"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 5 de julho de 2011

ADMIRÁVEL GADO NOVO

Êh, ôh,ôh, vida de gado / povo marcado / Êh, povo feliz

O título deste artigo é o mesmo da canção de Zé Ramalho. Não se trata de plágio, nem de homenagem. O uso se explica pela providencial precisão de uma expressão que, além de envolver duas obras que passaremos a analisar, envolve também os temas destas obras. O aboio e o mote de sua canção remetem a conceitos contidos na obra Fazenda Modelo (1974) de Chico Buarque e na ficção de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo (1932).
Esta afirmação não requer muita explicação. Bastaria resumir as obras citadas e o leitor entenderia a inspiração do compositor. Mas, como a canção é antiga em sua produção e atualíssima em sua “voz”, não podemos tratá-la tão superficialmente, já que envolve nossa existência presente. Neste caso, devemos nos deter um pouco mais em considerações.
Talvez, seja interessante dizer que, mediante a inspiração literária, a música de Zé Ramalho abarca passado e futuro em uma letra. Um passado que determinou o presente (logo, não se foi totalmente) e um futuro que foi passado, pois foi projeção vaticinante de um escritor. Logo, o presente desta canção contém o passado e o futuro.
O passado da Fazenda Modelo foi o presente (de grego) de Chico Buarque. Através de uma alegoria genial, ele extravasa o “nó da garganta”. A Fazenda modelada à base de repressão (condicionamento ideológico e genético, prisões, tortura, censura, violência), nada mais é do que uma triste alegoria do nosso passado sob o regime ditatorial, mais precisamente sob o governo Médici.
Chico imaginou o nosso país como um imenso curral, onde os ditadores eram os senhores da fazenda e o gado era o povo. Este universo ficcional tão bem engendrado foi enriquecido por características alegóricas alusivas aos acontecimentos do período em questão. A imposição de uma ideologia insana e a perseguição aos que a recusavam são figuradas na personificação de vacas e bois, ou seja, num rebanho humano que deveria ser manso, sempre na vereda, em fila indiana. Fomos e somos nós, passivos, que sob antolhos trilhamos uma senda antinatural, agressora dos direitos imprescindíveis.
O tema desta mencionada obra bastaria para esclarecer o refrão de Zé Ramalho, mas o título da canção é baseado em outra obra literária: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Escrito em 1932, o livro descreve um mundo que encontrou a estabilidade através do uso extremado de recursos científicos e tecnológicos, bem ao gosto do que vemos em nossos dias. Os indivíduos são literalmente modelados para atenderem aos interesses de um sistema produtivo exacerbado, onde a mecanização desenfreada conduziu à exigência da produção do supérfluo. Para que esta máquina permaneça estável, as peças (homens e mulheres) devem ser precisas. A precisão é fruto de uma verdadeira modelação do ser humano, por meio de um condicionamento genético e psicológico eficientíssimo. A potencialidade desta obra se confirma nas experiências com clonagem feitas atualmente e que deve deixar-nos de sobreaviso.
Entre outras coisas, o aspecto comum entre essas duas obras de ficção - que convergem na letra da música - é a denúncia de uma ideologia nefasta que nos é incutida pelo poder inevitável do condicionamento psicológico. Digo inevitável porque se apóia numa rede emaranhada de aparelhos ideológicos: educação, religião, política econômica e propaganda massificada.
Os que percebem as sutilezas deste sistema vivem sob a angustiante sensação de impotência, intensificada pelo esgar irônico dos condutores e a cegueira das suas vítimas. Como convencer o homem comum, inautêntico , da verdade destas colocações? Por exemplo, como enfrentá-lo com a “herética” afirmação de que a religião é um dos ópios do povo?
Um passo de formiga é deter os olhos sobre a literatura que denuncia a ideologia capciosa e desvenda as suas falácias, ou seja, a condição para o esclarecimento que retira os antolhos e desipnotiza o manso gado depende, sobretudo, do hábito da leitura, tão deteriorado pelo aparelho ideológico que se chama escola .
Quanto às obras mencionadas, a particularidade está no fato que Fazenda modelo foi vivenciada por Chico Buarque e por vários de seus contemporâneos. Eles, efetivamente, passaram por tudo aquilo, foram vítimas diretas da repressão mais absurda, desdobraram-se para driblar os açoites e a censura, sendo a obra de Chico um drible magistral, no melhor estilo Garrincha.
Já com Huxley a coisa é diferente. Não vivenciou o mundo que criou, apenas o profetizou. Sob o gênio e a acuidade do artista que observa a realidade e suas potencialidades e apreende o futuro no presente, ele predisse, em sua ficção, um mundo onde o extremismo tecnológico e científico auxilia os métodos repressivos, perpetuando a marcha autômata do rebanho humano.
Assim, tivemos um rebanho que marchou sob o açoite da ditadura, na trilha que lhe foi imposta; e temos um outro rebanho, mais atual, que é açulado por um aboio condicionante, sem violência física, mas violentado psicologicamente por uma ideologia eficiente, quase inescapável.
Apesar de ser temerária a avaliação de uma época inacabada, nada nos impede de apontarmos as características que potencializam um determinado vir-a-ser. A pretensão desta visão não é definir uma época e sim desvendar e denunciar aspectos funestos que se lhe apresentam. O materialismo dialético de Marx diagnosticou o declínio inevitável do capitalismo e o que vemos é o contrário: os tentáculos do capitalismo se estendem sobre todos os recantos do planeta e forçam adaptações que contrariam intenções socialistas. Estas intenções parecem impossibilitadas de nadar contra a avassaladora maré, restando-lhes adaptarem-se e atreverem-se a reformas sociais que amenizem as desigualdades. Mas, isto não basta para deter um admirável mundo novo...

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro...

Samuel Veratti

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