
Samuel Veratti
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