"Imprudente ofício é este, de viver em voz alta" (Rubem Braga)

terça-feira, 5 de julho de 2011

O MÉTODO INDICIÁRIO NO ESTUDO DA OBRA LITERÁRIA


“Destinado a ver o iluminado, não a luz”. (Pandora, Goethe)

A sociedade moderna norteia-se por métodos quantitativos: estimativas, estatísticas e probabilidades. Mensurar o objeto é, cada vez mais, uma das maneiras de se estimar os meios para dominá-lo e transformá-lo em lucro.Mesmo com todos os avanços tecnológicos e científicos, um breve olhar sobre a sociedade contemporânea é suficiente para questionarmos a palavra progresso, já que a irracionalidade do comportamento aponta a regressão do espírito.
Analisando a obra literária como representação da realidade e reconhecendo esta realidade como o desenvolvimento de um processo gerado por oposições e não como um movimento linear de causalidades inevitáveis, encontramos alguns indicadores das perdas sofridas pelo espírito. Os autores que sobrevivem ao tempo são aqueles sensíveis a essa configuração da realidade e que, representando-a, enfrentam os problemas reais, ou seja, “os problemas individuais e sociais que dão lastro às obras e as amarram ao mundo onde vivemos”.
A partir do Romantismo e da autonomização das esferas (Arte, Filosofia, Religião etc) a crítica tradicional da obra de arte mostrou-se ineficaz, pois, ela própria estava mudada, exigindo assim uma nova abordagem.Walter Benjamin, por exemplo, sugeriu a iluminação da obra a partir dela mesma e não mais de fora para dentro, com teorias pré-estabelecidas. O método tradicional, segundo ele, ao iluminar determinada obra, falava mais sobre a luz do que sobre a própria obra. No mesmo sentido, Adorno insistiu na crítica imanente que, a partir do objeto, formularia suas próprias categorias, rejeitando um denominador comum que o submetesse à heteronomia.
Limitar a apresentação da literatura à noção de épocas e gêneros - aspectos exteriores à obra – pretere a singularidade das obras. Porém, não podemos simplesmente abandonar o estudo dos gêneros, pois eles são categorias empíricas que existem como princípios de formação seguidos pelos escritores no decorrer da história. Deste modo, precisamos conhecê-los, mas não lhes atribuir o estatuto de categorias críticas, já que não dão conta das obras produzidas a partir dos seus próprios modelos. Esta inadequação deve-se ao fato de que a teoria dos gêneros é a configuração cristalizada de universais falsos, enquanto a obra é um todo singular.A teoria, na maioria das vezes, gira em falso sobre o próprio umbigo (luz) esquecendo-se do principal: o objeto (iluminado).
A crítica literária que reconhece a singular organicidade das obras, quer dizer, as relações dialéticas entre as partes e o todo, contribui para a “função humanizadora” da literatura e, de uma certa forma, para o resgate da racionalidade comportamental. Os críticos que veremos a seguir fazem uma leitura - considerada muitas vezes idealista - que focaliza o homem em sociedade: tanto o escritor quanto o seu objeto.
A célebre frase “o estilo é o homem ” é representativa dessa vertente crítica que encontra no estudo estilístico os indícios do homem e sua época, praticando, portanto, uma leitura que tende a valorizar e resgatar o humano, apontando também para a singularidade da obra. Na análise do texto literário, o método consiste em apreender o traço estilístico do autor no desvio da norma lingüística, através da atenção sobre os detalhes que devem conduzir ao centro da obra, considerando-a como um todo onde se encontra o espírito do seu criador. Assim, o ponto de partida é a atenção sobre o detalhe.

1. Em busca do detalhe: o paradigma indiciário de Morelli

Carlo Ginzburg apresenta, em Mitos, emblemas, sinais... , a história do método indiciário, ou seja, a sua origem, evolução e alguns representantes. E é justamente nesse percurso de um método - emerso por volta do final do século XIX - que ele explicitará o desconforto causado por classificações como racionalistas ou irracionalistas, tão polêmico nas confrontações entre as ciências humanas e as ditas exatas.
Um historiador de arte, Giovanni Morelli, atuante entre os anos de 1874 e 1876 sob o pseudônimo Ivan Lermolieff, foi o responsável por artigos sobre pintura italiana que primavam por um método insólito: distinguir os originais das cópias através do exame dos “pormenores mais negligenciáveis e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia: os lóbulos das orelhas, as unhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés ”. Esta ousadia desmereceu os métodos utilizados pelos museus de arte na atribuição das obras e que se iludiam sob os engodos da falsificação.
Partindo da observação daqueles detalhes, Morelli catalogou os traços presentes nos originais, ou seja, a singularidade das formas que passavam despercebidas pelas mãos dos falsificadores. Segundo Wind - citado por Ginzburg- as minúcias “traem a presença de um determinado artista” da mesma forma que as impressões digitais revelam o criminoso .
A doutrina de Morelli, ao sugerir que “a personalidade deve ser procurada onde o esforço pessoal é menos intenso”, precedeu a teoria freudiana sobre o inconsciente revelado nos pequenos gestos.Todavia, a descrença que recaiu sobre a metodologia morelliana não poupou também as teorias freudianas e o motivo foi o mesmo: as conclusões eram pouco científicas, ou se preferirmos, subjetivas.
Para o jovem Freud - que se ocupava dos lapsos como sinais de um inconsciente reprimido - os ensaios de Morelli propunham um “método interpretativo centrado sobre resíduos, sobre os dados marginais, considerados reveladores” ou ainda “pormenores considerados sem importância” que “forneciam a chave para aceder aos produtos mais elevados do espírito humano”.

2. A aplicação do paradigma na Literatura

Analisando a língua de um povo onde ela é bem representada, vale dizer, em sua Literatura, a atenção sobre o uso que se faz dela pode nos oferecer uma amostra significativa do espírito desse povo. Assim, podemos estabelecer como pista para a investigação do nosso objeto o signo lingüístico. Esse tipo de investigação foi realizado pelo crítico e filólogo austríaco, Leo Spitzer, que em sua obra “Lingüística e História literária”, conseguiu ler no traço de estilo, o traço de época. Refletindo seriamente sobre todas as manifestações humanas - assim como Morelli - ele não considerava os detalhes como uma agregação casual de material disperso .
Seu método consiste, resumidamente, em percorrer o texto literário em busca de detalhes lingüísticos que apontem um desvio estilístico, isto é, um afastamento do uso normal da língua caracterizando o estilo do escritor. A proposta de encontrar o homem no traço de estilo requer, segundo ele, atributos subjetivos: talento, experiência e fé . A determinação desses atributos pode residir no pensamento de que se a Literatura é uma representação da realidade, melhor dizendo, se ela é a apresentação de uma realidade mediada pelo sujeito, não há como se apoiar em intenções categoricamente objetivas para o seu estudo.
Deve-se ressaltar que Spitzer não se restringe à observação do desvio lingüístico, pois conjuga os conhecimentos de Lingüística e os de História da literatura num único método. Ele notava que a Lingüística ou a História literária quando se limitavam, cada qual, as suas especialidades, olvidavam o verdadeiro e mais importante objeto de estudo: o homem . Na verdade, o lingüista, ao dar seus passos em busca da etimologia da palavra, pode descobrir os traços históricos do período em que ela foi criada. Além do mais, a palavra como instrumento de expressão naquele dado momento, sob o espírito específico de uma época, pode-se muito bem revelar o traço da época, posto que o espírito de um autor reflete o de sua nação .
Mas, afinal, o que especificamente procura-se no texto em busca desses resultados? Como dizia Benjamin, devemos iluminar o texto a partir da sua própria luz e a iluminação pode realizar-se numa atitude de contemplação do objeto . Na prática, seria ler e reler o texto em busca das “particularidades de estilo” do escritor, enquanto vestígios que apontarão para o todo da obra. Em seguida, aplicar o “movimento circular do entender” que vai do todo à parte e desta volta ao todo , percorrendo as trilhas traçadas pela costura do texto em busca de uma fissura, um ponto que cause estranhamento ou “a sacudida interior”.
Mesmo assim, Spitzer não garante o êxito, pois seu método requer vivência. Neste ponto, justifica-se a expressão alemã: “Methode ist Erlebnis ”, reforçando que as teorias aprendidas pelo investigador não são descartáveis, já que tudo o que ele vivenciou e experimentou, mais o seu talento e a sua fé, compõem os atributos necessários para o seu trabalho. No texto estão as pistas indiciárias que hão de revelar o seu segredo, pois é assim que ele se nos apresenta, perguntando-nos: “Trouxeste a chave?”. A chave é a atenção.

3. Auerbach: um herdeiro exemplar

No final do século XIX, as investigações baseadas na semiótica afirmaram-se nas ciências humanas. A prática de Spitzer será adotada por alguns estudiosos da literatura, entre eles, já no século XX, o crítico literário Erich Auerbach. Em seu livro Mímesis, o método pode ser apreendido já no primeiro capítulo - “A cicatriz de Ulisses” - onde se propõe a comparar o estilo apresentado no texto homérico com o do Velho Testamento. Para tanto, escolhe uma passagem do canto XIX, da Odisséia, que narra a revelação da identidade do mendigo à escrava Euricléia, através de uma cicatriz na perna; e do texto bíblico, a passagem do Gênesis (21:22) que nos fala do sacrifício de Isaac. Nestes fragmentos são observados detalhes estilísticos que revelam peculiaridades do povo grego e do povo judaico, ou seja, do traço de estilo chega-se ao traço de época.
Ao compará-los, Auerbach faz uma análise dos elementos narrativos (personagens, espaço, tempo e ação), mas, principalmente, aponta a relação intrínseca entre conteúdo e forma, partindo da intenção de cada texto: segundo ele, Homero expõe claramente cada elemento e cada acontecimento, sendo que “os diversos membros dos fenômenos são postos sempre em clara relação mútua” e os instrumentos sintáticos (conjunções, advérbios etc) são claramente delimitados e sutilmente graduados na sua significação, havendo “um desfile ininterrupto dos fenômenos onde tudo é iluminado”, nada fica inexplorado ou obscuro. A forma auxilia o conteúdo que se pretende claro: “os entrelaçamentos temporais, locais, causais, finais, consecutivos, comparativos, concessivos, antitéticos e condicionais” (orações subordinadas), trazem “à luz os fenômenos perfeitamente acabados”. Ocorre o que Antonio Candido chamou “a fusão inextricável da mensagem com sua organização” .
No texto bíblico não há esclarecimento nenhum acerca dos fenômenos. Imediatamente após o chamado divino (“Abraão!”), inicia-se a narração “sem interpolação alguma, em poucas orações principais, com ligação sintática pobre ”. Outra diferença é a adjetivação dos elementos no texto homérico (“o solerte Odisseu”, “a velha Euricléia”, “a prudente e sensata Penélope”), enquanto na Bíblia os utensílios, a paisagem e as pessoas “não suportam um adjetivo ”. Perante Deus, eles devem ser. Por isso, nota-se somente o uso de substantivos. Nada é tornado sensível, como ocorre em Homero através dos adjetivos.
A grandeza de Auerbach está em notar nesse detalhe (o uso freqüente de adjetivos num caso e de substantivos no outro) um traço de estilo. Mas, como isto nos revela o traço de época? Segundo o crítico, a minúcia descritiva e a extrema adjetivação homérica tornam quase palpáveis os elementos, o que caracteriza um certo apego ao aqui-e-agora dos fenômenos, o caráter de imanência tão caro ao homem grego. Enquanto no Velho Testamento a falta de causalidade, temporalidade e espacialidade é reforçada pela falta de dependência entre as orações coordenadas que apresentam os fenômenos independentes, expostos horizontalmente, só encontrando sentido na ligação vertical com um signo comum (Deus) que não pode ser explicado nem questionado (basta a crença!). Isto revela o caráter transcendente dos desígnios insondáveis e da relação do povo judeu com a existência.
No entanto, o texto bíblico apresenta uma única adjetivação: “Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas”. Esta passagem é de extrema emoção e dramaticidade e pode ser equiparada à passagem de Homero em que Euricléia acabou de reconhecer a cicatriz e assim a identidade de Odisseu: “Tu és, não há dúvida, Odisseu, meu amado filho”. Apesar da semelhança, distinguem-se pelo fato de que no contexto emotivo que rege cada um desses momentos, percebemos que o adjetivo “amado” apenas caracteriza e poderia mesmo ser suprimido sem desvalorizar a cena, pois está muito mais ligado à característica diferenciadora do filho do que à cena propriamente. Quanto ao adjetivo “único”, notamos que é substantivado, pois, muito mais que uma característica, aponta um ser único: Abraão não tem outros filhos, por isso o adjetivo não o diferencia de ninguém, não o caracteriza e sim diz o que ele é (nomeia o ser) . Quando Euricléia diz “meu amado filho”, sabemos que ela também considera Penélope e Telêmaco, ou seja, Odisseu não é o único. Assim, a intenção do narrador bíblico é salientar quão terrível é a situação de Abraão, o que deveria fixar o título em “O sacrifício de Abraão”e não de Isaac, que nada sabia e nem foi sacrificado.
Outros exemplos poderiam ser dados para ilustrar o uso do método indiciário na leitura de textos, mas, com este, esperamos ter elucidado o quanto a obra pode revelar a partir de si mesma, praticando-se um movimento distinto do tradicional. Por fim, notamos que o signo, a palavra, o estilo revela não só quem narra, mas também e, sobretudo, o homem narrado e sua época. Com esta atenção sobre o homem, há um resgate das diferenças qualitativas, da particularidade contrapondo-se aos métodos quantitativos que tornam tudo equivalente.




Samuel Veratti




Referências bibliográficas:

A BÍBLIA SAGRADA. Trad. João Ferreira de Almeida, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.
AUERBACH, E. Mímesis. São Paulo: Perspectiva, 1994.
BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sérgio Paulo Rouanet, São Paulo: Brasiliense, 1994.
CANDIDO, A. “A literatura e a formação do homem”, in Ciência e Cultura, 24(9), setembro de 1972, pp.803-809.
______. “O direito à literatura”, in Vários escritos, São Paulo: Duas cidades, 1995.
GINZBURG, C. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história, Trad. Federico Carotti, São Paulo: Cia das Letras, 1989.
HOMERO. Odisséia. Trad. Jaime Bruna, São Paulo: Cultrix, 1985.
SPITZER, L. Lingüística e História literária, Madrid: Editorial Gredos, 1968.

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