"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

LACAN E DRUMMOND SOB UM CÉU DE CHUMBO



Se não fizermos da morte de Deus uma grande renúncia e uma perpétua
vitória sobre nós mesmos, teremos que pagar por essa perda.
(Nietzsche)

Se não tenho pai, então eu devo me engendrar a mim mesmo.
(Danny-Robert Dufour)


Uma característica dramática da pós-modernidade talvez seja o fim da transcendência. Os rumos da tribo humana têm sido, cada vez mais, determinados por essa falta, esse vazio, essa ausência de um referencial externo constitutivo da subjetividade e, consequentemente, balizador dos comportamentos. Mas a transcendência também trouxe suas doenças: carnificinas em nome de Deus, do Rei e da Raça, por exemplo. O seu fim abre um campo de possibilidades, mas, por hora, tem apenas sinalizado novos distúrbios psicossociais.
A proposta interessante de Lacan foi a busca de uma universalidade sem transcendência. Caso eu não esteja equivocado, essa ideia tem base kantiana e corresponde ao imperativo categórico como norteador ético do comportamento humano. No entanto, esse pretenso imperativo precisa ser internalizado para que opere “naturalmente”. E, se não me engano, a internalização de um “governo” depende de um processo de simbolização que retorna ao impasse gerado pela pós-modernidade: em nome de quem eu devo me comportar?
Não sei a resposta de Lacan, ainda que não nos reste dúvida de que o homem pós-moderno é autorreferente: empresa de si mesmo. Por hora, observo apenas um ponto de contato entre a proposta lacaniana e o eu-lírico drummondiano, ateu e ético. Se considerarmos Claro enigma, de 1951, como sendo uma espécie de ponto final no arco da sua caminhada pela estrada pedregosa, notaremos que a poesia de Drummond representa uma busca incessante pelo sentido da vida, o qual não prescinde da relação com o outro. E qual seria, para ele, o referencial (grande Outro lacaniano) em nome do qual se deveria agir perante o próximo? Certamente, essa questão era intrínseca à poesia drummondiana, e os anos 1940 foram decisivos para que ela ficasse à flor da pele, dada a tragédia da Segunda Grande Guerra. Nas duas obras coetâneas a esse período paroxístico – Sentimento do mundo (1940) e A rosa do povo (1945) – evidencia-se o apelo ao amor fraterno como a base para um imperativo categórico.
Nas entrelinhas, o poeta cantou o amor, sugerido pela indignação perante a barbárie da violência visível e invisível, pela valorização das coisas simples, pela relação simbólica com a Natureza, pelo recurso ao gesto solidário, pela crença em uma nova ordem mundial, pela comunhão através da poesia. Como balanço negativo desse esforço, temos o último poema de Claro enigma, “Relógio do Rosário”, em que o poeta conclui que o único fenômeno capaz de unir os seres humanos e de despertar a noção de universalidade sem transcendência, talvez, fosse a Dor...


(...)

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual...

Desiludido, desiste da capacidade do amor...

O amor elide a face...Ele murmura
Algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
Nada é de natureza tão casta

Que não macule ou perca sua essência
Ao contato furioso da existência.


Não se discute o niilismo que permeia Claro enigma. Restaria avaliar com mais acuidade se esse niilismo era lúcido ou esgotado, conforme pensado por Nietzsche. A permissão para o azul dado ao céu, na última estrofe do último poema, sinaliza a lucidez de quem pretende recomeçar a partir do nada. Em célebre frase, Freud afirmou que o “amor é a cura, mas também a loucura”. E Lacan concluiu que, em análise, “não se faz outra coisa, senão falar de amor”. Mas se amor - ainda com Lacan - “é dar o que não se tem a alguém que não o quer”, como encontrar um substituto que sele o compromisso universal, se nem a dor humana comove aquele que não tem governo, nem nunca terá: o desejo? Quem sabe, reinventando o amor, para o qual não há substituto.

                                                                       Samuel Veratti

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